Policiais manipularam câmeras corporais e deixaram de preservar provas durante a Operação Contenção, que deixou 122 mortos no Rio de Janeiro em 28 de outubro de 2025. A conclusão é de uma investigação da organização internacional Human Rights Watch (HRW), divulgada nesta quarta-feira (28), data em que a ação policial mais letal já documentada no Brasil completa um ano.
O relatório, intitulado Uma Estratégia de Morte: Investigando a Operação Policial Mais Letal do Brasil, também aponta indícios de uso excessivo da força e de possíveis execuções de homens e adolescentes durante a ação no Complexo da Penha.
Segundo a organização, nenhuma das mortes foi registrada nas milhares de horas de gravações das câmeras corporais disponibilizadas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro à Defensoria Pública.
A investigação analisou 4.400 horas de imagens, 9 mil páginas de documentos oficiais, 122 laudos de necropsia, registros judiciais e centenas de vídeos e fotografias. Também foram entrevistadas 41 pessoas, entre testemunhas, familiares e especialistas.
Entre os mortos estavam duas crianças e quatro policiais que morreram no dia da operação, além de um quinto agente que não resistiu aos ferimentos posteriormente. Outros dois homens foram mortos antes do início oficial da ação. Segundo a HRW, 85% das vítimas que não eram policiais eram negras.
Policiais cobriram câmeras e esgotaram baterias
Apesar da obrigatoriedade do uso de câmeras corporais prevista em lei estadual e em determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), apenas 23% dos 2.500 policiais civis e militares envolvidos na operação utilizaram os equipamentos, segundo o governo fluminense.
Ao analisar as gravações de 527 policiais militares, a Human Rights Watch identificou diferentes formas de impedir o registro das ações.
Entre as práticas estavam deixar as câmeras ligadas antes da operação para esgotar as baterias, cobrir as lentes, posicionar os dispositivos de forma inadequada e abandoná-los dentro das viaturas.
“As obstruções ocorreram principalmente durante prisões, confrontos armados e entradas em residências”, informou o relatório.
A maior parte dos casos foi identificada entre policiais de unidades que atuaram na linha de frente, incluindo o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), responsável por atuar na área de mata onde ocorreu a maioria das mortes.
A organização constatou que 36% dos conjuntos de disparos identificados nas gravações ocorreram quando as câmeras estavam obstruídas.
Vídeos mostram ameaças e agressões a detidos
As gravações também registraram policiais agredindo e ameaçando pessoas detidas, segundo A HRW. Em um dos episódios, uma criança foi obrigada a se deitar ao lado de um cadáver enquanto era fotografada. Em outro, um policial orientou colegas a atirar nas pernas de detidos caso tentassem fugir.
Um terceiro registro mostra um agente demonstrando frustração porque o uso das câmeras corporais impedia policiais de matar suspeitos.
A Human Rights Watch também verificou vídeos feitos por moradores durante a operação. Em uma das gravações, policiais aparecem empilhando corpos em um veículo blindado, enquanto fazem comentários e piadas. “Olha que maravilha. A gente gosta disso”, diz um dos agentes.
Laudos apontam tiros na cabeça e nas costas
A análise dos laudos de necropsia revelou características que, segundo especialistas consultados pela organização, levantam suspeitas de mortes intencionais. Mais de 40% das vítimas que não eram policiais foram atingidas na cabeça, mais de 60% receberam quatro ou mais tiros e quase 75% foram baleadas pelo menos uma vez nas costas.
Um dos homens foi baleado e posteriormente decapitado.
Especialistas do Grupo Independente de Peritos Forenses, ligado ao Conselho Internacional de Reabilitação para Vítimas de Tortura, avaliaram que os ferimentos sugerem que parte das vítimas pode ter sido executada.
Em diversos casos, os disparos apresentavam trajetórias de baixo para cima, característica que pode ocorrer quando uma pessoa é atingida enquanto está deitada ou incapacitada.
Investigação aponta falhas na preservação de provas
O relatório também questiona a condução das investigações sobre as mortes. Embora a polícia tenha afirmado que planejou a operação durante meses, a Human Rights Watch não encontrou evidências de preparativos para preservar as cenas dos crimes ou realizar os exames periciais necessários.
A Polícia Civil também deixou de coletar informações básicas sobre 115 das 117 vítimas que não eram policiais, incluindo a identificação de agentes e moradores que transportaram alguns dos mortos para hospitais. Outro dado destacado pela organização é a diferença entre o número de mortos e o de suspeitos feridos que sobreviveram.
Apenas sete suspeitos foram levados a hospitais e posteriormente presos, enquanto 117 pessoas foram mortas pela polícia.
A proporção de aproximadamente 17 mortos para cada ferido levanta dúvidas, segundo a HRW, sobre a possibilidade de os agentes terem priorizado a força letal em vez da prisão.
Operação cumpriu apenas 17 mandados de prisão
A Operação Contenção tinha como objetivo declarado cumprir 100 mandados de prisão contra supostos integrantes do Comando Vermelho.
No entanto, os registros policiais analisados pela organização mostram que apenas 17 pessoas com mandados em aberto foram presas. Não está claro se essas ordens de prisão eram as mesmas que motivaram a operação.
Segundo o relatório, os policiais também não entraram na residência de um líder local da organização criminosa, embora houvesse um mandado contra ele e as câmeras mostrassem agentes circulando nas proximidades.
Seis meses após a operação, pesquisadores da Human Rights Watch retornaram ao Complexo da Penha e constataram que o Comando Vermelho continuava exercendo controle sobre os moradores.
Human Rights Watch cobra investigação independente
A organização defende que autoridades federais e estaduais realizem uma investigação independente sobre o planejamento da operação e a atuação dos policiais e de seus superiores. Também recomenda que o próximo governador do Rio de Janeiro apresente um projeto de lei para separar os serviços de perícia criminal da Polícia Civil.
“Nossa investigação mostra que a polícia desrespeitou a lei e seus próprios protocolos durante a operação desastrosa”, afirmou César Muñoz, diretor da Human Rights Watch no Brasil.
Segundo ele, práticas policiais abusivas prejudicam a segurança pública porque reduzem a disposição dos moradores de colaborar com as autoridades e alimentam um ciclo de violência.
“O Brasil precisa de novas estratégias eficazes de segurança pública que respeitem os direitos humanos”, concluiu.
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