{"id":452387,"date":"2026-03-31T17:18:17","date_gmt":"2026-03-31T20:18:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaltela.com\/?p=452387"},"modified":"2026-03-31T19:35:33","modified_gmt":"2026-03-31T22:35:33","slug":"medico-cria-receitas-com-desenhos-para-pacientes-que-nao-sabem-ler-e-muda-tratamento-de-doencas-no-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaltela.com\/noticias\/2026\/03\/31\/medico-cria-receitas-com-desenhos-para-pacientes-que-nao-sabem-ler-e-muda-tratamento-de-doencas-no-sertao\/","title":{"rendered":"M\u00e9dico cria receitas com desenhos para pacientes que n\u00e3o sabem ler e muda tratamento de doen\u00e7as no Sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>No Brasil, o acesso \u00e0 sa\u00fade nem sempre esbarra apenas na falta de m\u00e9dicos, rem\u00e9dios ou estrutura. Em muitos casos, o obst\u00e1culo \u00e9 mais silencioso e, justamente por isso, mais dif\u00edcil de perceber. Ele est\u00e1 na comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, mais de 11 milh\u00f5es de brasileiros n\u00e3o sabem ler nem escrever, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Isso significa que, mesmo quando conseguem chegar a uma consulta m\u00e9dica e recebem a prescri\u00e7\u00e3o correta, milh\u00f5es de pacientes simplesmente n\u00e3o conseguem seguir o tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi esse \u201cabismo invis\u00edvel\u201d que o m\u00e9dico de sa\u00fade da fam\u00edlia Lucas Cardim encontrou ao come\u00e7ar a atuar no Sert\u00e3o pernambucano, na zona rural de Petrolina.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO Brasil \u00e9 um pa\u00eds muito desigual. Quando cheguei ao consult\u00f3rio, encontrei um abismo. Muitas vezes, o paciente tinha acesso ao medicamento e \u00e0 consulta, mas n\u00e3o conseguia se tratar porque n\u00e3o conseguia entender. Ent\u00e3o, para mim, foi chocante, porque a gente tem a ideia de que muitos adoecimentos acontecem pela falta de acesso. Nesse caso, existe o encontro, s\u00f3 n\u00e3o existe a comunica\u00e7\u00e3o entre o profissional de sa\u00fade e o paciente\u201d,<\/em> afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>A constata\u00e7\u00e3o, embora simples, tem impacto profundo. Durante d\u00e9cadas, a pol\u00edtica p\u00fablica de sa\u00fade no Brasil foi estruturada para ampliar o acesso: construir hospitais, formar profissionais, garantir medicamentos. No entanto, pouco se discutiu sobre o que acontece depois da consulta.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso dos pacientes atendidos por Cardim, o problema n\u00e3o era a falta de diagn\u00f3stico nem de tratamento. Era a impossibilidade de compreender o que estava escrito na receita.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-o-limite-da-prescricao-tradicional\"><strong>O limite da prescri\u00e7\u00e3o tradicional<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A cena se repetia: pacientes sa\u00edam do consult\u00f3rio com o papel na m\u00e3o, medicamentos dispon\u00edveis e orienta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica definida, mas, dias depois, retornavam sem melhora. Em alguns casos, com o quadro agravado.<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava em neglig\u00eancia ou descuido. Estava na leitura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quando a letra do m\u00e9dico era clara \u2014 longe do estere\u00f3tipo da escrita ileg\u00edvel \u2014 o conte\u00fado continuava inacess\u00edvel para quem n\u00e3o sabia ler. Instru\u00e7\u00f5es como \u201ctomar 1 comprimido de 8 em 8 horas\u201d ou \u201cantes das refei\u00e7\u00f5es\u201d n\u00e3o tinham significado pr\u00e1tico para esses pacientes.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado era um ciclo perverso: o sistema funcionava at\u00e9 certo ponto, mas falhava exatamente na ades\u00e3o ao tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEm atendimento, conheci dezenas de pessoas que, sem saber ler, n\u00e3o se tratavam e eram afetadas por doen\u00e7as graves\u201d<\/em>, relata o m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p>A percep\u00e7\u00e3o levou a uma mudan\u00e7a de abordagem. Em vez de tentar simplificar o texto, Cardim decidiu adapt\u00e1-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-quando-o-desenho-substitui-a-palavra\"><strong>Quando o desenho substitui a palavra<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A solu\u00e7\u00e3o surgiu de forma pr\u00e1tica, quase intuitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante as consultas, Lucas come\u00e7ou a desenhar nas receitas. Um sol ou uma x\u00edcara de caf\u00e9 indicava que o medicamento deveria ser tomado pela manh\u00e3. Uma lua e estrelas sinalizavam o uso \u00e0 noite. Pequenos c\u00edrculos representavam a quantidade de comprimidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem linguagem t\u00e9cnica, sem termos m\u00e9dicos, apenas s\u00edmbolos.