Vinte anos depois dos ataques que pararam São Paulo em maio de 2006, o Primeiro Comando da Capital (PCC) voltou aos principais noticiários do Brasil; desta vez por um motivo diferente: a ampliação de seu controle territorial dentro de Paraisópolis, a maior favela da capital paulista. Reportagens recentes da imprensa e relatos de moradores apontam […]
Vinte anos depois dos ataques que pararam São Paulo em maio de 2006, o Primeiro Comando da Capital (PCC) voltou aos principais noticiários do Brasil; desta vez por um motivo diferente: a ampliação de seu controle territorial dentro de Paraisópolis, a maior favela da capital paulista. Reportagens recentes da imprensa e relatos de moradores apontam que a facção passou a adotar métodos historicamente associados ao Comando Vermelho (CV), como bloqueio de ruas, cobrança de taxas e fiscalização informal de atividades comerciais e sociais dentro da comunidade.
Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital são os principais impérios do crime organizado no Rio de Janeiro e em São Paulo
O PCC surgiu nos anos 1990, dentro do sistema prisional paulista. Inicialmente, apresentavam-se como uma organização criada por detentos para enfrentar abusos nas prisões. Ao longo das décadas, porém, deixou de ser apenas uma facção carcerária para se transformar em uma das maiores organizações criminosas da América Latina, com atuação em rotas internacionais de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de armas.
Já o CV nasceu nas prisões do Rio de Janeiro nos anos 1970 e consolidou um modelo de domínio territorial em comunidades, com forte influência sobre a vida local. Especialistas avaliam que parte desse modelo estaria sendo reproduzido em São Paulo.
Agora, segundo relatos colhidos por jornalistas, parte das práticas associadas historicamente ao CV estaria sendo reproduzida em São Paulo.
“Poder paralelo” exercido pelo PCC inclui a instalação de barricadas, cobranças de taxas e monitoramento de ONGS
Moradores de Paraisópolis afirmam que a espécie de “poder paralelo” exercido pelo PCC aumentou nos últimos dois anos. Entre as denúncias estão a instalação de barricadas em vias estratégicas da favela, cobrança de taxas de comerciantes e monitoramento de organizações sociais. Há também relatos de que lideranças comunitárias passaram a ser pressionadas a prestar contas de atividades e até participar de manifestações de interesse da facção.
A Folha de S.Paulo ouviu moradores, comerciantes, promotores e policiais que descreveram um ambiente de controle crescente sobre a rotina da comunidade. Segundo os relatos, estranhos não conseguem circular livremente em determinados pontos sem serem identificados. Um dos locais mencionados fica no cruzamento das ruas Ernest Renan e Melchior Giola, onde uma grade metálica teria sido instalada para restringir a passagem.
Paraisópolis teria se tornado um local de aplicação das “leis paralelas” do PCC
Além de controlar pontos de tráfico, Paraisópolis passou a ser apontada por investigadores como um dos principais espaços de aplicação das chamadas “leis internas” do PCC. Segundo relatos reunidos em uma recente reportagem do Estadão, integrantes acusados de descumprir regras da facção seriam submetidos aos chamados “tribunais do crime” — julgamentos clandestinos promovidos pelo grupo e já identificados pelas autoridades em diferentes estados do país.
A relação entre o PCC e a comunidade, porém, não começou agora. De acordo com reportagens sobre o tema, a facção consolidou sua presença em Paraisópolis ainda no início dos anos 2000, após disputas violentas pelo controle da região. Desde então, o tráfico local teria passado a funcionar de maneira cada vez mais organizada, acompanhando o crescimento da influência do grupo criminoso dentro da favela.
Para especialistas em segurança pública, o ponto mais preocupante não é apenas a presença do tráfico, mas o avanço de uma espécie de “poder paralelo”. O procurador Marcio Sergio Christino, um dos pioneiros nas investigações sobre o PCC em São Paulo, avalia que o cenário representa uma transformação profunda no funcionamento da facção. Segundo ele, quando uma organização criminosa começa a interferir diretamente na circulação, no comércio e até na dinâmica social de uma comunidade, ela deixa de operar apenas como grupo de tráfico e passa a exercer funções típicas de controle territorial.
A repercussão das denúncias provocou reação imediata das forças de segurança. No dia seguinte à publicação das reportagens sobre Paraisópolis, a Polícia Militar realizou uma operação na comunidade para retirar barricadas e reforçar o patrulhamento. A ação mobilizou dezenas de policiais, viaturas e drones. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, as estruturas removidas bloqueavam irregularmente ruas da região.
O governo paulista, entretanto, rebate a interpretação de que exista um domínio territorial consolidado do PCC em Paraisópolis. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que não há evidências de restrição à atuação policial e sustentou que as operações na comunidade seguem ocorrendo normalmente, com ações de inteligência e monitoramento permanente.
A União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis também negou qualquer vínculo com a facção. Representantes da entidade afirmam que o trabalho desenvolvido na comunidade é voltado a projetos sociais e assistência aos moradores, classificando as acusações divulgadas recentemente como falsas.
Atuação das facções vai além do tráfico de drogas
O caso reacendeu um debate antigo no Brasil: o crescimento das facções para além do tráfico de drogas. Nas últimas décadas, grupos como PCC e Comando Vermelho expandiram suas operações e passaram a atuar em esquemas internacionais ligados ao narcotráfico, contrabando e lavagem de dinheiro.
Hoje, investigações da Polícia Federal e do Ministério Público apontam conexões das facções com rotas internacionais de cocaína, especialmente em países da América do Sul, além de operações em portos, fronteiras e mercados ilegais no exterior.
Por isso, especialistas avaliam que o debate sobre Paraisópolis ultrapassa a questão local. As operações ressaltaram o nível de organização de facções criminosas, incluindo estrutura e poder financeiro, a ponto de, em algumas regiões, disputar espaço e influência com o próprio Estado.
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