Os dois Brasis nas eleições
A polarização no debate político brasileiro preocupa especialistas, mas pode ter alcance limitado. Na avaliação de Jairo Nicolau, cientista político da Fundação Getúlio Vargas, a tensão entre campos opostos mobiliza afetos, sem necessariamente dividir o eleitorado amplo.
A análise destaca que, para grande parte da população, o voto ainda depende de fatores cotidianos e não da disputa entre projetos, o que explica o expressivo contingente de indecisos nas consultas recentes.
Segundo a Datafolha de maio, 39% dos entrevistados não souberam em quem votar, caso a eleição fosse hoje. Entre os que reagiram, Lula aparece com 27%, Bolsonaro com 3% e um grupo de 18% cita o herdeiro político ainda não definido.
Esse cenário revela que a polarização de alto a baixo não é tão disseminada entre o conjunto de eleitores. A dinâmica, aponta Nicolau, está concentrada em elites e na parcela mais instruída da população.
A disputa majoritária em dois turnos favorece a necessidade de cada lado enfatizar diferenças programáticas, de pessoa e de estilo de governo. As escolhas dependem, em grande medida, de decisões institucionais já tomadas neste ano.
No debate público, Lula e o PT buscaram manter o espaço da centro-esquerda, evitando a emergência de concorrentes expressivos. Do lado da direita, a acumulação de candidaturas associadas ao bolsonarismo ajudou a consolidar o bloco de extrema direita.
Entre os nomes citados frente ao eleitorado, aparecem ex-governadores ligados a sinais de continuidade com o bolsonarismo, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, além de Flávio Bolsonaro, e o PSD de Gilberto Kassab tem sido apontado como correto a não consolidar uma linha centrista.
A leitura é de que o desenho atual favorece a consolidação de uma dicotomia entre moderados progressistas e forças de direita mais radical, a depender de movimentos partidários que ainda podem ocorrer até as convenções.
Muita coisa pode mudar até o pleito, mas, para analistas, não é possível atribuir a maioria dos eleitores uma inclinação sectária universal. A configuração recente parece ser mais resultado de escolhas partidárias do que de uma consciência cívica homogênea.
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