- A Arábia Saudita publicou o decreto real M/14, que abre o mercado imobiliário a estrangeiros a partir de 21 de janeiro, substituindo a legislação de 2000.
- O texto permite que pessoas físicas, empresas e fundos não sauditas adquiram direitos de propriedade, usufruto ou servidão em áreas a definir pela Autoridade Geral de Imóveis, com investimento mínimo de 30 milhões de riais sauditas em determinadas atividades.
- O decreto estabelece zonas limitadas e barreiras contra especulação, direcionando o acesso a um grupo específico de investidores.
- O movimento ocorre em meio a ajustes no mercado de Dubai, que vive alta de preços e deve enfrentar correção de até 15% segundo projeções de agências.
- A estratégia saudita busca atrair investidores muçulmanos ou de países do Conselho de Cooperação do Golfo com alinhamento cultural, fortalecendo a visão de longo prazo da economia do reino.
A Arábia Saudita criou um marco no mercado imobiliário ao abrir espaço para estrangeiros, a partir de 21 de janeiro. O decreto real M/14 permite a compra de direitos de propriedade, usufruto e servidão por indivíduos, empresas e fundos não sauditas, em áreas ainda a definir pela Autoridade Geral de Imóveis. Regras rígidas restringem zonas de compra e impõem investimentos mínimos.
A mudança ocorre num momento em que Dubai, vizinho regional, enfrenta ajustes de oferta após anos de valorização. O objetivo saudita não é copiar Dubai, mas criar um polo próprio para investidores estrangeiros, condicionando operações a critérios específicos. A proposta busca reduzir a dependência do petróleo, alinhando-se à visão econômica 2030.
O decreto substitui a legislação de 2000 e prevê trâmite de registrabilidade apenas para transações dentro das regras, o que dificulta operações de menor porte. Investimento mínimo para determinadas atividades fica em 30 milhões de riais sauditas (cerca de R$ 43,2 milhões).
Dois mercados, duas estratégias
Em termos de valores, imóveis em Riade custam cerca de US$ 2.664 por m², frente a US$ 7.602 em Dubai, segundo dados recentes. O centro de Riade apresenta desconto expressivo em relação ao emirado. A diferença reforça o caráter distinto das estratégias de cada país.
No primeiro trimestre de 2025, o investimento estrangeiro direto no reino atingiu 22,2 bilhões de riais, segundo CBRE. O setor imobiliário representa 5% a 6% do PIB não petrolífero, com transações de US$ 29 bilhões no período. O impulso é parte da transformação da economia para além do petróleo.
A residência premium saudita exige investimento mínimo de 4 milhões de riais em imóveis, cerca de R$ 5,8 milhões, o que supera o nível exigido para programas semelhantes em Dubai. A preferência por investidores muçulmanos está alinhada a objetivos culturais e religiosos, além do retorno financeiro.
A pesquisa Knight Frank de 2025 aponta que 82% dos muçulmanos de alto patrimônio mostraram interesse em investir no reino, com orçamentos médios de US$ 4,7 milhões. Meca, Riade e Medina aparecem como os principais destinos, sinalizando um mercado mais segmentado que Dubai.
Contexto geopolítico favorável
A normalização entre Irã e Arábia Saudita, mediada pela China, aumenta a previsibilidade regional. Ataques no Mar Vermelho diminuíram de 150 em 2024 para sete em 2025, com cessar-fogo em Gaza desde setembro. Dados da Suez Canal indicam crescimento de 14% entre julho e outubro de 2025.
A infraestrutura regional avança com projetos como a ferrovia Landbridge e a expansão portuária nos Emirados. A visão de longo prazo envolve megaprojetos como Neom, Qiddiya e zonas turísticas no Mar Vermelho, com conclusão prevista entre 2030 e 2035.
O decreto real M/14, por fim, sinaliza uma estratégia diferenciada da Arábia Saudita: maior controle estatal, padrões culturais fortes e atração de investidores que valorizem alinhamento religioso. O objetivo é captar capital com um perfil específico, sem depender exclusivamente de liquidez global.
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