{"id":320047,"date":"2026-01-11T21:31:18","date_gmt":"2026-01-12T00:31:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaltela.com\/noticias\/2026\/01\/11\/a-agenda-inacabada-da-conservacao\/"},"modified":"2026-01-11T21:31:18","modified_gmt":"2026-01-12T00:31:18","slug":"a-agenda-inacabada-da-conservacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaltela.com\/noticias\/ciencia\/2026\/01\/11\/a-agenda-inacabada-da-conservacao\/","title":{"rendered":"A agenda inacabada da conserva\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Conservationists enfrentam uma cr\u00edtica fundamental ao modo como a pr\u00e1tica \u00e9 entendida hoje. Um estudo recente na Nature afirma que a vis\u00e3o t\u00e9cnico-emp\u00edrica, centrada em \u00e1reas protegidas e m\u00e9tricas ecol\u00f3gicas, deixa de considerar como ra\u00e7a, poder e exclus\u00e3o hist\u00f3rica moldam a conserva\u00e7\u00e3o atualmente.<\/p>\n<p>O texto, assinado por Moreangels Mbizah, da Wildlife Conservation Action, em Harare, parte de uma perspectiva hist\u00f3rica. Sustenta que o conservationismo nasceu em contextos coloniais, tratando terras como vazias e comunidades como obst\u00e1culos, padr\u00f5es que persistem de forma sutil.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa, esses legados influenciam quem tem voz, quem arca com custos e o que \u00e9 considerado sucesso. O conceito de \u201cpath dependencies\u201d aponta para pr\u00e1ticas que privilegiam saberes externos e controle centralizado, ainda que de forma menos expl\u00edcita hoje.<\/p>\n<p>O estudo enfatiza a marginaliza\u00e7\u00e3o de povos ind\u00edgenas e comunidades locais, especialmente no Sul Global. Tais grupos s\u00e3o frequentemente descritos como \u201cstakeholders\u201d em vez de detentores de direitos sobre suas terras, o que revela assimetrias de poder.<\/p>\n<p>Mesmo com boas inten\u00e7\u00f5es, projetos podem reproduzir hierarquias antigas se a consulta vier apenas ap\u00f3s as prioridades definidas ou se a participa\u00e7\u00e3o se limitar \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o, sem decis\u00e3o.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise destaca o esfor\u00e7o global de ampliar \u00e1reas protegidas para 30% do planeta at\u00e9 2030. A meta pode favorecer abordagens plurais, como territ\u00f3rios geridos por povos ind\u00edgenas, mas pode falhar sem mecanismos legais que reconhe\u00e7am direitos tradicionais.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a conserva\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 apenas uma quest\u00e3o ambiental. Quando direitos humanos s\u00e3o secund\u00e1rios, o sucesso ecol\u00f3gico pode ter custos sociais elevados, segundo os autores.<\/p>\n<p>Outra linha de pensamento aponta como as narrativas de conserva\u00e7\u00e3o valorizam animais em detrimento de pessoas que convivem com a vida silvestre. Conflitos locais aparecem com menos visibilidade do que ferimentos a animais carism\u00e1ticos, gerando desigualdades percept\u00edveis.<\/p>\n<p>O estudo n\u00e3o enquadra as din\u00e2micas de forma estritamente racial, mas destaca intersec\u00e7\u00f5es entre ra\u00e7a, classe, geografia e poder pol\u00edtico. Autoridades urbanas de pa\u00edses de baixa renda podem reproduzir assimetrias globais, mirroring o Norte-Sul.<\/p>\n<p>A proposta central \u00e9 o framework RACE: Rights, Agency, Challenge e Education. N\u00e3o \u00e9 uma lista de verifica\u00e7\u00e3o, mas uma lente para que organiza\u00e7\u00f5es, pesquisadores e financiadores avaliem pr\u00e1ticas internas.<\/p>\n<p>Direitos s\u00e3o o eixo, segundo o texto: conservar n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel se viola direitos b\u00e1sicos a terras, cultura e autodetermina\u00e7\u00e3o. Ag\u00eancia vem a seguir: comunidades precisam ter poder real de decis\u00e3o, n\u00e3o apenas papel consultivo.