Uma pesquisa arqueológica no Rio Grande do Sul revelou informações significativas sobre os hábitos alimentares e sociais dos Guarani antes da chegada dos colonizadores europeus. Foram encontrados quatrocentos e setenta e dois vestígios de plantas carbonizadas em um sítio arqueológico no município de Marques de Souza, às margens do Rio Forqueta. O estudo foi realizado por arqueólogos da Univates, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e de instituições argentinas.
Os vestígios indicam que o milho era central na dieta e nos rituais dos Guarani, com a presença de restos de milho, feijão e mandioca. Essas plantas, segundo os pesquisadores, foram domesticadas e transportadas ao longo de séculos, possivelmente da Amazônia, a centenas de quilômetros de distância. O milho representou cerca de setenta e cinco por cento dos vestígios encontrados.
Rituais e Cultivos
Além de ser a base da alimentação, o milho tinha um papel importante em rituais, como a festa anual da colheita e cerimônias de passagem para a vida adulta, que incluíam bebidas fermentadas à base do cereal. Os pesquisadores identificaram três tipos diferentes de milho, sugerindo um conhecimento avançado sobre cultivo e seleção de sementes.
Os vestígios também incluíram sementes de feijão, mandioca e plantas nativas, como jerivá, paineira e timbaúva. Essas espécies eram utilizadas para alimentação, pesca, medicamentos e em mitos de fundação. Ao todo, foram identificadas treze espécies vegetais diferentes, evidenciando um uso integrado dos recursos da floresta e da agricultura.
Importância Cultural
A predominância do milho pode estar relacionada ao seu significado simbólico nas práticas culturais Guarani. Entre os rituais destacados, está o avatikyry avati hemongarai, uma festa dedicada ao milho, e o kunumi pepy, uma cerimônia de passagem dos meninos para a vida adulta. Durante essas celebrações, o milho era utilizado na produção de bebidas fermentadas servidas em cerâmicas específicas.
As escavações revelaram duas áreas distintas: uma, rica em fragmentos cerâmicos e ossos, foi identificada como um antigo depósito de lixo; a outra, com objetos associados a práticas sociais, indicava um espaço cerimonial. A descoberta de vestígios carbonizados nesse segundo ambiente sugere que as celebrações envolviam o preparo e consumo de alimentos com valor simbólico, como o milho fermentado.
Os Guarani também manejavam a floresta de forma sustentável. A paineira fornecia fibras e folhas comestíveis, a timbaúva era usada na pesca e medicina, e o jerivá tinha importância econômica e espiritual. Embora a variedade de plantas identificadas seja menor do que a descrita em registros etnográficos recentes, isso se deve ao tipo de vestígio preservado. Futuros estudos poderão ampliar a compreensão sobre o uso de raízes e tubérculos.
Entre na conversa da comunidade