{"id":641338,"date":"2026-05-06T17:06:49","date_gmt":"2026-05-06T20:06:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaltela.com\/?p=641338"},"modified":"2026-05-06T17:19:15","modified_gmt":"2026-05-06T20:19:15","slug":"a-fe-nao-pode-servir-de-esconderijo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaltela.com\/noticias\/ultimas-noticias\/2026\/05\/06\/a-fe-nao-pode-servir-de-esconderijo\/","title":{"rendered":"\u201cA f\u00e9 n\u00e3o pode servir de esconderijo\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Existe um paradoxo moral que costuma circular em debates sobre intoler\u00e2ncia e viol\u00eancia: \u201cse dez pessoas est\u00e3o sentadas \u00e0 mesa, um abusador se senta e ningu\u00e9m se levanta, ent\u00e3o h\u00e1 onze abusadores \u00e0 mesa\u201d. A frase \u00e9 dura porque desloca o foco do agressor para o ambiente. O problema deixa de ser apenas quem pratica a viol\u00eancia e passa a ser tamb\u00e9m quem a normaliza pelo sil\u00eancio, pela omiss\u00e3o ou pelo medo de \u201ccausar esc\u00e2ndalo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei disso ao ver a repercuss\u00e3o do discurso da pastora Helena Raquel nas redes sociais. Os trechos viralizados de suas prega\u00e7\u00f5es tocaram em temas que por d\u00e9cadas circularam apenas como fofocas de corredor em muitas comunidades religiosas: viol\u00eancia dom\u00e9stica, abuso sexual, pedofilia, manipula\u00e7\u00e3o espiritual, acobertamento institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez o ponto mais importante de sua fala n\u00e3o seja exatamente a den\u00fancia. \u00c9 o deslocamento moral que ela prop\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque, no fundo, Helena Raquel n\u00e3o est\u00e1 acusando a igreja de ser naturalmente violenta. Est\u00e1 lembrando que qualquer comunidade humana, igreja, clube, associa\u00e7\u00e3o, fam\u00edlia, partido pol\u00edtico, torcida organizada, produz responsabilidade coletiva. Quando algu\u00e9m entra numa comunidade, entra tamb\u00e9m num pacto de cuidado m\u00fatuo. E esse pacto deixa de existir quando a reputa\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o vale mais do que a seguran\u00e7a das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante muito tempo, o tema foi tratado como tabu em setores religiosos. N\u00e3o apenas por conservadorismo moral, mas porque a pr\u00f3pria estrutura vertical de autoridade favorecia o abafamento. Em muitos ambientes, denunciar um l\u00edder equivalia quase a desafiar a Deus. Vers\u00edculos eram transformados em mecanismo de intimida\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. A express\u00e3o \u201cn\u00e3o toqueis no ungido do Senhor\u201d virou, em certos contextos, uma blindagem informal contra investiga\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n\n\n\n<p>A v\u00edtima carregava culpa dupla. Sofria a viol\u00eancia. Depois sofria a acusa\u00e7\u00e3o indireta de estar \u201cescandalizando a obra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Helena Raquel toca exatamente nesse ponto quando afirma: \u201cA maior parte das pessoas que s\u00e3o v\u00edtimas em igrejas evang\u00e9licas de viol\u00eancia dom\u00e9stica ou de viol\u00eancia sexual, elas s\u00e3o orientadas a n\u00e3o denunciar o culpado (&#8230;) me lembro perfeitamente de pessoas que diziam sobre algu\u00e9m: \u2018Pelo amor de Deus, n\u00e3o fala para n\u00e3o escandalizar\u2019.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"470\" height=\"269\" data-id=\"641343\" src=\"https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/05\/PASTORA-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-641343\" srcset=\"https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/05\/PASTORA-1.png 470w, https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/05\/PASTORA-1-300x172.png 300w\" sizes=\"(max-width: 470px) 100vw, 470px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Apresenta\u00e7\u00e3o da pastora Helena Raquel no Congresso internacional Gide\u00f5es. Imagem: CNN. <\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>A frase \u00e9 importante porque desmonta uma fic\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel: a de que o sil\u00eancio sempre foi exce\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi. Em muitos casos, ele era protocolo informal de sobreviv\u00eancia institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, comunidades religiosas aprenderam a lidar muito melhor com pecado privado do que com crime p\u00fablico. O adult\u00e9rio podia ser confessado. A agress\u00e3o dom\u00e9stica era \u201cproblema de casal\u201d. O abuso infantil virava assunto para ora\u00e7\u00e3o interna. Em certos ambientes, criou-se uma esp\u00e9cie de gaslighting espiritual permanente: a v\u00edtima era convencida de que denunciar destruiria minist\u00e9rios, afastaria almas da igreja ou atrairia \u201cmaldi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O perd\u00e3o crist\u00e3o era usado como anestesia jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas algo come\u00e7ou a mudar.<\/p>\n\n\n\n<p>O crescimento das redes sociais e de movimentos como #ChurchToo \u2013 esp\u00e9cie de deriva\u00e7\u00e3o religiosa do #MeToo \u2013 rompeu o monop\u00f3lio institucional da narrativa. Antes, uma igreja conseguia controlar a circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o internamente. Hoje, v\u00edtimas encontram coletivos de ex-membros, grupos de acolhimento, advogados, jornalistas e comunidades digitais inteiras compartilhando relatos semelhantes em tempo real.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"688\" src=\"https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/05\/SPOTLIGHT-1024x688.