A entrada do River Plate na disputa por Thiago Almada levantou uma pergunta inevitável: como um clube argentino consegue competir por um reforço de mais de 20 milhões de euros com o Flamengo, dono da maior receita do futebol sul-americano? O River apresentou uma proposta de 20 milhões de euros ao Atlético de Madrid, mas […]
A entrada do River Plate na disputa por Thiago Almada levantou uma pergunta inevitável: como um clube argentino consegue competir por um reforço de mais de 20 milhões de euros com o Flamengo, dono da maior receita do futebol sul-americano?
O River apresentou uma proposta de 20 milhões de euros ao Atlético de Madrid, mas encontrou dificuldades para oferecer as garantias financeiras exigidas.
O Flamengo também avançou nas conversas, recebeu sinal positivo do jogador e informou que não participará de um leilão.
Até esta terça-feira (4), nenhum dos clubes havia fechado um acordo com os espanhóis.
Mesmo sem a contratação definida, a investida mostra o novo patamar alcançado pelo River.
O clube já havia desembolsado 29 milhões de euros, aproximadamente R$ 170 milhões, em reforços na atual janela. Seu elenco é avaliado em 141 milhões de euros, o maior valor do futebol argentino.
O dinheiro não vem de um proprietário, de uma SAF ou de aportes do banco ligado à família do ex-presidente Jorge Brito.
O River continua sendo uma associação civil controlada pelos sócios. Seu crescimento foi construído sobre quatro fontes principais: estádio, quadro associativo, contratos comerciais e formação de jogadores.
Monumental virou o principal motor financeiro
A reforma e a ampliação do Monumental mudaram a capacidade de arrecadação do River.
Com espaço para aproximadamente 85 mil torcedores, o estádio passou a operar praticamente lotado nas partidas e também ganhou camarotes, setores comerciais, restaurantes, museu e áreas destinadas a experiências premium.
Em 2024, as receitas classificadas como matchday chegaram a US$ 115 milhões, segundo levantamento da Sports Value.

Foto: Creative Commons
O grupo reúne mensalidades de sócios, bilheteria, programas de lugares reservados e outras explorações ligadas ao estádio. O valor representou 56% de toda a receita do River naquele exercício.
A comparação com o Palmeiras ajuda a dimensionar o modelo. Enquanto o clube brasileiro recebeu US$ 45 milhões com direitos de televisão em 2024, o River arrecadou apenas US$ 12 milhões nessa área. A diferença foi compensada pelo Monumental: o Palmeiras obteve US$ 28 milhões em receitas de dias de jogos, menos de um quarto do registrado pelos argentinos.
Em 2025, o estádio manteve média próxima de 85 mil pessoas por partida, uma das maiores do futebol mundial.
Sócios pagam a conta todos os meses
O River aparece em levantamentos recentes com aproximadamente 350 mil associados, embora o número possa variar conforme sejam contabilizadas diferentes categorias de adesão e programas vinculados ao clube.
Jorge Brito, então presidente, afirmou em 2025 que a principal fonte de recursos da instituição era justamente a contribuição mensal dos associados.
Na sequência, o dirigente citou os assinantes do programa de lugares no Monumental e os patrocinadores.
Somente as contribuições dos associados teriam gerado aproximadamente R$ 254 milhões em 2025, de acordo com os números divulgados pela imprensa argentina.
Muitos associados adquirem planos específicos para garantir presença nos jogos, o que permite ao River antecipar parte do faturamento da temporada antes mesmo de a bola rolar.
Shows e naming rights ampliam uso do estádio
O Monumental deixou de funcionar apenas nos dias de futebol. O River firmou um contrato de US$ 110 milhões, mais impostos, com Live Nation, DF Entertainment e Dale Play Live para explorar shows e os direitos de nome do estádio durante dez anos, a partir de janeiro de 2027.
O acordo prevê US$ 80 milhões por pelo menos 120 apresentações ao longo do período e outros US$ 30 milhões pelos naming rights.
A maior parte dos pagamentos será recebida no primeiro ano, mas o valor total não entrará integralmente de uma só vez.
Os US$ 110 milhões representam um contrato de longo prazo, e não uma receita anual. Ainda assim, a antecipação de parte dos recursos aumenta a liquidez e permite que o clube planeje investimentos no elenco, nas obras e na redução de dívidas.
O River também multiplicou suas receitas de marketing nos últimos anos. Em 2024, o clube arrecadou aproximadamente US$ 39 milhões nessa área, superando os US$ 33 milhões registrados pelo Palmeiras no mesmo levantamento.
Base que gera lucro
O quarto pilar está nas categorias de base. O River formou e negociou jogadores como Julián Álvarez, Enzo Fernández, Claudio Echeverri, Lucas Beltrán e Franco Mastantuono.
Nem todo o dinheiro entrou apenas nas transferências iniciais. No caso de Enzo Fernández, por exemplo, o River manteve um percentual sobre uma negociação futura e voltou a receber quando o Benfica vendeu o meia ao Chelsea. Esse modelo permite que o clube continue lucrando depois que o atleta já deixou a Argentina.

Foto: Divulgação/River Plate
A transferência de Mastantuono ao Real Madrid foi outro marco. O jogador acionou uma cláusula de 45 milhões de euros, enquanto o custo total da operação, com impostos e encargos, chegou a 63,2 milhões de euros.
Essas vendas ajudam o River a buscar jogadores prontos sem abandonar o investimento na formação. O clube transforma jovens em receitas em moeda forte e utiliza parte desse dinheiro para repatriar argentinos ou contratar destaques de outros mercados sul-americanos.
Balanço terminou com superávit de US$ 40 milhões
O balanço referente a 2025 apresentou 351,7 bilhões de pesos argentinos em recursos ordinários, crescimento próximo de 70% em relação ao exercício anterior. O resultado foi impulsionado pelo futebol profissional, pelo aumento do número de sócios e pela expansão comercial.
O River terminou o período com superávit de 57,5 bilhões de pesos, equivalente a cerca de US$ 40 milhões pela cotação utilizada no balanço.
Foi o quinto ano seguido com resultado positivo e o quarto superávit consecutivo destacado pela gestão.
A conversão dos números argentinos diretamente para reais exige cuidado. O balanço é elaborado em pesos e ajustado pelos efeitos da inflação, enquanto as negociações internacionais são realizadas em dólares ou euros.
River é mais rico que o Flamengo?
O River se tornou uma potência regional, mas isso não significa que tenha ultrapassado o Flamengo financeiramente.
O clube carioca encerrou 2025 com receita bruta de R$ 2,089 bilhões, sendo R$ 1,571 bilhão em receitas recorrentes. Também registrou superávit de R$ 336 milhões e arrecadou R$ 519 milhões com vendas de atletas.
O River consegue disputar determinadas contratações porque acumulou superávits, recebe em moeda forte por seus jogadores, possui receitas previsíveis com os sócios e transformou o Monumental em uma plataforma comercial.

Foto: Divulgação/CONMEBOL
No caso de Almada, existe ainda um componente que não aparece no balanço. O jogador demonstrou preferência por retornar à Argentina caso deixe o futebol europeu, e sua família também pesa na escolha.
Isso permite ao River competir mesmo sem necessariamente apresentar a maior proposta.
A tentativa de contratar o meia resume o atual estágio do clube: o River já tem força para entrar em operações antes restritas aos maiores brasileiros, mas ainda precisa apresentar garantias e administrar os limites de uma economia instável.
O dinheiro existe, porém vem de uma combinação entre estádio, torcida, base, contratos antecipados e reinvestimento, não de uma única fonte inesgotável.
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