O debate sobre onde envelhecer com dignidade ganhou espaço no Brasil após o Congresso Brain 2024, no Rio de Janeiro. O ativista holandês Teun Toebes percorreu 11 países para mapear como vivem pessoas com demência. Junto ao diretor Jonathan de Jong, apresentou trechos do documentário Human Forever e propôs refletir sobre onde cada um gostaria de ser cuidado ao envelhecer.
A discussão ressalta que o Brasil vivencia envelhecimento acelerado, com crescimento de casos de demência e uma atuação de políticas públicas em construção. Na visão dos especialistas, não basta investir apenas em cuidados: é essencial assegurar qualidade de vida aos pacientes e maior participação social para quem cuida.
Toebes afirma que não existe uma única resposta e critica copias de modelos estrangeiros. O objetivo é ouvir as pessoas com demência e adaptar soluções à realidade brasileira, destacando a importância da vida comunitária e da convivência entre familiares e cuidadores.
O que acontece hoje no Brasil
Especialistas descrevem o cenário de atendimentos: as ILPIs públicas existem, mas são menos comuns que os cuidados em domicílio. O Censo SUAS de 2023 aponta 1.942 ILPIs que acolhem cerca de 69 mil idosos, com funcionamento sujeito às normativas da Anvisa.
A prática predominante ainda envolve lares de cuidado mistos e modelos familiares, principalmente por questões culturais e de custo. Dados do IPEA de 2010 indicam que havia 90 mil pessoas em 3,5 mil instituições, quadro que vem sendo revisitado conforme a população envelhece.
A demanda por cuidados envolve também quem presta assistência. Relatos de especialistas indicam sobrecarga sobre o público feminino e necessidade de políticas que distribuam responsabilidades entre família, comunidade e governo.
Como cuidar, onde e quem financia
A discussão aponta que o cuidado centrado na pessoa deve guiar as escolhas, independentemente de ser em casa, em uma ILPI ou em centros-dia. Os centros-dia, embora existentes, ainda são poucos no país e não atendem especificamente demência avançada.
Profissionais ressaltam que o Brasil precisa explorar redes de suporte domiciliar, com equipes multidisciplinares que acompanhem idosos com demência, e considerar opções intermediárias entre casa e instituição. A ideia é manter a pessoa integrada à comunidade, com segurança e autonomia preservadas.
Acesso a recursos é tema central: o Plano Nacional de Cuidados e a Política de Enfrentamento à Alzheimer ainda buscam definição de fontes de financiamento. Pesquisadores apresentam questionamentos sobre viabilidade de aumento de tributos ou redistribuição orçamentária para sustentar cuidados adequados.
Exemplos internacionais e lições
O conceito Hogeweyk na Holanda é citado como referência de bairro para demência avançada, com estrutura de convivência semelhante a uma comunidade. A experiência levanta debates sobre liberdade de movimento e direitos humanos, apontando que leis recentes impedem confinamento de residentes sem autorização.
Especialistas brasileiros defendem a ideia de aprender com práticas de países com realidades distintas, sempre adaptando à cultura local. A perspectiva é construir modelos que integrem rede de apoio, respeito à pessoa e participação social, sem reduzir direitos.
Caminho a seguir
Entre as propostas, destacam-se a ampliação de redes de cuidado domiciliar, centros-dia com oferta amplificada, e políticas públicas que promovam a participação de familiares sem onerá-los excessivamente. A discussão enfatiza a necessidade de engajamento social e políticas estáveis para sustentar cuidados de longa duração.
O debate também reforça que ouvir quem vive com demência é crucial para moldar serviços capazes de manter a qualidade de vida. O texto aponta a urgência de respostas consistentes sobre financiamento, organização institucional e respeito aos direitos das pessoas idosas.
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