{"id":693202,"date":"2026-05-14T14:13:51","date_gmt":"2026-05-14T17:13:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaltela.com\/?p=693202"},"modified":"2026-05-14T14:13:53","modified_gmt":"2026-05-14T17:13:53","slug":"minha-casa-minha-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.portaltela.com\/noticias\/2026\/05\/14\/minha-casa-minha-vida\/","title":{"rendered":"Minha casa, minha vida"},"content":{"rendered":"\n<p>A cozinha da minha casa tem piso quadriculado e tudo o que for poss\u00edvel em vermelho. A sala mistura terracota, madeira escura, guitarras, livros, discos, p\u00f4steres, m\u00e1quina de pinball e at\u00e9 uma bicicleta \u2013 uma Caloi Cross Extra Light (vermelha) \u2013 pendurada na parede. Tem gente que entra e acha demais. Nos dois sentidos. Eu olho e penso exatamente o contr\u00e1rio: \u00e9 essa a ideia. Um lugar que ainda parece vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz uns bons anos que comecei a perceber essa tristeza cinza tomando conta do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o ela vinha disfar\u00e7ada de sofistica\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica. Os pr\u00e9dios come\u00e7aram a perder cor. O concreto aparente virou cool. O vidro fum\u00ea virou s\u00edmbolo de modernidade. Depois vieram os interiores. A obsess\u00e3o pelo bege. Pelo greige. Pelo off-white. Pelas cozinhas que parecem consult\u00f3rios de dentista. Casas inteiras montadas como renderiza\u00e7\u00e3o de incorporadora. Ambientes sem nenhum vest\u00edgio humano. Sem mem\u00f3ria. Sem bagun\u00e7a crom\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos percebi que aquilo n\u00e3o era s\u00f3 decora\u00e7\u00e3o. Era sintoma.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora uma <a href=\"https:\/\/lab.sciencemuseum.org.uk\/colour-shape-using-computer-vision-to-explore-the-science-museum-c4b4f1cbd72c\">pesquisa do Science Museum Group<\/a>, em Londres, que meu chefe me enviou como sugest\u00e3o, praticamente materializa essa sensa\u00e7\u00e3o. Usando vis\u00e3o computacional para analisar milhares de objetos produzidos ao longo de mais de dois s\u00e9culos, os pesquisadores perceberam que o mundo ficou progressivamente mais cinza e mais retangular.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma frase impressionante: o mundo ficou mais cinza.<\/p>\n\n\n\n<p>E pior: a gente quase n\u00e3o percebeu.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo analisa objetos cotidianos do acervo do museu \u2013 telefones, c\u00e2meras, utens\u00edlios, aparelhos dom\u00e9sticos, instrumentos tecnol\u00f3gicos \u2013 e detecta uma migra\u00e7\u00e3o crom\u00e1tica brutal ao longo do tempo. Marrons, amarelos, vermelhos, verdes e tons saturados foram desaparecendo. Cinzas, pretos, brancos e met\u00e1licos assumiram o controle.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando li isso, imediatamente pensei que venho observando essa muta\u00e7\u00e3o h\u00e1 d\u00e9cadas, mas de forma intuitiva. Meio f\u00edsica at\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez ela tenha come\u00e7ado culturalmente ali na passagem dos anos 1980 para os 90.<\/p>\n\n\n\n<p>Os anos 80 ainda eram excessivos. Cafonas \u00e0s vezes. Mas vivos. O Memphis Design, movimento art\u00edstico e de design que caracterizou os 80, parecia ter sido criado sob efeito de a\u00e7\u00facar industrial, cafe\u00edna e lumin\u00e1ria neon. Carros tinham azul, vinho, verde-musgo, marrom met\u00e1lico. Eletrodom\u00e9sticos tinham personalidade. Capas de disco pareciam explodir. Mesmo o mau gosto era caloroso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o alguma coisa mudou.<\/p>\n\n\n\n<p>Os anos 90 come\u00e7aram a transformar sobriedade em valor moral. O minimalismo corporativo foi tomando o lugar da exuber\u00e2ncia pop. O design come\u00e7ou a vender limpeza emocional. A Apple talvez tenha sido a grande sacerdotisa desse processo: superf\u00edcies brancas, alum\u00ednio escovado, transpar\u00eancias, sil\u00eancio visual, objetos sem textura humana.