{"id":178249,"date":"2025-10-03T12:19:34","date_gmt":"2025-10-03T15:19:34","guid":{"rendered":"https:\/\/production.portaltela.com\/noticias\/2025\/10\/03\/taylor-swift-the-life-of-a-showgirl-eu-ouvi\/"},"modified":"2025-10-03T12:19:34","modified_gmt":"2025-10-03T15:19:34","slug":"taylor-swift-the-life-of-a-showgirl-eu-ouvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaltela.com\/entretenimento\/musica\/2025\/10\/03\/taylor-swift-the-life-of-a-showgirl-eu-ouvi\/","title":{"rendered":"Taylor Swift, &#8216;The Life of a Showgirl&#8217;, eu ouvi"},"content":{"rendered":"<p>por Luiz Cesar Pimentel<\/p>\n<p>Juro que meu interesse em Taylor Swift \u00e9 genu\u00edno, desprovido de mesquinhez e sem qualquer inten\u00e7\u00e3o de desqualificar seu sucesso. Dito isso, parti para o 12\u00b0 disco da mo\u00e7a mais bem-sucedida (provavelmente) na hist\u00f3ria da m\u00fasica. Minha miss\u00e3o, 90% antropossociol\u00f3gica e 10% musical, era tentar compreender como ela consegue movimentar massas humanas inimagin\u00e1veis e at\u00e9 \u00edndices econ\u00f4micos por onde passa.<\/p>\n<p>Minha primeira tentativa de compreend\u00ea-la ocorreu h\u00e1 dois anos, quando a vinda de Madonna \u00e0 Praia de Copacabana gerou um frisson em todo o Brasil. Naquela compara\u00e7\u00e3o entre as duas, percebi que a rainha do pop precursora surgiu de outro molde e com outra mat\u00e9ria-prima.<\/p>\n<p>Madonna foi a matriz feminina do fen\u00f4meno da cultura de massa, que j\u00e1 contava com representantes masculinos como Elvis Presley e os Beatles. No universo art\u00edstico, vejo dois grupos principais: os &#8216;cl\u00e1ssicos&#8217; e os &#8216;pontuais&#8217;. Os \u00faltimos tendem a ser mais comerciais, aproveitam um terreno f\u00e9rtil e t\u00eam &#8216;data de validade&#8217;. J\u00e1 a estrela &#8216;cl\u00e1ssica&#8217; \u00e9 aquela que perdura e se torna refer\u00eancia, por sua mistura de pioneirismo, qualidade e originalidade, inspirando as gera\u00e7\u00f5es seguintes. Nos anos 1980, ela e Michael Jackson atingiram esse patamar.<\/p>\n<p>Taylor nasceu justamente no auge do sucesso de ambos, em 1989, e hoje vive um fen\u00f4meno semelhante, mas com caracter\u00edsticas bastante diferentes. Seus n\u00fameros de consumo e alcance, ali\u00e1s, superam os de Madonna. Contudo, revisitando o esp\u00edrito de quatro d\u00e9cadas atr\u00e1s, a constru\u00e7\u00e3o da carreira da precursora foi muito mais org\u00e2nica e lenta, o que gerou um envolvimento profundo da base de f\u00e3s, que reproduzia sua devo\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa. Naquela \u00e9poca, Madonna e Michael Jackson eram figuras conhecidas por todas as classes, credos e gera\u00e7\u00f5es, da av\u00f3 \u00e0 neta. Hoje, a atual diva sobressai mais em faixas et\u00e1rias e classes sociais espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Neste ponto, o arco se inclina para o ponto de vista dos f\u00e3s.<\/p>\n<p>Quem viveu a m\u00fasica nos anos 1980 e quem a vive atualmente, saca que a juventude, mola propulsora de tais fen\u00f4menos, \u00e9 completamente diferente. Nos 80 (e 90), a cultura pop era bem mais bin\u00e1ria. Dava para dividir as tropas entre aqueles que curtiam sons mais transgressores, como hard rock, metal e punk, e aqueles que buscavam um certo (detesto o termo, mas v\u00e1 l\u00e1) acolhimento nas bandas, cultuando artistas que \u201cfalavam para eles e os entendiam\u201d, como Renato Russo, seu (do RR) benchmark Morrissey e afins.<\/p>\n<p>As turmas dividiam-se entre aqueles cujo lema era &#8216;O mundo est\u00e1 errado e isso me d\u00e1 vontade de gritar e chutar a porta&#8217; e os que preferiam &#8216;O mundo est\u00e1 errado e quero algu\u00e9m que me entenda&#8217;. Na base de sua forma\u00e7\u00e3o, ambos passavam por uma esp\u00e9cie de &#8216;linha de montagem na lixa&#8217;, desenvolvendo uma casca mais grossa para as adversidades.<\/p>\n<p>Sei que soar\u00e1 como o cl\u00e1ssico &#8216;no meu tempo era diferente&#8217;, mas convenhamos: a adolesc\u00eancia atual (que parece estender-se dos 12 aos quase 40 anos) foi criada com muito mais &#8216;leite com pera&#8217; e na maciez de uma escova de limpeza de arqueologia. A casca \u00e9 bem mais fina, assim como a toler\u00e2ncia a negativas e a resili\u00eancia. Sinto muito, mas tendo tr\u00eas filhos adolescentes, falo com propriedade.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que, acredito, surge o fen\u00f4meno Taylor Swift.<\/p>\n<p>Ela possui um &#8216;qu\u00ea&#8217; particular em sua carreira musical que a diferencia de outras popstars. Come\u00e7ou no country e flerta com g\u00eaneros em alta como indie-folk, synth-pop e at\u00e9 um leve (mas bem leve) alternativo. No entanto, nada disso se manifesta de forma escancarada em sua obra. Nas 12 m\u00fasicas e 41 minutos de \u201cThe Life of a Showgirl\u201d, sonoramente, nada \u00e9 inovador. N\u00e3o que tivesse essa obriga\u00e7\u00e3o. Mas ela joga em um terreno bem seguro nos campos mel\u00f3dico e harm\u00f4nico.