O relatório Europa 2026 do Lancet Countdown aponta que o aquecimento global acelera a disseminação de doenças infecciosas na Europa. O estudo avalia impactos diretos, como calor extremo, e indiretos, incluindo insegurança alimentar e poluição do ar, que aumentam o risco para a saúde.
Entre 2015 e 2024, a maioria das regiões europeias registrou alta de mortes associadas ao calor em comparação com a década de 1991-2000. Em 2024, mais de 62 mil óbitos foram atribuídos às altas temperaturas, com maior impacto no sul e no sudeste do continente. Idosos e bebês aparecem entre os grupos mais vulneráveis.
O estudo também aponta avanço de áreas propícias à transmissão de dengue, chikungunya e o vírus do Nilo Ocidental. Na última década, o risco médio de surtos de dengue quase quadruplicou em relação aos anos 1980 e 1990, com concentração no oeste e no sul da Europa.
O calor excessivo, por sua vez, reduz a capacidade de trabalho e atividades físicas. Entre 2000 e 2023, a temperatura média elevou em torno de 24 horas a atividade anual por trabalhador. Agricultores e trabalhadores da construção civil costumam sofrer os impactos mais expressivos.
Efeitos adicionais e desigualdades
O prolongamento da temporada de pólen agrava rinite e asma, enquanto a exposição a fumaça de incêndios florestais aumenta. Os autores destacam que os riscos são distribuídos de forma desigual, atingindo mais fortemente regiões pobres e comunidades de baixa renda.
Houve avanços na adaptação: mais países e cidades criaram avaliações de risco climático para a saúde, planos nacionais e sistemas de alerta para ondas de calor. Contudo, a implementação permanece aquém do necessário, segundo o relatório, deixando grupos vulneráveis menos protegidos.
Energia, poluição e políticas
No setor energético, a transição para fontes renováveis avança, e o uso de carvão recuou em 2023. Ainda assim, a biomassa sólida para aquecimento residencial segue em alta, contribuindo para a poluição do ar e compensando parte dos ganhos climáticos.
A poluição atmosférica continua sendo um fator relevante de adoecimento e morte. Enquanto mortes ligadas à poluição nos setores de energia e transporte diminuíram, aumentaram aquelas associadas à queima de biomassa em ambientes domésticos.
O relatório destaca uma contradição econômica: apesar de compromissos climáticos, subsídios a combustíveis fósseis atingiram níveis recordes em 2023, impulsionados pela crise energética após a invasão na Ucrânia.
Apesar de os investimentos em mitigação terem aumentado, o engajamento político e midiático em torno do clima e da saúde permanece limitado, alerta o Lancet Countdown. Autoridades são instadas a tratar a crise climática como uma emergência de saúde para mobilizar ações efetivas.
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