{"id":408393,"date":"2026-03-09T16:57:35","date_gmt":"2026-03-09T19:57:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaltela.com\/?p=408393"},"modified":"2026-03-09T17:00:10","modified_gmt":"2026-03-09T20:00:10","slug":"o-primeiro-grande-feito-da-computacao-quantica-talvez-nao-venha-da-ia-mas-das-moleculas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaltela.com\/cotidiano\/tecnologia\/2026\/03\/09\/o-primeiro-grande-feito-da-computacao-quantica-talvez-nao-venha-da-ia-mas-das-moleculas\/","title":{"rendered":"O primeiro grande feito da Computa\u00e7\u00e3o Qu\u00e2ntica talvez n\u00e3o venha da IA, mas das mol\u00e9culas"},"content":{"rendered":"\n<p>Tentarei criar outra cena, menos fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e mais bancada de laborat\u00f3rio. Imagine uma chaveiro diante de um molho com 10 milh\u00f5es de chaves. Esse \u00e9 o trabalho da descoberta de f\u00e1rmacos e novos materiais. Encontrar a mol\u00e9cula certa n\u00e3o \u00e9 simplesmente misturar coisas e torcer. \u00c9 prever qual arranjo de \u00e1tomos ser\u00e1 est\u00e1vel, qual liga\u00e7\u00e3o vai quebrar, qual el\u00e9tron vai migrar, qual prote\u00edna vai aceitar aquele encaixe sem produzir dez efeitos colaterais no pacote.<\/p>\n\n\n\n<p>O computador cl\u00e1ssico faz isso como um trabalhador bra\u00e7al: aproxima, estima, simplifica, corta caminho, cria modelos que funcionam muito bem at\u00e9 o ponto em que o pr\u00f3prio problema come\u00e7a a zombar da simplifica\u00e7\u00e3o. Porque mol\u00e9culas n\u00e3o s\u00e3o planilhas. Materiais n\u00e3o s\u00e3o uma lista de pe\u00e7as. A mat\u00e9ria, em seu estado mais \u00edntimo, j\u00e1 \u00e9 qu\u00e2ntica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a\u00ed que a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica deixa de parecer um brinquedo de TED Talk e come\u00e7a a fazer sentido pr\u00e1tico. Seu primeiro grande impacto talvez n\u00e3o seja em intelig\u00eancia artificial, nem em <em>chatbots<\/em> mais eloquentes, nem em algum \u201cChatGPT com superposi\u00e7\u00e3o\u201d vendido em <em>keynote<\/em>. O terreno mais promissor \u00e9 outro: simular a natureza onde o computador convencional come\u00e7a a suar frio; isto \u00e9, na qu\u00edmica e na ci\u00eancia dos materiais.<\/p>\n\n\n\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 extremamente simples. Um computador qu\u00e2ntico n\u00e3o \u00e9 especial apenas porque faz contas de um jeito ex\u00f3tico. Ele \u00e9 especial porque usa a mesma gram\u00e1tica f\u00edsica que governa el\u00e9trons, orbitais, liga\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas e estados energ\u00e9ticos. O f\u00edsico Richard Feynman resumiu isso d\u00e9cadas atr\u00e1s: se voc\u00ea quer simular a natureza, o ideal \u00e9 fazer isso com algo que tamb\u00e9m seja qu\u00e2ntico. A intui\u00e7\u00e3o continua valendo. Mol\u00e9culas e materiais carregam informa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica; conforme o sistema cresce, a descri\u00e7\u00e3o completa desse comportamento pode exigir um volume de informa\u00e7\u00e3o que explode para m\u00e1quinas cl\u00e1ssicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui conv\u00e9m matar um equ\u00edvoco antes que ele crie raiz. N\u00e3o se trata de dizer que o computador cl\u00e1ssico virou sucata. A qu\u00edmica computacional cl\u00e1ssica evoluiu bastante e, em muitos problemas, j\u00e1 entrega resultados excelentes com aproxima\u00e7\u00f5es muito inteligentes. O ponto n\u00e3o \u00e9 \u201csubstituir tudo\u201d. O ponto \u00e9 que h\u00e1 regi\u00f5es do mapa, sobretudo onde entram correla\u00e7\u00f5es mais complicadas, materiais fortemente correlacionados e sistemas moleculares dif\u00edceis, em que a conta fica cara demais, lenta