{"id":550214,"date":"2026-04-23T12:04:19","date_gmt":"2026-04-23T15:04:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaltela.com\/?p=550214"},"modified":"2026-04-23T12:06:23","modified_gmt":"2026-04-23T15:06:23","slug":"maduro-mofa-no-brooklyn-enquanto-o-jornalismo-atual-foge-do-que-importa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaltela.com\/noticias\/internacional\/2026\/04\/23\/maduro-mofa-no-brooklyn-enquanto-o-jornalismo-atual-foge-do-que-importa\/","title":{"rendered":"Maduro mofa no Brooklyn, enquanto o jornalismo atual foge do que importa"},"content":{"rendered":"\n<p>Artigo de opini\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Leio na <em>New Yorker <\/em>e consigo enxergar a cena. No quarto andar de um pr\u00e9dio no Brooklyn, onde a cama n\u00e3o tem travesseiro, a luz \u00e9 p\u00e9ssima e a privacidade foi para as cucuias, Nicol\u00e1s Maduro espera. Come o que lhe d\u00e3o. L\u00ea. Fala com os advogados quando deixam. Toma banho num cub\u00edculo que deve parecer ainda menor para ele, que mede 1,90 m. Desde que entrou ali, saiu duas vezes, ambas para audi\u00eancias r\u00e1pidas em Manhattan. A imagem \u00e9 forte, e pega bem no cen\u00e1rio noticioso lacrador ou para bolha. Do tipo que o jornalismo atual adora porque entrega uma esp\u00e9cie de prazer dopam\u00ednico (existe esse termo?) de rolagem de feed do Instagram: o poderoso encolhido, o ex-chefe de Estado reduzido ao tamanho da cela, o tirano transformado em cen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 isso que mais me interessa. Ou melhor: n\u00e3o deveria ser isso que mais interessa a ningu\u00e9m que leve jornalismo a s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu inc\u00f4modo come\u00e7a justamente onde grande parte da cobertura se acomoda. A vida carcer\u00e1ria de Maduro rende texto, rende clique, rende coment\u00e1rio esperto, rende a falsa sensa\u00e7\u00e3o de que o caso est\u00e1 sendo acompanhado de perto. N\u00e3o est\u00e1. O que est\u00e1 sendo acompanhado de perto \u00e9 a superf\u00edcie. O close. A dramaturgia barata da humilha\u00e7\u00e3o. O essencial continua mal iluminado. E o essencial, aqui, n\u00e3o \u00e9 o colch\u00e3o fino de Maduro. \u00c9 o m\u00e9todo usado para jog\u00e1-lo ali. \u00c9 o precedente. \u00c9 o fato de que a imprensa, mais uma vez, aceitou seguir o f\u00f3sforo riscado por Donald Trump e seus iguais em vez de examinar o inc\u00eandio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 isso que me parece covardia no jornalismo atual. N\u00e3o a falta de opini\u00e3o, mas a falta de foco moral. A falta de hombridade para encarar o que realmente est\u00e1 em jogo quando um pa\u00eds decide agir como sequestrador internacional e depois vestir essa opera\u00e7\u00e3o com o figurino da Justi\u00e7a dom\u00e9stica.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque foi isso que aconteceu. Nos Estados Unidos, o caso anda. E anda de verdade. Maduro e Cilia Flores se declararam inocentes. O juiz Alvin Hellerstein sinalizou que n\u00e3o pretende extinguir o processo neste momento. Mais do que isso: questionou a l\u00f3gica de impedir o uso de recursos venezuelanos para a defesa. Ou seja, o aparato americano se move, interroga, enquadra, processa, exibe for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no plano internacional, o cen\u00e1rio \u00e9 outro. A Corte Internacional de Justi\u00e7a continua mostrando, no eixo Venezuela, o contencioso com a Guiana, n\u00e3o uma a\u00e7\u00e3o nova sobre a captura de Maduro. No Tribunal Penal Internacional, o pr\u00f3prio escrit\u00f3rio do procurador informou, em mar\u00e7o, que \u201cVenezuela II\u201d n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com os eventos de janeiro de 2026. Traduzindo sem enfeite: a Justi\u00e7a que corre \u00e9 a deles. A que deveria examinar o alcance internacional da opera\u00e7\u00e3o, o precedente aberto e a brutalidade institucional envolvida continua