{"id":551569,"date":"2026-04-23T13:58:41","date_gmt":"2026-04-23T16:58:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaltela.com\/?p=551569"},"modified":"2026-04-23T14:08:11","modified_gmt":"2026-04-23T17:08:11","slug":"a-hard-days-night-das-livrarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaltela.com\/noticias\/2026\/04\/23\/a-hard-days-night-das-livrarias\/","title":{"rendered":"A Hard Day\u2019s Night das livrarias"},"content":{"rendered":"\n<p>Come\u00e7o este texto com uma hist\u00f3ria pessoal, para ilustrar e, sim, tentar cativar a sua aten\u00e7\u00e3o para um tema que pouco engaja: a import\u00e2ncia da literatura.<\/p>\n\n\n\n<p>Minhas filhas mais velhas, Nina e Lola, deviam ter 6 e 4 anos. Ou 7 e 5. Tanto faz. Peguei um livro que sabia ser cativante &#8211; <em>Extraordin\u00e1rio<\/em>, de R.J. Palacio &#8211; e que conta a hist\u00f3ria de um garoto nascido com deforma\u00e7\u00e3o facial e de como ele conduz, com leveza, sua integra\u00e7\u00e3o social. Combinei com elas que toda noite ler\u00edamos juntos um cap\u00edtulo. L\u00e1 pela terceira noite, elas j\u00e1 pediram para aumentarmos para dois ou tr\u00eas. E foi quando saquei que tinham sido tocadas pela m\u00e1gica que a leitura proporciona.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-551573\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/04\/EXTRA-1-1024x683.webp\" data-object-fit=\"cover\" srcset=\"https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/04\/EXTRA-1-1024x683.webp 1024w, https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/04\/EXTRA-1-300x200.webp 300w, https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/04\/EXTRA-1-768x512.webp 768w, https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/04\/EXTRA-1.webp 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<p><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, uma d\u00fazia de anos depois, n\u00e3o existe elas n\u00e3o estarem lendo algo. O v\u00edcio pegou no ca\u00e7ula, Gael, que far\u00e1 11 anos no domingo, dia 26, e h\u00e1 uns bons tr\u00eas anos n\u00e3o tem data comemorativa com presente em que ele n\u00e3o pe\u00e7a livros.<\/p>\n\n\n\n<p>Digo tudo isso com o orgulho devido para chegar ao tema deste texto. Na verdade, h\u00e1 dois temas, e, como n\u00e3o \u00e9 uma reportagem, posso me dar o direito de fazer uma curva antes de chegar ao centro.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro \u00e9 tentar promover, modestamente, <strong>A Noite das Livrarias<\/strong>, que acontece hoje. A a\u00e7\u00e3o nasceu da articula\u00e7\u00e3o de livreiros ligada ao Mapa das Livrarias de Rua, ganhou escala nacional e chega a esta edi\u00e7\u00e3o com 86 livrarias confirmadas em cerca de 30 cidades, com programa\u00e7\u00e3o gratuita e simult\u00e2nea em v\u00e1rios estados e no Distrito Federal. \u00c9 uma ideia simples, mas inteligente: manter as livrarias abertas \u00e0 noite e devolver a elas aquilo que elas nunca deveriam ter perdido &#8211; a condi\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o vivo, e n\u00e3o de mera prateleira com CNPJ.<\/p>\n\n\n\n<p>O que me agrada no evento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a pauta, mas o esp\u00edrito. N\u00e3o \u00e9 uma cruzada promocional de shopping para vender capuccino, caneca e desconto. \u00c9 uma tentativa de lembrar que livraria de rua pode ser uma pequena usina cultural. Um lugar em que ainda se pode esbarrar numa conversa, num autor, numa lombada inesperada, numa ideia que n\u00e3o estava no roteiro. A inspira\u00e7\u00e3o veio de experi\u00eancias como a <em>Noche de las Librer\u00edas<\/em>, de Buenos Aires. A \u201cNoite das Livrarias\u201d brasileira aposta justamente nessa circula\u00e7\u00e3o entre estantes, lan\u00e7amentos, leituras, saraus, oficinas, clubes de leitura e encontros silenciosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Num pa\u00eds em que quase tudo virou ru\u00eddo, velocidade e opini\u00e3o emitida antes da compreens\u00e3o, eu tendo a olhar com simpatia autom\u00e1tica para qualquer iniciativa que convide as pessoas a desacelerar e entrar numa livraria. N\u00e3o porque isso torne algu\u00e9m superior. Livro n\u00e3o santifica ningu\u00e9m. Mas porque a literatura costuma operar no sentido contr\u00e1rio da brutaliza\u00e7\u00e3o corrente. Ela complica. E eu digo isso como elogio.<\/p>\n\n\n\n<p>E aqui chegamos ao segundo tema, que \u00e9 a import\u00e2ncia de cultivarmos o gosto por livros em nossos filhos &#8211; e em todos os que pudermos influenciar. Tenho uma convic\u00e7\u00e3o antiga a esse respeito, e ela s\u00f3 se fortalece com o tempo: pessoas que amam livros n\u00e3o s\u00e3o facilmente enganadas nem facilmente manipuladas. E eu, pelo menos, quase nunca vi um amante verdadeiro da literatura despencar para o lado fascista da coisa sem antes ter abandonado o melhor do que leu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o falo isso como slogan de professoral. Falo como quem olha em volta. Quem l\u00ea de verdade aprende cedo que o mundo \u00e9 mais complexo do que a caricatura. Aprende que o outro existe. Aprende que h\u00e1 dor em lugares improv\u00e1veis, contradi\u00e7\u00e3o em quase toda