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o dos pacientes foi imediata. Pela primeira vez, muitos conseguiam entender, de forma aut\u00f4noma, o que deveriam fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>A ades\u00e3o ao tratamento aumentou. Os retornos passaram a mostrar melhora cl\u00ednica. E, talvez mais importante, o paciente deixava de depender exclusivamente de terceiros para compreender sua pr\u00f3pria sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>O que parecia uma adapta\u00e7\u00e3o simples revelou um problema estrutural: o sistema de sa\u00fade pressup\u00f5e um n\u00edvel de letramento que n\u00e3o \u00e9 universal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao transformar a receita m\u00e9dica em uma linguagem visual, o m\u00e9dico n\u00e3o apenas resolveu um problema individual. Ele criou um modelo de comunica\u00e7\u00e3o inclusiva. Este primeiro passo originou uma plataforma que pode auxiliar v\u00e1rios outros m\u00e9dicos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-do-papel-ao-sistema-nasce-a-plataforma-cuidado-para-todos\"><strong>Do papel ao sistema: nasce a plataforma \u201cCuidado para Todos\u201d<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O que come\u00e7ou com desenhos feitos \u00e0 m\u00e3o logo mostrou potencial para ir al\u00e9m de um consult\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A demanda era clara: se funcionava em uma unidade b\u00e1sica de sa\u00fade, poderia funcionar em outras. Mas, para isso, seria necess\u00e1rio padronizar e escalar a solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse momento que a iniciativa ganhou um novo formato: a cria\u00e7\u00e3o da plataforma \u201cCuidado para Todos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta \u00e9 simples, mas poderosa. Em vez de depender da habilidade individual do m\u00e9dico em desenhar, o sistema gera receitas com \u00edcones padronizados, organizados de forma clara e adaptados \u00e0 realidade dos pacientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada orienta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica \u00e9 traduzida em elementos visuais:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>hor\u00e1rios representados por s\u00edmbolos (manh\u00e3, tarde, noite);<\/li>\n\n\n\n<li>quantidade de comprimidos indicada por formas simples;<\/li>\n\n\n\n<li>dura\u00e7\u00e3o do tratamento apresentada de maneira sequencial.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A plataforma transforma a prescri\u00e7\u00e3o em algo universalmente compreens\u00edvel,&nbsp; independentemente do n\u00edvel de escolaridade do paciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para viabilizar o projeto, Cardim contou com o apoio de um engenheiro de software do Google, que ajudou a estruturar tecnicamente a solu\u00e7\u00e3o e torn\u00e1-la replic\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado foi um sistema digital que pode ser utilizado por profissionais de sa\u00fade em diferentes contextos, mantendo consist\u00eancia e clareza na comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-expansao-e-impacto\"><strong>Expans\u00e3o e impacto<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Hoje, a iniciativa j\u00e1 est\u00e1 presente em dez munic\u00edpios, ampliando o alcance de uma ideia que nasceu da pr\u00e1tica cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora ainda em expans\u00e3o, os resultados apontam para ganhos concretos:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>maior ades\u00e3o ao tratamento;<\/li>\n\n\n\n<li>redu\u00e7\u00e3o de erros na administra\u00e7\u00e3o de medicamentos;<\/li>\n\n\n\n<li>melhora na autonomia dos pacientes;<\/li>\n\n\n\n<li>fortalecimento do v\u00ednculo entre profissional e comunidade.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Mais do que uma ferramenta, a plataforma redefine a forma como a comunica\u00e7\u00e3o em sa\u00fade pode ser pensada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela parte de um princ\u00edpio b\u00e1sico: n\u00e3o basta prescrever corretamente. \u00c9 preciso garantir que a orienta\u00e7\u00e3o seja compreendida.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-a-logica-da-simplicidade\"><strong>A l\u00f3gica da simplicidade<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Uma das for\u00e7as do projeto est\u00e1 na sua simplicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um momento em que grande parte das inova\u00e7\u00f5es em sa\u00fade passa por intelig\u00eancia artificial, big data e sistemas complexos, a solu\u00e7\u00e3o proposta por Cardim vai na dire\u00e7\u00e3o oposta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o exige tecnologia sofisticada para ser compreendida. Exige apenas adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa aus\u00eancia de inova\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio. Trata-se de uma inova\u00e7\u00e3o centrada no usu\u00e1rio, no paciente real, com suas limita\u00e7\u00f5es e contexto.