im\u00f3vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve gritaria diplom\u00e1tica, claro. Houve condena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Especialistas da ONU chamaram a a\u00e7\u00e3o de agress\u00e3o e abdu\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, com poss\u00edvel viola\u00e7\u00e3o grave do direito internacional. O Conselho de Seguran\u00e7a debateu o caso. Debateu. E parou ali, porque quando o acusado \u00e9 tamb\u00e9m pot\u00eancia com poder de veto o direito internacional passa a valer menos do que o papel em que \u00e9 impresso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste ponto que a imprensa, a meu ver, se apequena. Em vez de disparar a pergunta decisiva \u2013 que tipo de ordem internacional sobra quando Washington decide capturar um chefe de Estado e discutir o resto num tribunal pr\u00f3prio? \u2013, boa parte do notici\u00e1rio prefere o teatro do personagem. A cela. As bravat\u2026ops\u2026declara\u00e7\u00f5es de Trump. A pr\u00f3xima provoca\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3ximo gesto de xerife. \u00c9 o jornalismo ajoelhado diante da pauta do mais espalhafatoso. Trump late, a cobertura corre. Trump encena, a cobertura ilumina. Trump decide quem \u00e9 o monstro do cap\u00edtulo, e a imprensa, covarde demais para romper o roteiro, vai atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o escrevo isso para absolver Maduro. N\u00e3o tenho nenhuma voca\u00e7\u00e3o para beato de tirano latino-americano. Se houver prova robusta, que ele seja condenado. O ponto n\u00e3o \u00e9 esse. O ponto \u00e9 que uma coisa \u00e9 cobrar a responsabilidade penal de Maduro. Outra, muito diferente, \u00e9 naturalizar que os Estados Unidos possam agir como pol\u00edcia do planeta, escolher alvos de forma seletiva, atropelar o que conv\u00e9m atropelar e depois pedir aplausos em nome da civiliza\u00e7\u00e3o. Quando o jornalismo embarca nisso sem separar uma coisa da outra, ele troca apura\u00e7\u00e3o por torcida.<\/p>\n\n\n\n<p>E a conta, como sempre, n\u00e3o fica com o personagem central. Fica espalhada.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba sentiu. E sentiu feio. Depois da captura de Maduro, Washington passou a bloquear o envio de petr\u00f3leo venezuelano ao regime cubano e a amea\u00e7ar com tarifas pa\u00edses que abastecessem a ilha. Miguel D\u00edaz-Canel, presidente cubano, disse em mar\u00e7o que a ilha estava havia tr\u00eas meses sem receber combust\u00edvel. Tr\u00eas meses. Depois veio um carregamento russo suficiente para poucos dias. \u00c9 isso que some da cobertura quando o notici\u00e1rio prefere se debru\u00e7ar sobre o banho de sol do preso ilustre: a geopol\u00edtica real cai em cima de gente que n\u00e3o assinou despacho, n\u00e3o moveu tropas, n\u00e3o redigiu nota diplom\u00e1tica, n\u00e3o comandou opera\u00e7\u00e3o nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Venezuela, o efeito tamb\u00e9m foi cruel. Primeiro veio o choque bruto: medo, sensa\u00e7\u00e3o de que alguma coisa pior poderia acontecer, temor de novos ataques e de mais repress\u00e3o. O pa\u00eds entrou naquele estado em que a vida cotidiana continua andando por in\u00e9rcia, mas a pol\u00edtica j\u00e1 contaminou o ar. Ao mesmo tempo, o motor econ\u00f4mico do pa\u00eds \u2013 petr\u00f3leo, sempre ele \u2013 travou no calor da crise. Depois, o roteiro conhecido voltou a se impor. Em mar\u00e7o, as exporta\u00e7\u00f5es j\u00e1 tinham superado um milh\u00e3o de barris por dia sob supervis\u00e3o americana. Multinacionais de interesse oleoso norte-americano como a Vitol, Trafigura, Chevron e Halliburton ampliaram presen\u00e7a e voltaram a negociar. FMI e Banco Mundial retomaram rela\u00e7\u00f5es com Caracas. Bilh\u00f5es represados passaram a ser vistos como possibilidade concreta de desbloqueio. A d\u00edvida voltou \u00e0 mesa. O povo ficou com o susto, com o limbo e com a desordem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o