{"id":216294,"date":"2025-09-12T11:20:11","date_gmt":"2025-09-12T14:20:11","guid":{"rendered":"https:\/\/production.portaltela.com\/noticias\/2025\/09\/12\/violencia-de-genero-e-impunidade-por-que-parece-que-a-justica-falha-com-as-mulheres\/"},"modified":"2025-09-12T11:20:11","modified_gmt":"2025-09-12T14:20:11","slug":"violencia-de-genero-e-impunidade-por-que-parece-que-a-justica-falha-com-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaltela.com\/noticias\/politica\/2025\/09\/12\/violencia-de-genero-e-impunidade-por-que-parece-que-a-justica-falha-com-as-mulheres\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia de g\u00eanero e impunidade: por que parece que a justi\u00e7a falha com as mulheres?"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, o Brasil tem convivido com n\u00fameros alarmantes de feminic\u00eddios, casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica e diferentes formas de agress\u00e3o contra mulheres. Apesar dos avan\u00e7os legislativos, a sensa\u00e7\u00e3o generalizada \u00e9 de impunidade: muitos agressores permanecem soltos, reincidem e refor\u00e7am a ideia de que \u201ca justi\u00e7a n\u00e3o funciona\u201d.<\/p>\n<p>Esse paradoxo \u2014 leis duras e percep\u00e7\u00e3o de inefic\u00e1cia \u2014 n\u00e3o \u00e9 exclusivo do pa\u00eds. A ONU estima que uma em cada tr\u00eas mulheres no mundo j\u00e1 sofreu viol\u00eancia f\u00edsica ou sexual, mas menos de 40% delas busca apoio formal. No Brasil, a promotora <strong>Sara Gama<\/strong>, especialista em Direito Penal e vice-coordenadora da <strong>Comiss\u00e3o Permanente de Combate \u00e0 Viol\u00eancia Dom\u00e9stica e Familiar contra a Mulher (Copevid)<\/strong>, que integra o Grupo Nacional de Direitos Humanos do Minist\u00e9rio P\u00fablico, refor\u00e7a que o desafio brasileiro tem ra\u00edzes hist\u00f3ricas, culturais e institucionais.<\/p>\n<p>*\u201cDurante muito tempo, a viol\u00eancia contra a mulher era tratada como briga de marido e mulher, algo sobre o qual ningu\u00e9m \u2018metia a colher\u2019. O sistema jur\u00eddico acompanhava essa toler\u00e2ncia social. S\u00f3 recentemente passamos a olhar para a mulher como sujeito de direitos dentro do processo\u201d*, afirma.<\/p>\n<h3>Uma legisla\u00e7\u00e3o em adapta\u00e7\u00e3o permanente<\/h3>\n<p>O Brasil disp\u00f5e hoje de leis robustas, como a <strong>Lei Maria da Penha (2006)<\/strong> e a tipifica\u00e7\u00e3o do <strong>feminic\u00eddio (2015)<\/strong>. No entanto, segundo a promotora Sara Gama, o arcabou\u00e7o jur\u00eddico ainda carrega marcas de um <strong>C\u00f3digo Penal de 1940<\/strong>, que n\u00e3o dialoga plenamente com a realidade atual.<\/p>\n<p>Ela recorre a uma met\u00e1fora para explicar o descompasso: *\u201c\u00c9 como colocar uma moldura antiga em volta de uma tela moderna. A lei avan\u00e7a, mas as regras processuais ainda s\u00e3o do s\u00e9culo passado. Por isso, a Maria da Penha \u00e9 a legisla\u00e7\u00e3o mais alterada da hist\u00f3ria: n\u00e3o porque seja fr\u00e1gil, mas porque precisa se adaptar o tempo todo para garantir efic\u00e1cia\u201d.*<\/p>\n<p>Esse desalinhamento ajuda a explicar a sensa\u00e7\u00e3o de que puni\u00e7\u00f5es n\u00e3o acontecem na velocidade necess\u00e1ria. Mesmo ap\u00f3s o <strong>pacote antifeminic\u00eddio de 2024<\/strong>, que endureceu penas e alterou regras de execu\u00e7\u00e3o, o problema n\u00e3o se resolve apenas com reformas legais.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros mostram o quanto a legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 acionada pelas v\u00edtimas: em 2024, <strong>mais de 831 mil mulheres solicitaram medidas protetivas<\/strong>, e <strong>582 mil tiveram seus pedidos deferidos<\/strong>. Para Sara, esses dados revelam que a lei \u00e9 usada como ferramenta de prote\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m deixam claro que o sistema precisa ir al\u00e9m da letra fria da norma para ser efetivo.<\/p>\n<h3>Da v\u00edtima-objeto \u00e0 v\u00edtima-protagonista<\/h3>\n<p>Uma das maiores transforma\u00e7\u00f5es trazidas pela Lei Maria da Penha foi colocar a mulher no <strong>centro das decis\u00f5es judiciais<\/strong>. Hoje, instrumentos como o <strong>formul\u00e1rio de risco<\/strong> permitem avaliar a chance real de feminic\u00eddio e oferecer medidas protetivas urgentes.