Georg Baselitz, pintor alemão reconhecido por inverter a orientação de seus quadros, faleceu no fim de abril, aos 88 anos. A morte marca o encerramento de uma trajetória que desafiou convenções da pintura contemporânea.
Nascido como Hans-Georg Kern, adotou o nome Baselitz em homenagem à sua cidade natal. Cresceu na Alemanha Oriental e foi expulso da universidade por motivos considerados sociopolíticos. Sua obra ortaya desfez fronteiras entre mundo real e representação.
Em 1969, Baselitz passou a expor quadros invertidos, iniciando com Der Wald auf dem Kopf. A série manteve temas recorrentes como bosques, retratos, cabeças e figuras camponesas, reinterpretando a relação entre motivo e suporte.
A linguagem da inversão
A inversão não foi mero recurso estético, mas continuidade de uma crítica ao heroísmo. Na série Helden (anos 1965-1966), soldados derrotados e figuras cansadas aparecem em gestos que exprimem um herói esvaziado.
Ele admirou Pollock, Guston, Rothko e outras grandes referências, mas preferiu De Kooning, pela matéria contundente que a pintura preservava. Nas esculturas, troncos talhados reforçaram a ideia de brutalidade material na obra.
Controvérsias e fases finais
Em 1980, Baselitz protagonizou polêmica no pavilhão alemão da Bienal ao apresentar uma figura de madeira com saudação nazista. Em entrevista de 2013, declarou que mulheres pintam mal, frase que provocou intensa discussão sobre o tema.
Ao longo dos anos, Elke Kretzschmar, sua mulher desde 1962, foi retratada em diversas obras. A relação é destacada na produção dos Eroi d’Oro, uma série de despedida que alterna autorretratos e retratos dela.
Conclusão de uma trajetória
A mostra de encerramento das seis décadas de pintura está em Veneza, na Fondazione Giorgio Cini, com as obras dos Eroi d’Oro apresentadas em fundo dourado. O conjunto enfatiza a presença da figura frente a um campo iluminado pelo ouro.
As gravuras de 2019-2020, Darkness Goldness, mostram mãos douradas emergindo do preto, destacando o gesto de agir sobre o mundo com o que resta ao pintor idoso. A mão que pinta, em ouro, volta a tocar a tela.
A partir dessas obras, Baselitz consolidou o impulso de marcar o mundo com sua própria prática. A prática invertida, segundo análises, não é apenas estética, mas um modo de manter a figura em pé diante de condições extremas.
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