O Brasil passa a adotar uma postura de confronto com os Estados Unidos diante de investigações do governo americano sobre práticas comerciais. O USTR abriu, no ano passado, uma série de apurações que incluem o Brasil entre os alvos de possível irregularidade comercial. A decisão final deve sair até julho.
Especialistas veem a iniciativa como movida por ganhos políticos, não apenas por razões econômicas. Para o diplomata Marcos Troyjo, o governo Lula tem mostrado omissão na defesa de exportadores nacionais e busca fortalecer a narrativa interna de oposição aos EUA.
Troyjo afirmou que o momento é o mais tenso entre as duas maiores economias do continente e democracias ocidentais, ressaltando distância entre Brasília e Washington. Ele foi nomeado recentemente para o conselho da United Nations Foundation.
A análise aponta que, apesar de sinais de aproximação no passado, o Brasil permanece sob risco de retaliação decorrente das investigações do USTR. A atuação brasileira é vista como tentativa de influenciar o quadro político interno, segundo a leitura de Troyjo.
No âmbito jurídico, a Suprema Corte dos EUA decidiu que tarifas impostas anteriormente podem ter duração limitada sem nova autorização do Congresso. A renovação dessas tarifas dependeria de aprovação legislativa, o que tende a não ocorrer antes de novembro.
O ministro da Fazenda, Durigan, indicou que a decisão do USTR não deve ser encarada apenas como teatro político. Para ele, há forte componente geopolítico nas medidas comerciais, com impactos econômicos reais na relação bilateral.
Segundo especialistas, o Brasil é hoje mais protecionista que os EUA em determinados setores, o que complica negociações. Barreiras a etanol, por exemplo, permanecem apesar de pressões para derrubá-las, beneficiando produtores locais.
Caso não haja empenho diplomático, o comércio entre Brasil e EUA pode sofrer efeitos de diversificação geográfica. Empresas brasileiras já estudam deslocar parte de operações para Paraguai, Argentina e Uruguai para manter acesso aos EUA.
Em termos de comércio, os EUA representam uma participação relativamente pequena nas exportações brasileiras. Mesmo com protecionismo recente, a dependência do Brasil em relação aos EUA continua baixa, enquanto os EUA respondem com grande peso de investimento.
Entre os setores potencialmente poupados de tarifas, destacam-se itens como carne bovina, móveis e derivados de madeira, além de componentes usados na indústria de motores. A complexidade das cadeias produtivas dificulta substituição rápida.
A interlocução brasileira não deve depender de um único canal. especialistas sugerem diversificar contatos e explorar canais de representação política em Washington para ampliar a atuação diplomática.
No âmbito geopolítico, reservas de terras raras aparecem como possível instrumento de barganha. A China já utilizou esse tipo de recurso em negociações com os EUA, evidenciando vulnerabilidades de dependência tecnológica e mineral.
A China mantém vantagem em minerais críticos e figura entre os maiores fornecedores globais. O Brasil é visto como um ator com potencial estratégico, mas a percepção é de que o país não está explorando plenamente essa posição para influenciar acordos com Washington.
Analistas destacam que, para navegar o cenário, o Brasil precisa alinhar ações com objetivos econômicos tangíveis, evitando movimentos que aumentem incerteza para exportadores e investidores. O tema segue em evolução com a perspectiva de decisão do USTR em julho.
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