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Por que a inclusão de pessoas com deficiência pode fazer o PIB crescer até 7%

Entenda as diferenças entre acesso e inclusão e como esses conceitos podem impactar as economias das cidades.

Países que incluam podem aumentar PIB em até 7%. Imagem: Free Pik.

Ana* sempre soube o caminho até o trabalho. O problema nunca foi a distância, mas o trajeto: o ônibus que nem sempre parava, a ausência de informação acessível, o atendimento despreparado. Em teoria, a cidade era inclusiva. Na prática, não funcionava. Mauro enfrenta outro tipo de barreira. Quando se confunde sobre a linha do metrô, […]

Ana* sempre soube o caminho até o trabalho. O problema nunca foi a distância, mas o trajeto: o ônibus que nem sempre parava, a ausência de informação acessível, o atendimento despreparado. Em teoria, a cidade era inclusiva. Na prática, não funcionava.

Mauro enfrenta outro tipo de barreira. Quando se confunde sobre a linha do metrô, raramente é compreendido pelos funcionários. A dificuldade se repete todos os dias, não apenas por falhas de estrutura, mas pela falta de preparo.

As histórias ajudam a revelar um problema mais amplo: em 2026, grande parte das cidades brasileiras ainda não consegue incluir plenamente pessoas com deficiência. Há avanços, mas eles convivem com falhas básicas no cotidiano.

Esse descompasso tem efeitos que vão além da experiência individual. O custo da exclusão não aparece diretamente nas contas públicas, mas se traduz em menor produtividade, redução da inovação e menor circulação de renda. Também aumenta a pressão sobre serviços sociais. Um estudo da ONU indica que esse impacto pode chegar a cerca de 7% do Produto Interno Bruto (PIB).

Um contingente invisível

Mais de um bilhão de pessoas vivem com algum tipo de deficiência no mundo, cerca de 16% da população. No Brasil, são aproximadamente 16 milhões de pessoas, cerca de 8% da população. Trata-se de um grupo que atravessa classes sociais, países e culturas.

Como observa Shantha Rau Barriga, ex-diretora da divisão de direitos das pessoas com deficiência da Human Rights Watch, a deficiência não é uma condição isolada.

“É a única ‘categoria’ à qual qualquer pessoa pode pertencer em algum momento da vida.”

O envelhecimento da população reforça essa tendência. À medida que as sociedades envelhecem, cresce também o número de pessoas com limitações físicas, sensoriais ou cognitivas. A inclusão, portanto, deixa de ser uma escolha moral e passa a ser uma necessidade estrutural e econômica.

Ainda assim, pessoas com deficiência seguem, em grande medida, fora do centro das decisões políticas, econômicas e sociais.

O custo real da exclusão

A subutilização dessa população reduz a base produtiva de qualquer país. Na educação, limita o desenvolvimento de capital humano. Nos serviços públicos, gera ineficiências e amplia custos indiretos.

Segundo dados do Banco Mundial, em regiões como a América Latina, cerca de metade das pessoas com deficiência está fora do mercado de trabalho, enquanto uma parcela significativa sequer tem acesso à educação formal. O resultado é um ciclo persistente: menos educação leva a menos renda, que leva a maior vulnerabilidade e, por consequência, menor crescimento econômico.

O relatório das Nações Unidas amplia essa análise ao incluir custos indiretos, como o trabalho de cuidado não remunerado, majoritariamente realizado por mulheres, que limita a participação feminina na economia e aprofunda desigualdades.

Em outras palavras, a exclusão não é apenas um problema social. É um entrave ao desenvolvimento.

Inclusão como vantagem competitiva

A lógica econômica da inclusão é direta. Sociedades que conseguem integrar mais pessoas ao sistema produtivo ampliam sua capacidade de crescimento.

Mas o impacto vai além da quantidade de trabalhadores. A diversidade está diretamente associada à inovação. Ambientes inclusivos tendem a produzir soluções mais criativas, produtos mais acessíveis e serviços mais eficientes.

O próprio relatório da ONU destaca que sociedades inclusivas são mais resilientes a choques econômicos, sociais e ambientais, justamente por conseguirem mobilizar o potencial de toda a população.

Esse ponto é central: incluir plenamente não é apenas um direito civil, mas também gera eficiência.