demais ou simplesmente deformada demais pelas aproxima\u00e7\u00f5es. Nesses trechos, o qu\u00e2ntico aparece n\u00e3o como moda, mas como ferramenta nativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pense em dois tipos de ignor\u00e2ncia cient\u00edfica. A primeira \u00e9 a ignor\u00e2ncia produtiva: \u201cn\u00e3o sei ainda, mas consigo testar cinco mil hip\u00f3teses em simula\u00e7\u00e3o\u201d. A segunda \u00e9 a ignor\u00e2ncia cara: \u201cn\u00e3o sei, e cada teste custa meses, milh\u00f5es de d\u00f3lares e um batalh\u00e3o de cientistas em laborat\u00f3rios\u201d. A ind\u00fastria farmac\u00eautica convive com essa segunda forma h\u00e1 d\u00e9cadas. Descobrir rem\u00e9dios continua sendo um processo longo, caro e cheio de fracassos. O computador ajuda a filtrar candidatos, prever intera\u00e7\u00f5es, estimar energias, modelar encaixes moleculares. Mas, quando a f\u00edsica real da mol\u00e9cula fica complexa demais, o modelo cl\u00e1ssico precisa negociar com a realidade. E, em ci\u00eancia, toda negocia\u00e7\u00e3o cobra ped\u00e1gio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica atrai tanto interesse em biotecnologia. Empresas e grupos de pesquisa n\u00e3o est\u00e3o olhando para o qu\u00e2ntico porque ele \u201csoa futuro\u201d, mas porque ele promete melhorar justamente a parte mais indigesta do trabalho: simular como a mat\u00e9ria se comporta antes de gastar anos confirmando isso no mundo real.<\/p>\n\n\n\n<p>A IBM, por exemplo, enquadra o setor de biotecnologia como um dos mais r\u00e1pidos na transi\u00e7\u00e3o para casos de uso \u00fateis, citando aplica\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 simula\u00e7\u00e3o da natureza, desenho de terapias e estruturas de RNA mensageiro. A pr\u00f3pria McKinsey, em seu monitor de tecnologia qu\u00e2ntica de 2025, destaca \u201cpharma and chemicals\u201d e simula\u00e7\u00e3o molecular como um dos casos de uso centrais do campo.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea talvez pergunte: tudo bem, mas o que exatamente uma m\u00e1quina qu\u00e2ntica ajudaria a descobrir? A resposta n\u00e3o \u00e9 uma po\u00e7\u00e3o m\u00e1gica \u00fanica; \u00e9 um card\u00e1pio de ganhos poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, rem\u00e9dios. N\u00e3o no sentido de \u201co qu\u00e2ntico inventar\u00e1 a cura do c\u00e2ncer at\u00e9 ter\u00e7a-feira\u201d, mas no sentido s\u00e9rio de representar melhor sistemas moleculares, estimar energias e explorar espa\u00e7os qu\u00edmicos absurdamente grandes. Isso pode ajudar a selecionar candidatos mais promissores, entender melhor mecanismos de liga\u00e7\u00e3o, prever conforma\u00e7\u00f5es e reduzir o desperd\u00edcio monumental de tentativa e erro. Revis\u00f5es recentes sobre computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica para descoberta de f\u00e1rmacos apontam justamente simula\u00e7\u00e3o molecular, identifica\u00e7\u00e3o e otimiza\u00e7\u00e3o de compostos como as \u00e1reas em que o ganho potencial \u00e9 mais plaus\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, materiais. A mesma l\u00f3gica vale para baterias, catalisadores, fertilizantes, armazenamento de energia, captura de carbono, semicondutores, supercondutores e compostos com propriedades eletr\u00f4nicas ex\u00f3ticas. Em todos esses casos, o enredo \u00e9 parecido: a utilidade do material depende do comportamento coletivo de el\u00e9trons e \u00e1tomos, e esse comportamento pode ser intrat\u00e1vel para m\u00e9todos cl\u00e1ssicos em determinadas escalas ou regimes. H\u00e1 trabalhos recentes mostrando avan\u00e7os em simula\u00e7\u00f5es program\u00e1veis de mol\u00e9culas e materiais e em abordagens h\u00edbridas para materiais reais, sinal de que a conversa j\u00e1 saiu do PowerPoint puro e entrou na f\u00edsica computacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro, menos glamour e mais economia. \u00c0s vezes o ganho n\u00e3o est\u00e1 em \u201cdescobrir algo imposs\u00edvel\u201d, mas em errar menos cedo. Em pesquisa industrial, cortar alguns ciclos ruins j\u00e1 muda a conta. Se voc\u00ea testa melhor antes, desperdi\u00e7a menos depois. O qu\u00e2ntico pode entrar como uma esp\u00e9cie de microsc\u00f3pio matem\u00e1tico para decis\u00f5es de alt\u00edssimo custo.