Em meio a uma posição dominante no cenário global, a Coreia do Sul enfrenta uma transformação profunda em cinema e K‑pop, com impactos sobre a estratégia de exportação cultural e o ecossistema criativo doméstico. As exportações culturais atingiram 15,18 bilhões de dólares em 2024, consolidando o país como potência cultural. No entanto, as duas principais bandeiras da onda coreana sofrem mudanças estruturais.
A queda na demanda interna pelo cinema é a mais acentuada. As bilheterias, para filmes nacionais e internacionais, caíram 45% desde 2019, uma retração que levou a receita de bilheteria a 812 milhões de dólares, ante 1,3 bilhão. Com esse cenário, distribuidores que antes lançavam mais de 40 longas por ano devem reduzir para cerca de 20 em 2025, e 2026 pode ser ainda mais desafiador, conforme o backlog herdado da pandemia se esgota.
Analistas apontam que o setor já enfrenta um esgotamento de produção interna. O diretor Kim Han-min, responsável pela trilogia Yi Sun-sin, alertou em reunião com legisladores que o cinema sul-coreano chegou a ficar “quase em colapso”. A lenta recuperação está ligada à redução de investimentos e ao adensamento de produção para plataformas de streaming, que oferecem prazos mais previsíveis e financiamento estável.
A janela de exibição nos cinemas, entre lançamento e disponibilidade em streaming, encurtou para apenas algumas semanas em muitos títulos. Esse fenômeno reduz o incentivo para o público ir ao cinema, contribuindo para a reorganização do setor. Em resposta, grandes redes, como Lotte Cinema e Megabox, planejam fusões para integrar seus 1.682 ecrãs e coibir custos elevados.
Paralelamente, o universo do K‑pop enfrenta sinais de desgaste. As vendas de álbuns físicos recuaram 19,5% em 2024, caindo de 115,2 milhões para 92,7 milhões de unidades, com expectativa de persistência da queda até o fim de 2025. Mesmo assim, as receitas de shows ao vivo têm impulsionado a renda das agências, diante da desaceleração dos ganhos com discos.
O giro estratégico das agências envolve o foco em turnês globais em detrimento de lançamentos de álbuns. Especialistas destacam que o modelo centrado em fãs dedicados molda recrutamento, formação de idols e estratégias de marketing, e inspira práticas de mercados fora da Coreia. Ainda assim, resta a dúvida sobre a capacidade dessa abordagem gerar novos fenômenos de alcance global comparáveis a BTS ou Blackpink.
A indústria de entretenimento enfrenta, ainda, a necessidade de equilíbrio entre expansão internacional e fortalecimento da infraestrutura doméstica. Grandes agências como HYBE e SM Entertainment passam a abrir subsidiárias em regiões como Sudeste Asiático, Índia e China, buscando novas fontes de receita. Críticos apontam que esse foco externo pode deixar para trás a base interna e comprometer a autenticidade cultural que impulsionou o crescimento internacional.
A resposta pública contempla um pacote de investimento cultural de cinco anos, no valor de 51,4 trilhões de won, para ampliar a presença internacional e fortalecer setores relacionados, desde conteúdo até treinamento artístico, turismo e esportes. Além disso, o presidente designou Park Jin-young, empresário da JYP, para co-chefiar um comitê cultural presidencial voltado à promoção internacional da cultura pop coreana.
As avaliações indicam que a trajetória atual pode sustentar ganhos financeiros, mas não garante renovação criativa constante. Especialistas ressaltam que o setor precisará investir em produção doméstica estável e diversificar formatos para manter o ecossistema vivo, sem abandonar o impulso global que caracteriza a modernização cultural da Coreia.
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