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Entre o racismo e o conteúdo

O vídeo de Virginia Fonseca beijando um chimpanzé em Dubai talvez diga menos sobre escândalo e mais sobre o tipo de anestesia moral produzida por uma era em que tudo vira conteúdo.

Imagem: CNN.

Virginia Fonseca tem mais de 56 milhões de seguidores no Instagram. Não sou um deles. Ainda assim, quando um quarto da população brasileira acompanha diariamente os movimentos de alguém, o que essa pessoa faz deixa de ser apenas assunto privado ou fofoca digital. Vira sintoma cultural e linguagem coletiva. Vira influência concreta sobre o imaginário […]

Virginia Fonseca tem mais de 56 milhões de seguidores no Instagram. Não sou um deles. Ainda assim, quando um quarto da população brasileira acompanha diariamente os movimentos de alguém, o que essa pessoa faz deixa de ser apenas assunto privado ou fofoca digital. Vira sintoma cultural e linguagem coletiva. Vira influência concreta sobre o imaginário de milhões de pessoas.

Não sei exatamente o que a tornou tão famosa. Sei fragmentos, como quase todo mundo sabe fragmentos hoje. Para falar a verdade, tudo o que sei é que ela namorou o Vini Jr, pois na minha bolha não entram celebridades que não justifiquem a fama – não quero ser injusto, mas ela parece ser um desses casos. Só que não é por isso que escrevo sobre ela,  por transformar a própria vida em transmissão contínua, mas pelo que fez em uma dessas transmissões.

Há poucos dias, circularam notícias sobre o fim do relacionamento entre ela e Vini Jr. E então chegou o vídeo.

Virginia aparece em Dubai beijando um chimpanzé na boca. A reação inicial talvez seja inevitavelmente emocional porque certos símbolos não chegam neutros à história. Com as poucas peças disponíveis, pensei imediatamente numa hipótese dupla e desconfortável: ou ela é uma das pessoas mais ingênuas do mundo ou é alguém capaz de ignorar deliberadamente o peso simbólico do que faz diante de dezenas de milhões de pessoas.

Para não cair na facilidade da indignação automática, essa fábrica de julgamentos instantâneos das redes, fui olhar seu perfil.

Nas últimas 24 horas, Virgínia havia publicado 51 stories. A contabilidade parece ridícula, mas talvez seja justamente ela que explique o mundo em que vivemos. Havia vídeos de academia (3), closes provocativos (28), mensagens religiosas (2), filhos à distância (2), jóias recém-compradas (3), e, no meio da corrente incessante de imagens, uma visita ao zoológico local (7).

O vídeo do chimpanzé aparece quase dissolvido nessa avalanche estética. Mais um frame no feed infinito. Mais um momento “fofo”, “exótico”, “instagramável”.

Mas não é só isso.

Se Virgínia é apenas profundamente ingênua, então talvez não tenha acompanhado o que aconteceu repetidas vezes com Vinícius Júnior na Espanha nos últimos anos. Talvez não tenha visto estádios inteiros chamando o jogador de “mono” (macaco), palavra usada como insulto racista contra negros. Talvez não tenha assistido às imagens de torcedores imitando macacos nas arquibancadas, pendurando bonecos negros em pontes de Madri ou transformando partidas de futebol em espetáculos públicos de humilhação racial.

Em maio de 2023, em Valência, o episódio ultrapassou definitivamente a esfera esportiva. Vini Jr parou o jogo, apontou torcedores nas arquibancadas e confrontou o estádio inteiro enquanto era alvo de insultos racistas transmitidos ao vivo para o planeta. A cena correu o mundo. Não como um problema “do futebol espanhol”, mas como um retrato brutal da persistência do racismo contemporâneo.

Desde então, Vini deixou de ser apenas um craque extraordinário. Virou também um símbolo global de enfrentamento ao racismo no esporte. Passou a falar publicamente sobre dignidade, humilhação racial e violência simbólica com uma firmeza rara para atletas da dimensão comercial dele. Houve campanhas institucionais, manifestações da FIFA, notas oficiais de governos e apoio público de jogadores como o francês Mbappé.

Recentemente, outro episódio em Portugal voltou a expor esse ambiente tóxico. Durante uma partida, um defensor adversário teria colocado a camisa sobre a boca para impedir leitura labial antes de chamar Vini de macaco – gesto que provocou reação imediata do brasileiro e indignação de Mbappé, que estava próximo da cena.

Tudo isso faz o vídeo do chimpanzé deixar de ser apenas “um vídeo bobo”.

Porque símbolos importam. Contextos importam. E principalmente: escala importa.

Talvez seja essa a grande questão moral da era dos influenciadores. Não se trata mais apenas do que alguém pensa intimamente. Trata-se do que naturaliza publicamente diante de dezenas de milhões de pessoas. Há uma diferença enorme entre ignorância privada e amplificação massiva.

A lógica das redes sociais criou um ambiente estranho em que tudo precisa ser convertido em estímulo rápido: o corpo, a fé, os filhos, o sofrimento, os animais, o luxo, os afetos, as viagens, o escândalo. O algoritmo não distingue gravidade histórica. Ele só mede engajamento.

E talvez o mais perturbador seja justamente isso: a hipótese de que alguém consiga conviver tão de perto com um dos maiores símbolos contemporâneos da luta antirracista no esporte mundial e ainda assim não perceber o peso imagético de beijar um chimpanzé diante de 56 milhões de seguidores, dois dias depois de terminar um relacionamento com ele.

Ou perceber, e achar irrelevante.

Em um mundo onde isso acontece, não basta não ser racista; é preciso ser anti-racista.

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