Em escritórios de advocacia, a cena se repete: um estagiário diante de duas telas, uma com o ChatGPT e outra com o sistema do tribunal. Copia o despacho, faz um resumo e redige a minuta em cerca de 20 minutos, tarefa que antes demorava mais tempo. Esse é o paradoxo atual.
A ideia de que a IA vai substituir advogados é incompleta. A IA não anula a advocacia, mas dissolve a rotina de entrada que servia de escola para quem quer atuar na área. Tarefas cognitivas, como pesquisa e redação, passam a ser automatizadas, elevando o papel do estagiário a um estágio de aprendizado diferente.
A pergunta que circula desde 2022 não é se a IA substitui o trabalho, mas como ele se transforma. Em termos práticos, a tecnologia substitui o operacional e o repetitivo, abrindo espaço para que o iniciante aprenda a pensar como profissional por meio de decisões orientadas pela ferramenta.
Cenário internacional
Nos Estados Unidos, a empregabilidade de formados em direito em 2024 alcançou mais de 82%, segundo a American Bar Association, mas o salário mediano de ingressantes caiu 3% em 2025. Pesquisas indicam expectativa de mudanças significativas no papel do junior em escritórios.
Marco regulatório no Brasil
No Brasil, o Judiciário tem avançado no uso de IA: em março de 2025, o CNJ publicou resolução que regulamenta a IA nos tribunais, e quase metade das cortes já operava com IA generativa. A adoção visa agilizar rotinas e manter a qualidade técnica.
O estagiário costumava ser quem fazia pesquisa de jurisprudência, entendia a estrutura de acórdãos e sustentava teses com base em precedentes. As tarefas consideradas braçais eram, na prática, etapas didáticas de formação. Sem substituição por completo, essas atividades ganham novo formato com IA.
Casos de falha técnica já ocorreram. Em fevereiro de 2025, advogados de uma grande banca dos EUA foram multados por citações inexistentes geradas pela IA, levando a uma orientação interna sobre o uso responsável da ferramenta. No Brasil, houve decisões por litigância de má-fé em que a responsabilidade do subscritor foi reiterada, com multas aplicadas.
Alternativas para formação passam pela integração de IA com ética e governança algorítmica nos currículos. Nas firmas, pode haver orientação para identificar, desde o início, o que a IA não entrega, definindo momentos de decisão humana na prática jurídica.
A advocacia já mostrou capacidade de se reinventar. O desafio é formar iniciantes com alto nível de discernimento técnico, capaz de questionar resultados da IA quando necessário, mantendo o foco na responsabilidade profissional.
A IA não extingue o advogado; ela redefine o aprendizado e o exercício profissional. O objetivo é preservar a qualidade da decisão jurídica, em vez de reduzir a complexidade do pensar que sustenta a atuação jurídica.
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