O erro estrutural das políticas

Se o diagnóstico é claro, a execução ainda está distante do ideal.

Grande parte dos países já avançou no plano legal, com leis e diretrizes que garantem direitos às pessoas com deficiência. No entanto, a implementação continua sendo o principal desafio. A distância entre norma e prática sustenta a exclusão.

Para a professora Lubienska Ribeiro, diretora da Escola da Inclusão, esse descompasso começa com um erro conceitual.

“O maior erro invisível é tratar a acessibilidade de forma fragmentada”, afirma. “Confunde-se acesso com inclusão.”

Acessibilidade não é inclusão

Acessibilidade e inclusão são conceitos diferentes. A acessibilidade diz respeito às condições estruturais e técnicas que permitem o acesso, como rampas, elevadores, sinalização adequada ou recursos de comunicação. Já a inclusão vai além: trata da experiência completa da pessoa dentro daquele ambiente.

“Uma cidade pode ter rampas, mas não ter informação acessível; pode ter equipamentos adaptados, mas não ter profissionais preparados para acolher; pode ter leis avançadas, mas não garantir uma experiência digna no atendimento. E isso revela um equívoco central: confundir acesso com inclusão”, afirma Lubienska.

Ela também destaca que a verdadeira inclusão só acontece quando a pessoa consegue não apenas entrar, mas compreender, interagir, permanecer e participar com autonomia e respeito. Isso exige uma visão sistêmica, integrada e contínua.

Na prática, isso significa que cidades podem cumprir requisitos técnicos sem, de fato, incluir. Falta preparo, informação acessível, comunicação adequada e, principalmente, uma cultura de acolhimento.

“Uma pessoa pode até conseguir entrar em um espaço, mas não consegue compreender, interagir ou permanecer com autonomia. Isso não é inclusão”, explica.

A inclusão como experiência cotidiana, como valor social

Para que a inclusão seja efetiva, ela precisa se materializar no cotidiano, com impacto direto na vida das pessoas com deficiência, no atendimento, na escola, no transporte, na linguagem, no olhar.

Por isso, iniciativas baseadas exclusivamente em normas técnicas tendem a falhar. Elas tratam o problema como algo pontual, quando, na realidade, ele é sistêmico.

“A inclusão não se sustenta apenas no campo técnico. Ela precisa ser incorporada como valor social”, afirma Lubienska.

É nesse contexto que a formação ganha protagonismo.

Conhecimento gera consciência

Incluir pessoas com deficiência começa por ajustes simples, capazes de gerar mudanças concretas no curto, médio e longo prazo.

Segundo Lubienska, o problema não está apenas na ausência de políticas ou infraestrutura, mas na forma como as pessoas interagem no cotidiano.

“A gente tende a associar inclusão a grandes mudanças, quando, na prática, ela passa por ajustes simples, mas que exigem consciência”, afirma.

Esse processo costuma provocar uma mudança direta de comportamento. Ao reconhecer barreiras antes invisíveis, profissionais passam a adaptar linguagem, postura e atendimento.

Formação é fundamental para incluir com eficiência. Imagem: Escola de Inclusão do Governo do Estado de São Paulo.

A transformação, no entanto, não é automática. Ela depende de exposição, aprendizado e repetição.

“Não é algo que se resolve só com regra. É preciso entender, vivenciar e incorporar”, afirma.

Ela destaca que o nível de interesse e mobilização é alto:

“Ao perceberem situações que nunca haviam notado antes, as pessoas sentem um primeiro impacto. Mas isso logo se transforma em algo positivo: vontade de mudar, fazer melhor e ser parte da solução. As pessoas não apenas aprendem, elas se engajam. Querem entender, aplicar e multiplicar esse conhecimento”, afirma.

Esse processo de conscientização é fundamental para consolidar uma cultura de inclusão mais humana e efetiva.

A demanda por esse tipo de formação é alta: até o momento, a escola formou cerca de 1.500 pessoas. É um avanço, mas ainda distante da dimensão do desafio, apenas no Estado de São Paulo, são cerca de 3,5 milhões de pessoas com deficiência.

Há um longo caminho a percorrer. A motivação existeo desafio é transformá-la em prática contínua.

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