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora vem a parte que separa jornalismo de material promocional: isso ainda n\u00e3o significa que os laborat\u00f3rios estejam apertando um bot\u00e3o qu\u00e2ntico e cuspindo rem\u00e9dios revolucion\u00e1rios na esteira. Ainda n\u00e3o. A \u00e1rea continua limitada por ru\u00eddo, erro, escala e pela velha tirania do resultado, efeito ou consequ\u00eancia direta de um fato, a\u00e7\u00e3o ou evento anterior. Muitos experimentos atuais s\u00e3o h\u00edbridos: o cl\u00e1ssico faz a parte robusta, o qu\u00e2ntico entra onde pode oferecer alguma vantagem espec\u00edfica, e depois o cl\u00e1ssico volta para interpretar, corrigir e validar. At\u00e9 revis\u00f5es otimistas insistem que qualquer vantagem pr\u00e1tica ser\u00e1 dependente do problema e da precis\u00e3o exigida.<\/p>\n\n\n\n<p>Em portugu\u00eas claro: o qu\u00e2ntico ainda n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e1brica. \u00c9 uma pe\u00e7a rara. N\u00e3o \u00e9 a linha de montagem; \u00e9 a m\u00e1quina de medi\u00e7\u00e3o que pode mudar o projeto inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso desconfio da ansiedade ing\u00eanua em encaixar computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica primeiro na narrativa da IA. A intelig\u00eancia artificial \u00e9 \u00f3tima para reconhecer padr\u00f5es, comprimir correla\u00e7\u00f5es, sugerir estruturas, navegar bancos de dados e aprender com quantidades gigantescas de exemplos. Ela \u00e9 uma excelente estat\u00edstica. Mas mol\u00e9culas n\u00e3o obedecem \u00e0 publicidade. Em algum momento, algu\u00e9m precisa lidar com a f\u00edsica real da coisa. E f\u00edsica real, em certos casos, \u00e9 justamente o departamento onde o qu\u00e2ntico pode ser menos fantasiado e mais \u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o futuro pr\u00f3ximo n\u00e3o seja uma m\u00e1quina qu\u00e2ntica escrevendo poemas melhores ou montando apresenta\u00e7\u00f5es mais vistosas. Talvez seja algo muito menos sexy na manchete e muito mais decisivo na vida concreta: um novo material de bateria que aguenta mais carga, um catalisador mais eficiente, um composto farmac\u00eautico melhor filtrado, uma rota molecular menos custosa, uma droga descartada antes de consumir anos de pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>A ironia \u00e9 bonita. Vendem a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica como o auge do del\u00edrio futurista, quando seu primeiro servi\u00e7o realmente grande pode ser o mais terrestre de todos: ajudar a entender a mat\u00e9ria. N\u00e3o a \u201cmente do universo\u201d, n\u00e3o a \u201cconsci\u00eancia da m\u00e1quina\u201d, n\u00e3o a fic\u00e7\u00e3o ruim sobre rob\u00f4s oniscientes. Apenas isso, que j\u00e1 seria monumental: descobrir, um pouco mais r\u00e1pido e um pouco melhor, do que o mundo \u00e9 feito, e o que ainda podemos fazer com ele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tentarei criar outra cena, menos fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e mais bancada de laborat\u00f3rio. Imagine uma chaveiro diante de um molho com 10 milh\u00f5es de chaves. Esse \u00e9 o trabalho da descoberta de f\u00e1rmacos e novos materiais. 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