A prática de rastreamento de mulheres por meio de tags em itens do cotidiano ganhou espaço no centro de São Paulo. Dispositivos do tamanho de uma moeda, vendidos por menos de 100 reais, são usados para monitorar deslocamentos em tempo real sem que a vítima perceba. Carros, bolsas, mochilas e objetos de crianças já foram encontrados com esses rastreadores escondidos.
Dados da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher mostram aumento de ocorrências no primeiro trimestre: 104 boletins entre janeiro e março, ante 90 no mesmo período de 2025. Policiais afirmam que a tecnologia tem sido recorrente nas denúncias de perseguição.
Uma pedagoga de 46 anos, cuja identidade não será revelada, relatou ter descoberto o monitoramento ao receber um alerta sobre uma tag desconhecida. O aviso exibiu o trajeto do dia pela vítima, levando a uma busca que revelou o rastreador dentro do sapato do filho de 6 anos, que estava sob convivência judicial.
Ela registrou boletim de ocorrência, entregou o calçado e pediu medida protetiva de urgência, que foi negada. O caso, que também envolveu outro objeto rastreador em um ursinho de pelúcia, acabou arquivado após investigação. A vítima afirma que episódios como esse não são isolados.
Para a delegada Cristine Nascimento Guedes Costa, tecnologia passou a ser ferramenta de controle para agressores que vigiam ex-companheiras à distância. Ela cita situações em que rastreadores aparecem em mochilas, veículos ou até pertences usados pelos filhos do casal.
Especialistas destacam que aplicativos clandestinos em celulares também facilitam o acompanhamento de localização, mensagens e rotina. Segundo a promotora Valeria Scarance, casos de monitoramento são mais frequentes e já atingem a violência psicológica, quando há dano emocional comprovado.
O uso de rastreadores baratos, acessíveis e fáceis de ocultar, aponta Scarance como fator que amplia a violência. Em abusos como esse, esconder dispositivos pode configurar o crime de perseguição, com base no artigo 147-A do Código Penal, ou violência psicológica, conforme o contexto.
Advogada Maíra Recchia, da OAB-SP, aponta que a perseguição evoluiu para práticas sofisticadas e silenciosas, com monitoramento constante de deslocamentos, rotina e locais frequentados, sem contato direto. Ela orienta que vítimas façam registro fotográfico dos dispositivos, capturem vídeos do local e preservem mensagens que mostrem o conhecimento indevido da rotina.
A orientação legal é buscar medidas protetivas e registrar as ocorrências em delegacias especializadas. Especialistas ressaltam a importância de provas em casos de perseguição tecnológica para embasar ações judiciais.
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