Christina Quarles inaugura sua primeira exposição solo em Los Angeles com a galeria Hauser & Wirth. O conjunto de obras, criadas após o incêndio Eaton que devastou a comunidade de Altadena no ano passado, destaca uma produção marcada por afastamentos emocionais e novas técnicas. A mostra, intitulada The Ground Glows Black, fica em cartaz até 3 de maio.
A série apresenta figuras humanas em composições densas, com o corpo em contínua transformação. Quarles trabalha com acrílico em camadas que parecem segunda pele, além de estênis digitais que simulam adesivos. Mesmo sendo puro acrylic, o resultado remete a colagem pela leitura visual.
O incêndio em Altadena motivou a nova produção, segundo a artista, que descreve a obra como mais solta e desatada do vínculo com a forma anterior. A exposição marca a primeira apresentação de Quarles em Los Angeles pela Hauser & Wirth, consolidando seu lugar no circuito internacional.
Processo criativo e técnicas
Entre as obras, destacam-se peças em que o uso de carvão na seção de papel cria um diálogo com a pintura. A artista comenta que o carvão, embora tradicionalmente restrito, está sendo empregado de modo a permitir construção por remoção e rasgo, simulando uma montagem invertida.
Quarles fala sobre a percepção de espaço nas pinturas, que podem parecer portais ou cavernas. A leitura inclui luz ambiente, como lâmpadas de sódio, que retiram cor e enfatizam tons ocre e cinza em áreas específicas. Esse uso da luz reforça a ideia de descolamento do cotidiano.
A convivência com dois choques de fogo – o primeiro na casa de aluguel e o segundo durante a reconstrução — influenciou a temática de desarticulação. A artista relata que a experiência de maternidade também respinga nas obras, acelerando a produção em papel.
O conjunto é descrito pela própria artista como intenso e multifacetado, com várias camadas de corpos entrelaçados. Segundo a curadoria, a produção atual propõe uma leitura de mundo marcada por instabilidade, deslocamento e multiplicidade.
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