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-641345\" srcset=\"https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/05\/SPOTLIGHT-1024x688.jpg 1024w, https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/05\/SPOTLIGHT-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/05\/SPOTLIGHT-768x516.jpg 768w, https:\/\/www.portaltela.com\/s.01k8r8f7wx8pm\/2026\/05\/SPOTLIGHT.jpg 1489w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Casos antes abafados passaram a ganhar dimens\u00e3o p\u00fablica. No Brasil, um dos epis\u00f3dios mais ruidosos envolveu Felipe Heiderich, acusado de abuso infantil, num caso que dividiu comunidades evang\u00e9licas e exp\u00f4s o mecanismo quase autom\u00e1tico de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 figura carism\u00e1tica do l\u00edder religioso.<\/p>\n\n\n\n<p>No exterior, a denomina\u00e7\u00e3o Hillsong Church atravessou uma sequ\u00eancia de esc\u00e2ndalos envolvendo den\u00fancias de abuso, m\u00e1 conduta financeira e acobertamento institucional, culminando na sa\u00edda de figuras centrais como Brian Houston. O caso foi importante porque desmontou a ideia confort\u00e1vel de que abusos seriam desvios isolados de pequenas igrejas perif\u00e9ricas. O problema atravessa tamanho, pa\u00eds, idioma e modelo teol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto sens\u00edvel aparece nas chamadas comunidades terap\u00eauticas ligadas a grupos religiosos. Em muitos casos s\u00e9rios, elas salvam vidas. Em outros, o isolamento dos internos, a depend\u00eancia emocional e a aus\u00eancia de fiscaliza\u00e7\u00e3o externa criam ambientes particularmente vulner\u00e1veis para abusos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso significa que igrejas sejam violentas. Significa apenas que institui\u00e7\u00f5es humanas tendem a produzir zonas de sombra quando autoridade excessiva encontra aus\u00eancia de controle. E talvez seja justamente a\u00ed que a fala de Helena Raquel ganha relev\u00e2ncia. Ela n\u00e3o pede ca\u00e7a \u00e0s bruxas. Pede prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando diz \u201cped\u00f3filo n\u00e3o \u00e9 ungido\u201d, ela desmonta uma confus\u00e3o perigosa entre autoridade espiritual e imunidade moral. \u201cPed\u00f3filo n\u00e3o \u00e9 ungido. Ped\u00f3filo \u00e9 criminoso. N\u00e3o existe capacidade de se encontrar na mesma figura um pastor e um abusador. Ou \u00e9 pastor, ou \u00e9 abusador.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A frase viralizou porque rompe uma l\u00f3gica antiga das comunidades religiosas brasileiras: a ideia de que a fun\u00e7\u00e3o espiritual pode suspender temporariamente a responsabilidade \u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pode.<\/p>\n\n\n\n<p>E h\u00e1 algo importante acontecendo sociologicamente nesse processo. Durante d\u00e9cadas, l\u00edderes religiosos que tocavam nesses temas corriam risco de isolamento institucional. Hoje, come\u00e7a a surgir um movimento oposto: comunidades inteiras passaram a enxergar o enfrentamento do abuso n\u00e3o como ataque \u00e0 f\u00e9, mas como condi\u00e7\u00e3o para preserv\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez porque as novas gera\u00e7\u00f5es tenham desenvolvido baixa toler\u00e2ncia \u00e0 ideia de autoridade incontest\u00e1vel. Talvez porque a internet tenha destru\u00eddo o segredo. Talvez porque mulheres evang\u00e9licas tenham come\u00e7ado a ocupar espa\u00e7os p\u00fablicos de fala antes restritos. Talvez tudo isso junto.<\/p>\n\n\n\n<p>Helena Raquel sintetiza essa mudan\u00e7a quando escreve: \u201cExiste algo que a igreja n\u00e3o pode mais fazer: se omitir. N\u00e3o existe un\u00e7\u00e3o que justifique abuso. N\u00e3o existe chamado que autorize agress\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a profunda entre proteger uma comunidade e proteger sua imagem p\u00fablica. Institui\u00e7\u00f5es maduras entendem isso. Institui\u00e7\u00f5es inseguras confundem den\u00fancia com persegui\u00e7\u00e3o. E aqui est\u00e1 o ponto mais delicado do debate: denunciar viol\u00eancia n\u00e3o destr\u00f3i a igreja. O que destr\u00f3i a igreja \u00e9 transformar o sil\u00eancio em doutrina informal.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque toda comunidade humana ensina moral n\u00e3o apenas pelo que condena, mas tamb\u00e9m pelo que tolera calada. Quando Helena Raquel diz: \u201cJoga o travesseiro da coniv\u00eancia no lixo, levante-se e fa\u00e7a alguma coisa\u201d, ela est\u00e1 propondo uma \u00e9tica comunit\u00e1ria elementar: proteger a si mesmo \u00e9 tamb\u00e9m proteger os outros. Denunciar um agressor n\u00e3o \u00e9 \u201cferir a obra\u201d. \u00c9 impedir que novas v\u00edtimas apare\u00e7am.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, talvez o debate n\u00e3o seja apenas religioso. Seja civilizacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda institui\u00e7\u00e3o que se pretende espa\u00e7o de acolhimento enfrenta cedo ou tarde a mesma escolha: preservar reputa\u00e7\u00f5es ou preservar pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>As que escolhem a primeira op\u00e7\u00e3o normalmente acabam perdendo as duas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um paradoxo moral que costuma circular em debates sobre intoler\u00e2ncia e viol\u00eancia: \u201cse dez pessoas est\u00e3o sentadas \u00e0 mesa, um abusador se senta e ningu\u00e9m se levanta, ent\u00e3o h\u00e1 onze abusadores \u00e0 mesa\u201d. A frase \u00e9 dura porque desloca o foco do agressor para o ambiente. O problema deixa de ser apenas quem pratica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":641342,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"summary":"A fala da pastora Helena Raquel n\u00e3o acusa a igreja. 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