notar o que costura tudo isso. Petr\u00f3leo. Sempre petr\u00f3leo. N\u00e3o gosto da pregui\u00e7a mental que explica o planeta inteiro com uma \u00fanica palavra, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sou afeito ao fingimento. E fingir que o petr\u00f3leo \u00e9 um detalhe neste caso seria idiotice. A Venezuela tem as maiores reservas do mundo. No caso do Ir\u00e3, bastou um m\u00eas de guerra e bloqueio para o barril disparar e gigantes como Chevron e Exxon verem subir bilh\u00f5es em receita adicional. Nem toda opera\u00e7\u00e3o militar nasce apenas do petr\u00f3leo, claro. Mas \u00e9 raro que ele esteja longe da mesa quando uma superpot\u00eancia resolve vestir a fantasia moral do dia.<\/p>\n\n\n\n<p>A essa altura, a engrenagem j\u00e1 est\u00e1 montada. De um lado, o gesto duro, perform\u00e1tico, vend\u00e1vel. Do outro, a cortina de fuma\u00e7a. Em ambientes viciados em ru\u00eddo, toda bomba documental tamb\u00e9m serve para embaralhar prioridades. E d\u00e1-lhe o \u201cdiretor da reda\u00e7\u00e3o global\u201d a criar pauta para encobrir arquivos Epstein e tudo o mais que n\u00e3o lhe interessa. O problema \u00e9 que nada disso responde \u00e0 captura de Maduro, arranca a Justi\u00e7a internacional da letargia, p\u00f5e combust\u00edvel em Cuba, devolve previsibilidade \u00e0 Venezuela. Apenas entope o espa\u00e7o mental do p\u00fablico. E o jornalismo, em vez de furar essa n\u00e9voa, muitas vezes prefere passear dentro dela.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta que fica \u00e9 simples, e justamente por isso t\u00e3o evitada. Se Donald Trump se enxerga como pol\u00edcia global, por que essa valentia nunca se distribui com a mesma disposi\u00e7\u00e3o por outros cen\u00e1rios? Por que n\u00e3o h\u00e1 o mesmo voluntarismo punitivo diante da Coreia do Norte? Por que n\u00e3o h\u00e1 o mesmo teatro salvacionista diante da Ar\u00e1bia Saudita? Por que o Tibete segue sob esmagamento met\u00f3dico da China sem que o xerife do planeta apare\u00e7a montado em sua ret\u00f3rica de costume? A resposta n\u00e3o \u00e9 misteriosa. Imp\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 coer\u00eancia moral. Imp\u00e9rio \u00e9 seletividade. Escolhe alvos. Escolhe linguagem. Escolhe risco. Escolhe custo. Escolhe onde posar de paladino e onde fazer neg\u00f3cios em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00ednimo que eu esperaria do jornalismo era que n\u00e3o se deixasse domesticar por isso. Que parasse de agir como plateia da pista VIP do Allianz Parque durante a performance do poder mais barulhento da Terra. Que lembrasse que sua fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 admirar a coreografia da captura, nem se embriagar com a queda cinematogr\u00e1fica do vil\u00e3o, mas rastrear a arquitetura da for\u00e7a, o duplo padr\u00e3o, a assimetria, a conta jogada sobre inocentes e a hipocrisia embutida na pose.<\/p>\n\n\n\n<p>Maduro pode mofar meses no Brooklyn. Pode mofar anos. Pode at\u00e9 morrer ali. Ele merece. Mas nada disso resolve a pergunta principal. O que se faz com um mundo em que a legalidade internacional serve de serm\u00e3o para os fracos e de adere\u00e7o opcional para os fortes? O que se faz com um jornalismo que, diante disso, prefere comentar o uniforme bege do preso em vez de enquadrar o carcereiro?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que o caso Maduro, para mim, importa menos como novela de personagem e mais como diagn\u00f3stico de m\u00e9todo. E \u00e9 por isso tamb\u00e9m que o jornalismo atual me parece t\u00e3o covarde. N\u00e3o porque critique pouco Maduro. Mas porque critica de menos o poder que escolhe quem pode ser capturado, quem pode ser esmagado, quem pode ser ignorado e quem pode virar pauta permanente.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de opini\u00e3o. Leio na New Yorker e consigo enxergar a cena. 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