<\/p>\n<p>Desafios envolvem institui\u00e7\u00f5es poderosas assumirem posi\u00e7\u00e3o p\u00fablica diante de danos ou exclus\u00f5es geradas pela conserva\u00e7\u00e3o. Educa\u00e7\u00e3o demanda enfrentar a pr\u00f3pria hist\u00f3ria e reconhecer saberes n\u00e3o ocidentais.<\/p>\n<p>Os autores ressaltam que o objetivo n\u00e3o \u00e9 causar culpa, mas evitar repeti\u00e7\u00e3o de erros sob novas formas. A ideia \u00e9 fortalecer a rela\u00e7\u00e3o entre habitantes locais e a natureza, reconhecendo a ag\u00eancia das comunidades.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m um aspecto pragm\u00e1tico: a conserva\u00e7\u00e3o opera em um cen\u00e1rio pol\u00edtico fragmentado, com cortes de financiamento e desconfian\u00e7a de institui\u00e7\u00f5es internacionais. Legitimidade local reduz riscos de conflitos.<\/p>\n<p>A pesquisa admite que mudan\u00e7as n\u00e3o ser\u00e3o f\u00e1ceis. O ac\u00famulo de poder raramente \u00e9 cedido voluntariamente, e a conserva\u00e7\u00e3o n\u00e3o resolve injusti\u00e7as sociais amplas sozinha. O foco \u00e9 encarar a desigualdade como parte intr\u00ednseca da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Em resumo, o estudo defende que a conserva\u00e7\u00e3o precisa tratar rela\u00e7\u00f5es como n\u00facleo central. Ignorar essas rela\u00e7\u00f5es apenas adia seus impactos para quem tem menos capacidade de absorv\u00ea-los.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<ul>\n<li>Um artigo da Nature argumenta que a conserva\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m de n\u00fameros: \u00e9 moldada por ra\u00e7a, poder e exclus\u00e3o hist\u00f3rica, influenciando quem det\u00e9m autoridade, custos e defini\u00e7\u00e3o de sucesso.<\/li>\n<li>As ra\u00edzes remontam ao s\u00e9culo dezenove, quando \u00e1reas protegidas foram criadas com remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, marginalizando povos ind\u00edgenas e comunidades rurais em nome de uma natureza \u201cpristina\u201d.<\/li>\n<li>Mesmo com mudan\u00e7as, padr\u00f5es antigos persistem como \u201cdepend\u00eancias de caminho\u201d, privilegiando saberes externos e controle centralizado.<\/li>\n<li>O texto analisa a meta de proteger trinta por cento do planeta at\u00e9 2030: o ideal pode ampliar a participa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios administrados por povos e comunidades, desde que haja reconhecimento de direitos tradicionais; caso contr\u00e1rio, pode reproduzir injusti\u00e7as.<\/li>\n<li>Prop\u00f5e o framework RACE \u2014 Direitos, Ag\u00eancia, Desafio e Educa\u00e7\u00e3o \u2014 para avaliar pr\u00e1ticas de conserva\u00e7\u00e3o, defendendo que resultados fortes v\u00eam quando comunidades pr\u00f3ximas \u00e0 terra t\u00eam real poder e participa\u00e7\u00e3o decision\u00e1ria.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":320054,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"summary":"Conserva\u00e7\u00e3o precisa reconhecer desigualdades hist\u00f3ricas que moldam quem decide, quem participa e quem suporta custos na prote\u00e7\u00e3o de terras","footnotes":""},"categories":[296,1],"tags":[240,218,102,89,101,31],"class_list":["post-320047","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ciencia","category-noticias","tag-cidadania","tag-comunidade","tag-conflitos","tag-meio-ambiente","tag-pessoas","tag-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts\/320047","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/comments?post=320047"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/posts\/320047\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/media\/320054"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/media?parent=320047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/categories?post=320047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.portaltela.com\/api\/wp\/v2\/tags?post=320047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}