Em maio de 2010, um incêndio devastador no Instituto Butantan resultou na perda de mais de 80 mil serpentes e 450 mil aranhas e escorpiões, comprometendo um acervo que remontava à fundação do instituto em 1901. O professor Paulo Lotufo, da USP, expressou sua indignação pela destruição do patrimônio, que não teve amostras de DNA preservadas. Na época, Lotufo estava à frente do Hospital Universitário da USP, que recebeu tomógrafos computadorizados de alta definição, e imediatamente pensou em aplicar essa tecnologia para digitalizar acervos científicos.
Pesquisadores da USP, liderados por Walter Neves, começaram a usar tomografia para digitalizar fósseis e outros artefatos. O projeto, que já realizou mais de 10 mil tomografias, visa criar backups virtuais de acervos arqueológicos e etnográficos, permitindo novas análises e preservação do patrimônio cultural. Neves, conhecido por seus estudos sobre Luzia, um dos fósseis humanos mais antigos das Américas, destacou a importância da digitalização para evitar perdas irreparáveis.
O incêndio no Museu Nacional em 2018, que destruiu quase todo o acervo, incluindo o crânio original de Luzia, e outro incidente em 2020 no Museu de História Natural da UFMG, ressaltaram a fragilidade dos acervos. Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), enfatizou que a digitalização poderia ter mitigado essas perdas, preservando o potencial científico dos objetos.
Digitalização e Preservação
A digitalização de acervos não apenas preserva, mas também amplia as possibilidades de pesquisa. O uso de tomógrafos permite a visualização de estruturas internas de ossos e cerâmicas, revelando informações antes invisíveis. Recentemente, pesquisadores identificaram o caso mais antigo de sífilis nas Américas em um esqueleto de 9,4 mil anos, utilizando tomografia. Além disso, a digitalização de peças cerâmicas marajoaras revelou estruturas vegetais incorporadas intencionalmente.
O projeto de virtualização do MAE, iniciado em 2018, está em constante expansão. Com mais de 1,5 milhão de itens, a equipe busca catalogar e digitalizar acervos de diversas culturas, priorizando a preservação e o acesso ao conhecimento. O novo Centro de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas, em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, será um passo importante na formação de acervos audiovisuais relacionados às culturas indígenas.
A digitalização também levanta questões sobre propriedade intelectual e repatriação de coleções. A pressão por devolução de artefatos às comunidades de origem está crescendo, e a digitalização pode facilitar esse processo, permitindo a distribuição de réplicas enquanto os originais são devolvidos. O desafio de manter a integridade das coleções é constante, mas a digitalização se mostra uma ferramenta essencial para a preservação do patrimônio cultural.
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