Elas chegam quando quase tudo já foi rompido. Depois da violência doméstica. Depois do abandono. Depois da prisão dos pais, da dependência química, do abuso, da negligência ou do feminicídio. Quando uma criança ou adolescente precisa ser afastado judicialmente da própria família, são elas que passam a ocupar o cotidiano mais íntimo da infância: acordam […]
Elas chegam quando quase tudo já foi rompido. Depois da violência doméstica. Depois do abandono. Depois da prisão dos pais, da dependência química, do abuso, da negligência ou do feminicídio.
Quando uma criança ou adolescente precisa ser afastado judicialmente da própria família, são elas que passam a ocupar o cotidiano mais íntimo da infância: acordam cedo para preparar o café, organizam uniforme escolar, acompanham consultas médicas, ajudam nas tarefas da escola e tentam devolver estabilidade a vidas atravessadas pelo trauma.
São chamadas de mães sociais.
A profissão existe oficialmente no Brasil desde 1987, regulamentada pela Lei nº 7.644, criada para estruturar o funcionamento das chamadas casas-lares – residências destinadas ao acolhimento de crianças e adolescentes afastados do convívio familiar por decisão judicial. Pela legislação, cabe às mães sociais “propiciar condições próprias de uma família”, administrar a casa e dedicar-se integralmente aos menores acolhidos.
Na prática, porém, o trabalho ocupa uma função difícil de definir. É emprego formal, com carteira assinada, treinamento e escala de trabalho. Mas também envolve vínculos afetivos profundos, construídos justamente em momentos de extrema fragilidade emocional.

Casas comuns para infâncias interrompidas
Nas unidades da Aldeias Infantis SOS – uma das organizações mais conhecidas no país nesse modelo de acolhimento – as casas funcionam como qualquer residência familiar. Há quartos compartilhados, brinquedos espalhados pela sala, roupa secando no varal, louça na pia e discussão entre irmãos.
A diferença é que, ali, quase todas as crianças chegaram depois de alguma ruptura familiar violenta.
Segundo dados da própria organização, o Brasil terminou 2025 com 49 casas-lares da instituição e 408 crianças e adolescentes acolhidos. Ao todo, 142 mulheres atuavam diretamente no cuidado: 46 mães sociais e 96 mães substitutas – profissionais responsáveis por assumir a rotina durante as folgas das titulares.
Em cidades como Poá, Campinas, Limeira e Lorena, em São Paulo, essas mulheres trabalham em jornadas longas dentro das próprias residências de acolhimento. Em alguns modelos, passam quatro dias seguidos na casa, antes do período de descanso, quando mães substitutas assumem os cuidados.
As candidatas passam por seleção e formação teórica e prática antes de assumir uma casa-lar. Entre os critérios tradicionalmente exigidos por instituições desse tipo estão disponibilidade para morar nas unidades e dedicação exclusiva à função.
“Não adianta ir só pelo salário”
Decivalda Teodora Santos, conhecida como Valda, trabalha há mais de 20 anos como mãe social em Poá, na Grande São Paulo. Nunca teve filhos biológicos, mas passou décadas vivendo uma rotina tipicamente materna: acordar antes das seis da manhã, preparar lanche, acompanhar boletins escolares, separar brigas e ensinar tarefas básicas da vida doméstica.
“Ser mãe social é um trabalho como qualquer outro, mas precisa do dobro de dedicação”, disse ao g1. “Não adianta ser só pelo salário. Você precisa querer fazer diferença na vida daquela pessoa que perdeu a família.”
Foi dentro dessa rotina que ela percebeu que uma menina que, na quinta série não sabia ler – apenas copiava mecanicamente o conteúdo da lousa. Vieram então tardes inteiras de reforço escolar na mesa da cozinha, entre uma tarefa doméstica e outra. Anos depois, a menina se tornou professora.
Hoje, muitos dos ex-acolhidos continuam frequentando sua casa. Alguns aparecem no Natal. Outros voltam no Dia das Mães. Há os que pedem conselho já adultos, depois de casados e com filhos.
“Tem gente que vai embora, constrói a própria vida, mas continua voltando”, contou ao jornal Folha de São Paulo.
Maternidade, profissão e vínculo
A história de Maria Divina Gonzaga da Costa também foi construída dentro das casas-lares. Natural de Mato Grosso, ela chegou às Aldeias Infantis SOS em 1994. Começou substituindo outras mães sociais durante férias e folgas até assumir, anos depois, uma casa fixa.
Desde então, calcula que mais de cem crianças e adolescentes tenham passado por seus cuidados ao longo de mais de três décadas de acolhimento. Entre eles estava Rafaela, que conheceu ainda bebê.
A menina chegou à instituição com apenas seis meses de vida e permaneceu sob os cuidados de Divina até os oito anos, quando passou a morar com uma irmã mais velha por parte de pai. Mesmo após a saída da casa-lar, as duas continuaram mantendo contato.
Anos mais tarde, Rafaela voltou a enfrentar situações de violência e maus-tratos e acabou novamente acolhida institucionalmente, já adolescente. Foi nesse período que procurou Divina outra vez.
“Quando chegou, ela passou o meu contato. E comecei a visitá-la, ajudá-la no que precisava”, contou.
As visitas de fim de semana se tornaram frequentes. Depois vieram o acompanhamento mais próximo e, posteriormente, a guarda definitiva da jovem.
Hoje, aos 24 anos, Rafaela mora com Divina, trabalha e cursa faculdade de serviço social. “Ela me escolheu. Acho que isso já existia desde quando ela era bebê”.
Histórias assim ajudam a explicar por que a profissão desperta debates entre pesquisadores da infância e do acolhimento institucional.
Estudos acadêmicos apontam que o próprio termo “mãe social” carrega uma tensão: mistura a ideia de maternidade com uma função profissional regulamentada. Muitas dessas mulheres vivem nas casas onde trabalham, constroem vínculos profundos com as crianças e, ao mesmo tempo, precisam lidar com a possibilidade de separação quando ocorre reintegração familiar, adoção ou mudança de acolhimento.
Pesquisadores também observam que o modelo exige delas um equilíbrio delicado: criar laços afetivos suficientemente fortes para oferecer segurança emocional sem perder de vista que o acolhimento institucional deve ser temporário.
O cuidado que permanece
Embora a legislação trate o acolhimento como medida provisória, muitas relações ultrapassam os limites institucionais.
Ex-acolhidos costumam voltar para visitar antigas mães sociais em aniversários, feriados e datas comemorativas. Alguns levam os próprios filhos para conhecer quem ajudou a criá-los. Outros seguem procurando essas mulheres nos momentos difíceis da vida adulta.
Talvez porque o trabalho dessas profissionais vá além da manutenção de uma casa. Elas ajudam crianças e adolescentes a reconstruir experiências básicas de convivência, rotina e pertencimento depois da violência.
Entram em cena justamente quando o mundo deixou de parecer seguro.
E, muitas vezes, tornam-se a lembrança mais próxima de família que alguém conseguiu guardar.
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