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que essa est\u00e9tica escapou dos objetos e contaminou a percep\u00e7\u00e3o inteira do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A moda ficou monocrom\u00e1tica. Restaurantes come\u00e7aram a parecer laborat\u00f3rios escandinavos. Cafeterias trocaram o vermelho e o amarelo por cimento queimado, plantas estrategicamente tristes e tipografia sem serifa. O streaming achatou a fotografia audiovisual numa massa azul-acinzentada. At\u00e9 filmes de super-her\u00f3i parecem hoje iluminados por uma l\u00e2mpada vacilona de garagem subterr\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica tamb\u00e9m entrou nisso.<\/p>\n\n\n\n<p>Os anos 80 ainda aceitavam o rid\u00edculo. Sintetizadores berrando neon. Capas absurdas. Videoclipes hist\u00e9ricos. Os anos 90 come\u00e7am a institucionalizar uma melancolia dessaturada que depois desemboca nessa m\u00fasica ambiente meio triste que parece tocar hoje em toda cafeteria de aeroporto, loja de sneakers e v\u00eddeo motivacional de LinkedIn.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o problema do bege seja esse: ele elimina atrito. Nada briga com nada. Nada pulsa. Tudo precisa coexistir educadamente dentro do mesmo feed.<\/p>\n\n\n\n<p>O neutro n\u00e3o rejeita ningu\u00e9m. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o apaixona ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa do museu sugere inclusive que parte dessa transforma\u00e7\u00e3o vem dos materiais: a sa\u00edda da madeira e a entrada massiva do pl\u00e1stico, do a\u00e7o, do alum\u00ednio e dos acabamentos industriais. Mas seria confort\u00e1vel demais culpar apenas o a\u00e7o escovado.<\/p>\n\n\n\n<p>Desconfio que exista outra coisa a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a vida contempor\u00e2nea tenha se tornado barulhenta demais nas telas e silenciosa demais fora delas. Talvez a avalanche permanente de informa\u00e7\u00e3o tenha produzido essa vontade de anestesiar os ambientes f\u00edsicos. Como se o mundo estivesse sendo lentamente esterilizado.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 que existe um efeito colateral estranho nisso: o mundo come\u00e7a a parecer permanentemente em luto.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro dia entrei num empreendimento novo \u2013 fachada, lobby, apartamento decorado, academia, coworking \u2013 absolutamente sem uma \u00fanica cor viva. Parecia um centro cir\u00fargico. Fiquei pensando como uma crian\u00e7a cresce num ambiente assim. Que mem\u00f3ria crom\u00e1tica ela constr\u00f3i do mundo?<\/p>\n\n\n\n<p>Porque cor tamb\u00e9m \u00e9 mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A inf\u00e2ncia quase sempre tem cores saturadas. A vida adulta contempor\u00e2nea parece um filtro desbotado.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso eu tenha transformado minha casa numa esp\u00e9cie de resist\u00eancia silenciosa. N\u00e3o como parque tem\u00e1tico dos anos 80. Mas como recusa desse mundo que parece querer lixar todas as superf\u00edcies emocionais at\u00e9 elas perderem textura.<\/p>\n\n\n\n<p>Gosto de madeira escura. Luz quente. Quadros demais. Livros aparentes. Objetos que envelhecem e outros j\u00e1 envelhecidos. Vermelho. Verde. Azul profundo. Amarelo queimado. Cores que parecem habitadas por gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje percebo que isso talvez seja menos decora\u00e7\u00e3o e mais posicionamento existencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma tentativa meio teimosa de continuar acreditando que o mundo ainda pode ser quente.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque existe algo meio assustador nessa marcha civilizat\u00f3ria rumo ao bege absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem apartamento hoje que parece j\u00e1 nascer pronto para ser desocupado.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo \u00e9 bonito.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada parece habitado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cozinha da minha casa tem piso quadriculado e tudo o que for poss\u00edvel em vermelho. 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