<\/p>\n<p>A inova\u00e7\u00e3o \u2014 e n\u00e3o sei se \u00e9 uma &#8216;boa nova&#8217; \u2014 reside em como ela antecipa a f\u00f3rmula do drop (aquele truque de produ\u00e7\u00e3o em que, em determinado ponto da can\u00e7\u00e3o, ocorre uma mudan\u00e7a s\u00fabita de ritmo e a m\u00fasica &#8216;explode&#8217;, precedida por um crescendo, sabe?). Geralmente, isso ocorria em cerca de um minuto; Taylor reduziu para a faixa dos 40 e poucos segundos. Isso pode ser um sinal de que ela percebeu a desaten\u00e7\u00e3o crescente do p\u00fablico, precisando antecipar os ganchos da m\u00fasica.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 isso que me faz acreditar ser a &#8216;bala de prata&#8217; da conquista de Taylor Swift. Tampouco \u00e9 o sex appeal, pois, convenhamos, este permanece na mesma frequ\u00eancia vibracional de um hamster gripado. Mesmo que ela pose fazendo caras e bocas, usando lingeries e biqu\u00ednis, n\u00e3o convence ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>O que ela realmente tem de cativante \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o l\u00edrica. Ela conta hist\u00f3rias como n\u00e3o vejo mais ningu\u00e9m no pop capaz. E conhece o p\u00fablico e o mundo, que vive uma epidemia de transtornos mentais e carente como nunca de (n\u00e3o acredito que usarei o termo duas vezes no mesmo texto) acolhimento.<\/p>\n<p>Suas letras s\u00e3o ricas em detalhes que nos transportam para as hist\u00f3rias que conta, uma caracter\u00edstica comum aos grandes cronistas. Al\u00e9m disso, ela exp\u00f5e sua vulnerabilidade, seus romances mal-sucedidos, as sacanagens que lhe fizeram e monta o pacote com adicionais de pistas para a sequ\u00eancia que vir\u00e1.<\/p>\n<p>Sua m\u00fasica, portanto, \u00e9 mais para o peito e o c\u00e9rebro do que para os ouvidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o que lhe falte qualidade. De pronto, \u00e9 expl\u00edcita a qualidade de can\u00e7\u00f5es como \u201cEldest Daughter\u201d e \u201cRuin the Friendship\u201d. Mas vai chegando ao final do disco e voc\u00ea pensa que uma m\u00fasica como \u201cHoney\u201d s\u00f3 est\u00e1 ali para ocupar espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 generosa ao dividir a m\u00fasica que batiza o \u00e1lbum com uma estrela em ascens\u00e3o (ou j\u00e1 ascendida), Sabrina Carpenter. Esta, apesar da cr\u00edtica de ser uma &#8216;gen\u00e9rica de tudo o que faz sucesso no pop&#8217;, chama mais a aten\u00e7\u00e3o dos meus ouvidos \u2013 pelo menos da forma como eles foram educados.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, a trajet\u00f3ria de Taylor Swift, embora grandiosa como a de Madonna, se desenrola em um terreno sociocultural distinto. Ela n\u00e3o \u00e9 a matriz da cultura de massa dos anos 80, forjada na aspereza e na descoberta em um mundo mais bin\u00e1rio. Em vez disso, Taylor se consolida como a voz e o acolhimento (3\u00aa vez) para uma nova gera\u00e7\u00e3o, cuja busca por identifica\u00e7\u00e3o e vulnerabilidade exposta \u00e9 a chave para a conex\u00e3o massiva. Sua m\u00fasica \u00e9 menos sobre a explos\u00e3o sonora ou a inova\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica, e mais sobre a implos\u00e3o de sentimentos compartilhados, as hist\u00f3rias contadas ao p\u00e9 do ouvido de um p\u00fablico que a v\u00ea n\u00e3o como uma super-estrela inating\u00edvel, mas como uma cronista de suas pr\u00f3prias dores e alegrias, validando suas emo\u00e7\u00f5es em cada estrofe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<ul>\n<li>Taylor Swift lan\u00e7ou seu 12\u00b0 disco, &#8220;The Life of a Showgirl&#8221;, que explora temas de vulnerabilidade e identifica\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>A artista, nascida em 1989, se destaca por seu apelo emocional e constru\u00e7\u00e3o l\u00edrica, diferenciando-se de outras popstars.<\/li>\n<li>Suas letras contam hist\u00f3rias detalhadas, refletindo a busca por acolhimento em um contexto de crescente epidemia de transtornos mentais.<\/li>\n<li>A m\u00fasica apresenta uma f\u00f3rmula de produ\u00e7\u00e3o que antecipa mudan\u00e7as de ritmo, adaptando-se \u00e0 desaten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico.<\/li>\n<li>A trajet\u00f3ria de Swift se desenrola em um cen\u00e1rio sociocultural distinto, conectando-se com uma nova gera\u00e7\u00e3o em busca de identifica\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":178269,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"summary":"E estas n\u00e3o \u00e9 uma tentativa de carona no hype por react ou algo do tipo; para isso, h\u00e1 milhares de blogs com 'Pop' no nome","footnotes":""},"categories":[12,43],"tags":[100],"class_list":["post-178249","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entretenimento","category-musica","tag-noticia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts\/178249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/comments?post=178249"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts\/178249\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/media\/178269"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/media?parent=178249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/categories?post=178249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/tags?post=178249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}