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“Mounjaro da nova geração” pode fazer pessoas “perderem a capacidade de se apaixonar”? Cientistas investigam possível efeito emocional de nova droga

Usuários da retatrutida relatam apatia emocional, perda de libido e sensação de “indiferença total”; droga consegue reduzir até 28% do peso em tempo recorde.

Imagem: Magnific

Um vídeo recente no TikTok mostra um homem de boné preto falando sobre os “efeitos estranhos da Reta” e como a substância estaria “destruindo relacionamentos”. A “Reta” a que ele se refere é a retatrutida, um medicamento experimental para perda de peso que atua sobre três hormônios ligados ao apetite. A droga ainda não foi […]

Um vídeo recente no TikTok mostra um homem de boné preto falando sobre os “efeitos estranhos da Reta” e como a substância estaria “destruindo relacionamentos”.

A “Reta” a que ele se refere é a retatrutida, um medicamento experimental para perda de peso que atua sobre três hormônios ligados ao apetite. A droga ainda não foi aprovada oficialmente, mas já desperta tanto interesse que algumas pessoas passaram a comprá-la ilegalmente pela internet antes mesmo do fim dos testes clínicos.

No vídeo, o usuário menciona uma “teoria estranha” que começou a circular nas redes: a de que o medicamento poderia “fazer pessoas deixarem de amar”.

Usuários revelam ter perdido prazer emocional no cotidiano

Nos comentários, surgem relatos ainda mais curiosos. Alguns usuários afirmam ter perdido não apenas o desejo por comida, mas também parte do prazer emocional do cotidiano.

“Parou a compulsão alimentar e também o desejo sexual”, escreveu um deles. Outro relatou sofrer de “anedonia severa”,  condição marcada pela incapacidade de sentir prazer. Um terceiro afirmou que a retatrutida o deixou “indiferente a 99% das coisas”.

A discussão pode soar exagerada ou conspiratória à primeira vista. Mas pesquisadores começaram a investigar se medicamentos dessa categoria poderiam atuar como uma espécie de “redutor geral de recompensas” do cérebro.

Medicamentos atuam na região cerebral ligada ao prazer e motivação

Isso porque essas drogas agem justamente sobre o sistema mesolímbico, região cerebral ligada à sensação de recompensa, prazer e motivação. Na prática, elas não diminuiriam apenas a chamada “food noise” – o impulso constante relacionado à comida -, mas poderiam também reduzir parte da excitação emocional associada a outros estímulos da vida cotidiana.

Embora a retatrutida seja a substância mais recente e potente dessa geração, relatos semelhantes já começaram a aparecer entre usuários de medicamentos aprovados, como Mounjaro.

Remédio ainda está em fase de testes

Um relatório clínico recente sugere que drogas desse tipo podem influenciar áreas cerebrais ligadas à regulação emocional e potencialmente desencadear – ou agravar – sintomas depressivos severos.

O neurocientista Paul Kenny, da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova York, afirma que o mundo vive atualmente uma espécie de “grande experimento” comportamental.

Segundo ele, milhões de pessoas passaram a utilizar medicamentos GLP-1 ao mesmo tempo, enquanto cientistas ainda tentam entender plenamente não apenas seus efeitos físicos, mas também seus impactos sobre comportamento, emoções e cognição.

“Ainda sabemos muito pouco sobre o que o GLP-1 faz no cérebro”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Kenny destaca que pesquisas recentes também apontam possíveis efeitos positivos dessas drogas. Estudos clínicos em pacientes nos estágios iniciais de demência levantaram a hipótese de que medicamentos que aumentam a sinalização de GLP-1 poderiam ter efeitos neuroprotetores.

Questionado sobre a possibilidade de essas substâncias alterarem amor, emoções ou vínculos sociais, o pesquisador foi mais cauteloso. Ainda assim, afirmou que não se surpreenderia se medicamentos tão ligados aos sistemas energéticos do corpo também influenciassem emoções e relações humanas.

“Muitos comportamentos animais são influenciados pela disponibilidade de energia e sobrevivência”, explicou. “Como o GLP-1 está intimamente ligado ao estado energético do organismo, é plausível que alterações nesses sinais também modifiquem comportamento.”

Ele cita, por exemplo, estudos com animais que mostraram aumento de territorialidade em períodos de escassez de alimento – indício de que o equilíbrio energético pode alterar profundamente a forma como seres vivos interagem socialmente.

Outro ponto que vem chamando atenção de médicos é o impacto desses medicamentos sobre libido e sexualidade.

O clínico geral Naveed Asif explica que os efeitos podem ocorrer tanto no corpo quanto na química cerebral.

“Do ponto de vista físico, medicamentos GLP-1 afetam a musculatura lisa e podem alterar fluxo sanguíneo para a região genital, influenciando excitação e orgasmo”, afirmou.

Segundo ele, também existe um possível componente dopaminérgico envolvido. A dopamina é um neurotransmissor diretamente relacionado a prazer, motivação e desejo.

“O uso desses peptídeos pode reduzir a liberação de dopamina em resposta a determinados estímulos. Isso pode afetar desejo, atração sexual e prazer”, explicou.

Asif acrescenta que alterações hormonais também podem contribuir para instabilidade emocional, especialmente em mulheres.

“O estrogênio é um hormônio sexual fundamental. O uso de GLP-1 pode alterar esse equilíbrio e gerar distúrbios emocionais. Tenho observado muitas pacientes interrompendo o tratamento por efeitos colaterais relacionados à saúde mental, incluindo aumento de ansiedade e depressão.”

Apesar dos relatos, outros especialistas pedem cautela antes de transformar a hipótese em consenso científico.

A médica Sophie Dix, da farmácia online MedExpress, afirma que existe um salto enorme entre “reduzir compulsão alimentar” e “ser incapaz de se apaixonar”.

“O vínculo romântico é um processo neurobiológico muito mais complexo do que uma única via de recompensa cerebral”, disse.

Segundo ela, os relatos clínicos são extremamente variados. Enquanto alguns pacientes descrevem redução da libido, outros relatam melhora da autoestima, da autoconfiança e até da vida sexual após perda de peso e melhora metabólica.

Dix reconhece que medicamentos GLP-1 podem reduzir comportamentos compulsivos justamente porque atuam em áreas cerebrais ligadas à recompensa. Isso poderia, em tese, aumentar risco de anedonia, perda da capacidade de sentir prazer.

No entanto, ela afirma que esse efeito não parece ser a regra.

“A hipótese mais provável é que essas drogas estabilizem o sistema de recompensa, em vez de simplesmente desligá-lo”, afirmou.

Ainda assim, ela ressalta que as pesquisas estão apenas começando e que o tema merece investigação clínica séria.

“Pacientes devem se sentir confortáveis para conversar com médicos sobre qualquer mudança emocional ou sexual percebida durante o tratamento”, concluiu.

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