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-o-desafio-da-escala\"><strong>O desafio da escala<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Apesar dos avan\u00e7os, o principal desafio agora \u00e9 ampliar o alcance da iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<p>A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que a plataforma seja doada para implementa\u00e7\u00e3o no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), permitindo que mais unidades adotem o modelo.<\/p>\n\n\n\n<p>A ado\u00e7\u00e3o em larga escala, no entanto, envolve etapas complexas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>integra\u00e7\u00e3o com sistemas existentes;<\/li>\n\n\n\n<li>treinamento de profissionais;<\/li>\n\n\n\n<li>adapta\u00e7\u00e3o a diferentes realidades regionais;<\/li>\n\n\n\n<li>valida\u00e7\u00e3o institucional.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Ainda assim, o potencial de impacto \u00e9 significativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um pa\u00eds com dimens\u00f5es continentais e profundas desigualdades educacionais, solu\u00e7\u00f5es que reduzem barreiras de compreens\u00e3o podem gerar ganhos sist\u00eamicos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-mais-do-que-uma-ferramenta-uma-mudanca-de-perspectiva\"><strong>Mais do que uma ferramenta, uma mudan\u00e7a de perspectiva<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de Lucas Cardim n\u00e3o \u00e9 apenas sobre criatividade ou inova\u00e7\u00e3o. \u00c9 sobre olhar para um problema que sempre esteve presente, mas raramente foi tratado como prioridade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao identificar que o problema n\u00e3o era o acesso, mas a comunica\u00e7\u00e3o, ele desloca o foco da discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta deixa de ser \u201ccomo levar o paciente at\u00e9 o sistema?\u201d e passa a ser \u201ccomo garantir que o sistema funcione para o paciente que est\u00e1 ali?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mudan\u00e7a de perspectiva tem implica\u00e7\u00f5es amplas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sugere que pol\u00edticas p\u00fablicas precisam considerar n\u00e3o apenas infraestrutura, mas tamb\u00e9m compreens\u00e3o. N\u00e3o apenas oferta, mas uso efetivo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-a-comunicacao-como-parte-do-cuidado\"><strong>A comunica\u00e7\u00e3o como parte do cuidado<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica m\u00e9dica, a comunica\u00e7\u00e3o sempre foi vista como uma habilidade complementar \u2014 importante, mas n\u00e3o central.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia no Sert\u00e3o pernambucano mostra o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem comunica\u00e7\u00e3o eficaz, n\u00e3o h\u00e1 tratamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A receita, que deveria ser o elo entre diagn\u00f3stico e cura, torna-se apenas um papel sem fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao transformar esse elo, Cardim reposiciona a comunica\u00e7\u00e3o como parte essencial do cuidado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-um-modelo-replicavel\"><strong>Um modelo replic\u00e1vel<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Embora tenha surgido em um contexto espec\u00edfico \u2014 a zona rural de Petrolina \u2014, o modelo tem potencial para ser replicado em diferentes regi\u00f5es e at\u00e9 em outros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>O analfabetismo, em diferentes n\u00edveis, n\u00e3o \u00e9 exclusividade do Brasil. A dificuldade de compreens\u00e3o de orienta\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas \u00e9 um problema global.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a plataforma \u201cCuidado para Todos\u201d pode ser vista como uma solu\u00e7\u00e3o export\u00e1vel, adapt\u00e1vel a diferentes l\u00ednguas e contextos culturais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que escalar uma tecnologia, a proposta aponta para algo mais simples e estrutural: a necessidade de que o sistema de sa\u00fade seja compreendido por quem depende dele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, o acesso \u00e0 sa\u00fade nem sempre esbarra apenas na falta de m\u00e9dicos, rem\u00e9dios ou estrutura. Em muitos casos, o obst\u00e1culo \u00e9 mais silencioso e, justamente por isso, mais dif\u00edcil de perceber. Ele est\u00e1 na comunica\u00e7\u00e3o. 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