<\/p>\n<p>Para Sara, esse protagonismo \u00e9 essencial: *\u201cA mulher deixa de ser objeto de processo e passa a ser protagonista da pr\u00f3pria vida. Ela decide os caminhos, com informa\u00e7\u00f5es claras sobre riscos e servi\u00e7os dispon\u00edveis\u201d.*<\/p>\n<p>Esse olhar vai al\u00e9m das salas de audi\u00eancia: iniciativas recentes incluem <strong>salas permanentes de acolhimento em shoppings<\/strong>, campanhas em <strong>est\u00e1dios de futebol<\/strong> e a\u00e7\u00f5es de conscientiza\u00e7\u00e3o no <strong>Carnaval da Bahia<\/strong>. *\u201cA ideia \u00e9 que a mulher n\u00e3o precise procurar apenas a delegacia. A sociedade inteira precisa ser rede de apoio\u201d*, defende.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das lacunas da lei, Sara Gama destaca o peso de fatores <strong>culturais e hist\u00f3ricos<\/strong> na perpetua\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher. Segundo ela, o avan\u00e7o feminino no s\u00e9culo XXI \u2014 ocupando universidades, est\u00e1dios e espa\u00e7os de lideran\u00e7a no mercado de trabalho \u2014 provocou em parte da sociedade masculina uma sensa\u00e7\u00e3o de perda de privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>*\u201cQuando as mulheres passaram a ocupar universidades, est\u00e1dios e o mercado de trabalho, muitos homens se sentiram amea\u00e7ados em seus privil\u00e9gios hist\u00f3ricos. A viol\u00eancia \u00e9, muitas vezes, a resposta de quem n\u00e3o aceita perder esse lugar\u201d.*<\/p>\n<p>Essa rea\u00e7\u00e3o, explica a promotora, mostra como a viol\u00eancia de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 apenas um problema individual ou dom\u00e9stico, mas um reflexo de estruturas sociais que ainda resistem \u00e0 igualdade. Por isso, <strong>n\u00e3o basta punir<\/strong>: \u00e9 fundamental investir em <strong>educa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero desde cedo<\/strong>, inserindo meninos e homens no debate sobre respeito, pap\u00e9is sociais e corresponsabilidade. Afinal, s\u00f3 vamos reduzir feminic\u00eddios se trouxermos os homens para a conversa.<\/p>\n<p>Sara resume a centralidade da participa\u00e7\u00e3o feminina com uma imagem contundente: *\u201cA economia mundial quebra se as mulheres resolverem voltar para casa. Somos protagonistas, e isso precisa ser compreendido\u201d.*<\/p>\n<h3>Feminic\u00eddio e a fam\u00edlia que fica<\/h3>\n<p>Apesar de leis cada vez mais severas, o n\u00famero de feminic\u00eddios segue alto no Brasil. Para a promotora Sara Gama, isso n\u00e3o significa um fracasso do sistema, mas sim um reflexo do aumento das den\u00fancias e da maior visibilidade do tema.<\/p>\n<p>*\u201cSe com leis estamos em quinto lugar no ranking mundial de feminic\u00eddios, imagine sem elas. A viol\u00eancia sempre existiu, mas agora aparece mais\u201d.*<\/p>\n<p>Ela refor\u00e7a um ponto central: <strong>a viol\u00eancia de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 problema apenas das mulheres, mas da sociedade como um todo<\/strong>. Seu impacto se multiplica em c\u00edrculos familiares, atingindo filhos, pais e comunidades inteiras.<\/p>\n<p>Um estudo do <strong>F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP)<\/strong> estimou que, s\u00f3 em 2024, <strong>2.592 crian\u00e7as e adolescentes ficaram \u00f3rf\u00e3os em decorr\u00eancia de feminic\u00eddios<\/strong>. O <strong>Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/strong> trouxe outro dado alarmante: <strong>15% dos homens que matam suas companheiras cometem suic\u00eddio em seguida<\/strong>, ampliando o rastro de trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>No <strong>Rio Grande do Sul<\/strong>, o <strong>Mapa de Feminic\u00eddios da Pol\u00edcia Civil<\/strong> detalha a dimens\u00e3o do problema:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>2022<\/strong>: das 111 v\u00edtimas, 89 eram m\u00e3es; 219 filhos ficaram \u00f3rf\u00e3os, 95 deles crian\u00e7as e adolescentes.<\/li>\n<li><strong>2023<\/strong>: das 87 v\u00edtimas, 64 eram m\u00e3es; 137 filhos perderam a m\u00e3e, sendo 82 menores de idade.