biografia, sombra onde o discurso bin\u00e1rio prometia luz limpa. Livro bom n\u00e3o alisa o c\u00e9rebro. Livro bom cria rebeldia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que existe tamb\u00e9m um ganho mais vis\u00edvel, mais pr\u00e1tico, menos filos\u00f3fico. Ler cedo amplia vocabul\u00e1rio. E vocabul\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 enfeite. Vocabul\u00e1rio \u00e9 ferramenta de pensamento. A crian\u00e7a que aprende a lidar com mais palavras passa a lidar melhor com o mundo. Consegue nomear o que sente, o que deseja, o que teme, o que percebe. Sai daquela n\u00e9voa em que tudo vira s\u00f3 irrita\u00e7\u00e3o, impulso ou birra. Quem domina mais palavras costuma dominar melhor a pr\u00f3pria experi\u00eancia. E quem articula melhor a experi\u00eancia fica um pouco menos \u00e0 merc\u00ea dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Livro tamb\u00e9m \u00e9 laborat\u00f3rio de alteridade. A crian\u00e7a entra na vida dos personagens antes mesmo de saber direito como administrar a pr\u00f3pria. Sofre com eles, ri com eles, teme com eles, torce com eles. Vai vivendo mil vidas sem sair do lugar. Isso treina empatia de um jeito que nenhuma fala edificante consegue treinar sozinha. Literatura n\u00e3o d\u00e1 serm\u00e3o: infiltra humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda um ponto que, para mim, pesa muito neste tempo de telas nervosas. Ler exige perman\u00eancia. Exige demora. Exige um pequeno pacto de sil\u00eancio com algo que n\u00e3o vai piscar, vibrar nem pedir sua aten\u00e7\u00e3o a cada 15 segundos. Em outras palavras: ler treina foco profundo. E foco profundo virou artigo de luxo. A leitura precoce ensina a sustentar aten\u00e7\u00e3o, a mergulhar, a atravessar p\u00e1ginas sem recompensa instant\u00e2nea. Parece pouco. N\u00e3o \u00e9. Talvez seja uma das formas mais eficazes de resist\u00eancia mental dispon\u00edveis hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>E tem mais. O livro instala na crian\u00e7a uma esp\u00e9cie de motor interno. A percep\u00e7\u00e3o de que a d\u00favida pode ser perseguida, de que o t\u00e9dio pode ser rompido, de que h\u00e1 sempre uma passagem poss\u00edvel entre n\u00e3o saber e descobrir. O grande benef\u00edcio da leitura n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o conte\u00fado que ela entrega. \u00c9 a sensa\u00e7\u00e3o de que o desconhecido n\u00e3o \u00e9 uma parede. \u00c9 uma porta. Isso muda tudo. Muda a rela\u00e7\u00e3o com estudo, com linguagem, com curiosidade, com autonomia. Muda at\u00e9 a postura diante da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso insisto tanto nesse assunto. Estimular a leitura n\u00e3o \u00e9 apenas empurrar algu\u00e9m para a alfabetiza\u00e7\u00e3o ou para a boa forma\u00e7\u00e3o escolar. \u00c9 oferecer mapa e b\u00fassola antes que a estrada fique tomada por gente interessada em vender atalho, mentira e histeria. \u00c9 aumentar a chance de que aquela crian\u00e7a, mais adiante, n\u00e3o seja apenas espectadora da pr\u00f3pria vida nem presa f\u00e1cil de qualquer grito ideol\u00f3gico bem embalado.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso as livrarias ainda me pare\u00e7am t\u00e3o importantes. Porque elas s\u00e3o, em escala modesta e quase sempre heroica, um ant\u00eddoto contra o rebaixamento geral. Defendem a bibliodiversidade onde o mercado pede repeti\u00e7\u00e3o. Defendem perman\u00eancia onde tudo virou fluxo. Defendem conversas onde quase tudo virou mon\u00f3logo. E defendem intelig\u00eancia sem alarde, que \u00e9 uma coisa cada vez mais rara.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o sim: acho que a Noite das Livrarias merece ser celebrada. N\u00e3o s\u00f3 porque movimenta o setor, o que j\u00e1 seria motivo suficiente. Mas porque lembra uma verdade simples que andamos negligenciando: formar leitores \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o cultural, pol\u00edtica e at\u00e9 moral no melhor sentido da palavra. N\u00e3o moralista. Moral. Diz respeito ao tipo de pessoa e de sociedade que queremos ajudar a produzir.<\/p>\n\n\n\n<p>Fecho com uma pequena curadoria de alguns destaques de hoje (em SP, cidade onde moro. Confira tudo <a href=\"https:\/\/noitedaslivrarias.com.br\/\">aqui<\/a>). N\u00e3o para esgotar a noite, mas para sugerir boas portas de entrada:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Livraria Megafauna, no Copan: leitura de <em>Hamlet<\/em> com Bruna Beber, Celsim, Maria Manoella e Mika Lins.<\/li>\n\n\n\n<li>Gato sem Rabo, na Vila Buarque: encontro liter\u00e1rio sobre Toni Morrison, organizado pela professora Maria Carolina Cassati.<\/li>\n\n\n\n<li>Banca Tatu\u00ed, em Santa Cec\u00edlia: oficina de serigrafia fosforescente.<\/li>\n\n\n\n<li>Livraria da Vila, na Paulista: Slam das Minas, em batalha de poesias.<\/li>\n\n\n\n<li><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7o este texto com uma hist\u00f3ria pessoal, para ilustrar e, sim, tentar cativar a sua aten\u00e7\u00e3o para um tema que pouco engaja: a import\u00e2ncia da literatura. Minhas filhas mais velhas, Nina e Lola, deviam ter 6 e 4 anos. Ou 7 e 5. Tanto faz. 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