O conflito no Oriente Médio completa 100 dias e já afeta a economia mundial, com reflexos sobre a inflação, o custo de energia e a cadeia produtiva. No Brasil, economistas da FGV alertam para um cenário de crédito mais difícil, juros elevados e inflação persistente, que podem reduzir a rentabilidade do agronegócio.
A avaliação foi feita em webinar da Fundação Getulio Vargas (FGV), que destaca impactos tanto de fatores globais quanto climáticos. Segundo os especialistas, o El Niño aumenta incertezas sobre eleições e produção rural, elevando riscos para saídas do setor.
Dinâmica macro e crédito
Os economistas destacam que o petróleo mais caro, decorrente da instabilidade no Oriente Médio, pressiona combustíveis, fertilizantes, transporte e energia. Com isso, a inflação tende a permanecer elevada por mais tempo, comprimindo margens do produtor.
Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV IBRE, aponta que a renda real do agricultor pode sofrer mesmo com altas de preços agrícolas. O ciclo de inflação elevada pode perdurar, dificultando a redução de juros e encarecendo o crédito.
Para José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV IBRE, o ciclo de flexibilização monetária chegou ao fim. O cenário aponta para condições financeiras mais adversas, com possibilidade de alta da taxa Selic entre este ano e 2027.
Perspectivas para o agro e o PIB
O estudo avalia que, apesar de safras e exportações de carnes manterem números positivos, os custos de produção avançam mais rapidamente que os ganhos. O clima adverso, potencialmente agravado pelo El Niño, pode reduzir produtividade e volumes exportáveis.
A FGV projeta crescimento de apenas 1% para o PIB no próximo ano, caso os choques persistam. O cenário envolve inflação elevada, juros altos por mais tempo e incertezas fiscais, com impactos diretos sobre o crédito rural e investimentos no campo.
No campo fiscal, o Brasil pode se beneficiar de preços internacionais do petróleo mais altos, favorecendo a arrecadação do setor de óleo e gás. Contudo, medidas de compensação de custos e possíveis estímulos fiscais no período pré-eleitoral podem moderar esse ganho.
O conjunto de desafios — inflação, juros, riscos climáticos e incertezas fiscais — cria um ambiente mais complexo para a economia brasileira. Para o agronegócio, custos maiores, crédito mais caro e possíveis perdas de produtividade podem limitar a contribuição do setor ao crescimento do país nos próximos anos.
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