<\/li>\n<li><strong>2024<\/strong>: das 72 v\u00edtimas, 48 eram m\u00e3es; 100 filhos ficaram \u00f3rf\u00e3os, 54 deles crian\u00e7as e adolescentes.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O impacto vai muito al\u00e9m do luto. Em muitos casos, as fam\u00edlias perdem tamb\u00e9m sua principal fonte de renda. E, para as crian\u00e7as, o trauma psicol\u00f3gico \u00e9 profundo: testemunhar ou viver em ambientes de viol\u00eancia dom\u00e9stica pode gerar <strong>agressividade, depress\u00e3o, isolamento, dificuldades de aprendizado, d\u00e9ficit cognitivo e transtornos mentais<\/strong>.<\/p>\n<p>Sara faz um alerta duro: *\u201cEstamos produzindo uma bomba-rel\u00f3gio social. Essas crian\u00e7as crescem em contextos de perda, abandono e viol\u00eancia, o que pode perpetuar ciclos de agress\u00e3o se n\u00e3o houver suporte efetivo\u201d.*<\/p>\n<h3>O papel de cada um<\/h3>\n<p>A promotora insiste que o enfrentamento \u00e9 coletivo:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Poder p\u00fablico<\/strong>: aperfei\u00e7oar leis, acolher v\u00edtimas e garantir puni\u00e7\u00f5es eficazes.<\/li>\n<li><strong>Sociedade civil<\/strong>: apoiar vizinhas, amigas, conhecidas, oferecer ombro e escuta.<\/li>\n<li><strong>Fam\u00edlias<\/strong>: criar filhos fora da l\u00f3gica do machismo.<\/li>\n<\/ul>\n<p>*\u201cN\u00e3o \u00e9 rebeldia feminina, \u00e9 humanidade b\u00e1sica. A viol\u00eancia contra a mulher tira a vida delas e tamb\u00e9m desumaniza os homens. \u00c9 preciso mudar essa cultura de posse\u201d.*<\/p>\n<h3>Um legado de inc\u00f4modo<\/h3>\n<p>Em palestras, Sara costuma citar Nietzsche: *\u201c\u00c9 preciso ter o caos dentro de si para gerar estrelas dan\u00e7antes.\u201d*<\/p>\n<p>Para ela, esse caos \u00e9 o desconforto de enfrentar o machismo estrutural, de incomodar o status quo e de provocar reflex\u00e3o. *\u201cSe queremos um mundo mais pacificado, temos que come\u00e7ar pelas nossas atitudes. N\u00e3o podemos esperar 130 anos, como estima a ONU, para viver em igualdade. O tempo de agir \u00e9 agora\u201d.*<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<ul>\n<li>O Brasil enfrenta altos \u00edndices de feminic\u00eddios e viol\u00eancia dom\u00e9stica, com muitos agressores ainda soltos, gerando uma sensa\u00e7\u00e3o de impunidade.<\/li>\n<li>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) estima que uma em cada tr\u00eas mulheres no mundo j\u00e1 sofreu viol\u00eancia f\u00edsica ou sexual, mas menos de 40% buscam ajuda formal.<\/li>\n<li>A promotora Sara Gama, especialista em Direito Penal, destaca que a legisla\u00e7\u00e3o brasileira, embora robusta, ainda reflete um C\u00f3digo Penal de 1940, necessitando de adapta\u00e7\u00f5es constantes.<\/li>\n<li>Em 2024, mais de 831 mil mulheres solicitaram medidas protetivas no Brasil, evidenciando que a lei \u00e9 utilizada como ferramenta de prote\u00e7\u00e3o, mas o sistema precisa evoluir.<\/li>\n<li>O impacto da viol\u00eancia de g\u00eanero se estende \u00e0s fam\u00edlias, com milhares de crian\u00e7as e adolescentes ficando \u00f3rf\u00e3os, o que gera consequ\u00eancias sociais e psicol\u00f3gicas profundas.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"author":16,"featured_media":216337,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"summary":"A promotora Sara Gama aponta ra\u00edzes hist\u00f3ricas, culturais e institucionais para o problema","footnotes":""},"categories":[1,33],"tags":[100],"class_list":["post-216294","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","category-politica","tag-noticia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts\/216294","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/users\/16"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/comments?post=216294"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts\/216294\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/media\/216337"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/media?parent=216294"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/categories?post=216294"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/tags?post=216294"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}