Na esteira das rotas de tráfico de drogas que ligam Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela ao Brasil, facções atuantes na Amazônia ampliam o leque de crimes. Garimpo, desmatamento e pesca ilegais passam a figurar com as mesmas prioridade do narcotráfico. O impacto atinge comunidades ribeirinhas e povos indígenas.
O estudo Cartografias da Violência na Amazônia, 4ª edição, aponta que grupos como CV, PCC e Família do Norte avançam na região. A pesquisa é fruto de parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Instituto Clima e Sociedade, o Instituto Itaú, o Instituto Mãe Crioula e o Laboratório Interpretativo Laiv e foi divulgado no fim de 2025.
O Alto Solimões, área estratégica na tríplice fronteira Brasil–Peru–Colômbia, é destacado no relatório. A região abriga cerca de 281 mil pessoas, sendo 54% indígenas, com forte dependência de recursos públicos e baixa presença estatal. O CV atua em seis dos nove municípios locais.
Contexto regional
A Amazônia Legal contempla 772 cidades, com 344 já registrando presença de facções. A expansão representa 45% dos municípios, um aumento de 32% frente a 2024. Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Pará, Amapá, Tocantins e Maranhão são os estados afetados.
O relatório descreve o corredor fluvial como núcleo da logística de tráfico. Rios, igarapés e sazonalidade favorecem o deslocamento de drogas, ouro, madeira e outros ilícitos, dificultando a fiscalização e reforçando a interação entre atividades criminosas urbanas e florestais.
Desdobramentos operacionais
A articulação entre tráfico de drogas e crimes ambientais ocorre por meio de controle de vias, pedágios ilegais e alianças com garimpeiros, madeireiros e grileiros. A corrupção de agentes públicos facilita a continuidade das atividades ilícitas.
Para enfrentá-las, o documento recomenda ações integradas entre polícias, órgãos ambientais e Receita Federal. Medidas incluem rastreamento de ouro e madeira, infiltração para alcançar lideranças e proteção a denunciantes para desmontar a rede financeira do crime.
O ouro figure como peça central para financiar a compra de pasta-base na fronteira com Peru e Colômbia. O garimpo, a extração de madeira e a pesca predatória aparecem como componentes de um portfólio que serve à lavagem de dinheiro e à expansão do tráfico.
Perspectivas e impactos
Especialistas ressaltam que o desafio envolve governança territorial, soberania e segurança pública. A interiorização das dinâmicas criminosas reforça a necessidade de cooperação entre estados e cooperação regional para reduzir a vulnerabilidade das comunidades.
O delegado Edson Pinheiro dos Santos Júnior, que coordena ações de segurança, enfatiza que o crime organizado se fortalece com o dinheiro proveniente das atividades ilegais. A redução de riscos depende de uma estratégia integrada e de proteção a denunciantes.
A reportagem aponta que o quadro é dinâmico e exige monitoramento contínuo. A ampliação da presença de facções na Amazônia reforça a relevância de políticas públicas eficientes, com foco em repressão, fiscalização ambiental e cumprimento da lei.
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