Artigo de opinião publicado em The Conversation. Em uma madrugada de terça-feira, a mãe de Lucas percebeu que o apartamento estava silencioso demais. O videogame havia desaparecido da sala. O relógio que ele costumava deixar sobre a bancada do banheiro também não estava mais lá. Dias depois, vieram os tênis, o notebook e os fones […]
Artigo de opinião publicado em The Conversation.
Em uma madrugada de terça-feira, a mãe de Lucas percebeu que o apartamento estava silencioso demais. O videogame havia desaparecido da sala. O relógio que ele costumava deixar sobre a bancada do banheiro também não estava mais lá.
Dias depois, vieram os tênis, o notebook e os fones de ouvido. Aos 19 anos, o rapaz, criado entre escolas particulares da zona sul carioca e viagens de férias ao exterior, já havia consumido toda a poupança que a avó guardara para seu futuro.
O dinheiro evaporou em apostas feitas pelo celular entre madrugadas insones, jogos de futebol europeu e promessas de “recuperar tudo” na rodada seguinte.
Inteligente, carismático e rápido nas conversas, Lucas nunca havia parecido um jovem em risco. Mas havia anos tropeçava em tarefas que exigiam constância: abandonou cursos universitários, desistia de projetos diante das primeiras dificuldades e reagia mal à frustração.
Nas plataformas de apostas esportivas, encontrou algo diferente: recompensas imediatas, adrenalina constante e a ilusão de controle.
Quando os pais perceberam que os empréstimos, as mentiras e os objetos desaparecidos não eram episódios isolados, as dívidas já se acumulavam em aplicativos acessados dezenas de vezes por dia.
A história de Lucas está longe de ser exceção.
As plataformas de apostas online se espalharam rapidamente pelo Brasil e passaram a atingir diferentes classes sociais e regiões do país, inclusive comunidades indígenas e ribeirinhas.
O fenômeno ganhou escala inédita com a popularização dos smartphones e dos pagamentos instantâneos. E, sobretudo, com o financiamento da publicidade digital. Hoje, basta um toque no celular para acessar plataformas disponíveis 24 horas por dia e desenhadas para manter o usuário permanentemente conectado ao jogo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o transtorno do jogo na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Desde 2013, o DSM-5, principal manual da psiquiatria norte-americana, também classifica o problema como uma dependência comportamental.
Mesmo assim, o setor cresceu rapidamente no país.
Quando as apostas esportivas explodiram no país?
A explosão das apostas esportivas online começou após a aprovação da Lei 13.756, sancionada em 2018 durante o governo de Michel Temer. A legislação legalizou as chamadas apostas de quota fixa, modalidade em que o jogador sabe previamente quanto poderá receber em caso de vitória. Na prática, o país autorizou a atividade antes de criar mecanismos robustos de fiscalização.
Durante anos, plataformas estrangeiras operaram em um ambiente de regras ainda pouco claras, impulsionadas por publicidade agressiva, patrocínios milionários no futebol e forte presença digital. Clubes, influenciadores e celebridades ajudaram a normalizar as apostas como entretenimento cotidiano, enquanto o mercado crescia em velocidade muito superior à capacidade de controle do Estado.

O cassino agora cabe no bolso
Os antigos bingos e caça-níqueis exigiam deslocamento físico. Era necessário sair de casa, entrar em um estabelecimento e permanecer naquele ambiente para jogar.
As apostas online mudaram completamente essa lógica.
Agora, o cassino cabe no bolso. O acesso é imediato, silencioso e permanente. Pode acontecer na sala de espera de um consultório, durante a madrugada ou depois de um dia frustrante de trabalho.
Essa disponibilidade contínua aumenta significativamente o risco de comportamento compulsivo.
Estudos internacionais mostram que o ambiente digital favorece impulsividade, repetição e maior frequência de apostas. Recursos como apostas ao vivo, notificações constantes, bônus instantâneos e depósitos rápidos tornam a experiência ainda mais estimulante.
Além disso, as plataformas de apostas esportivas atraem especialmente homens jovens, grupo considerado mais vulnerável ao desenvolvimento do transtorno do jogo.
No Brasil, estimativas apontam cerca de 11 milhões de jovens e adultos que jogam de maneira capaz de gerar prejuízos emocionais, familiares, financeiros ou profissionais.
Pesquisas também mostram associação frequente entre comportamento de aposta compulsiva, ansiedade, impulsividade elevada, sofrimento psíquico e uso de substâncias.
O que acontece no cérebro?
Como psiquiatra, acompanho de perto o impacto que o vício em apostas produz não apenas sobre os pacientes, mas também sobre suas famílias.
As consequências costumam atravessar diferentes dimensões da vida: endividamento, isolamento social, conflitos familiares, perda de desempenho profissional e acadêmico, além do aumento de sintomas de ansiedade e depressão.
Do ponto de vista neurobiológico, o mecanismo do vício em jogos de aposta compartilha características semelhantes às observadas em outras dependências.
O sistema cerebral de recompensa participa diretamente desse processo por meio da liberação de neurotransmissores ligados à expectativa de prazer e recompensa, especialmente a dopamina.
A rapidez entre aposta, expectativa e resultado reforça o comportamento repetitivo. Mesmo diante de perdas sucessivas, o cérebro continua antecipando a possibilidade de ganho futuro.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que muitos apostadores permanecem jogando mesmo após prejuízos financeiros graves.
Jogadores registram alterações de vieses cognitivos
Outro fator importante são os chamados vieses cognitivos, distorções na maneira como interpretamos riscos e probabilidades.
Muitos jogadores passam a acreditar que possuem habilidade especial para prever resultados ou recuperar perdas, desenvolvendo uma sensação ilusória de controle sobre algo que depende majoritariamente do acaso.
As plataformas digitais potencializam esse efeito ao oferecer estatísticas em tempo real, gráficos e experiências altamente personalizadas.
Publicidade, vulnerabilidade e saúde pública
O crescimento das apostas online também ocorreu em meio a um ambiente de publicidade massiva. Celebridades, influenciadores digitais e clubes esportivos ajudaram a transformar as apostas em entretenimento cotidiano, frequentemente desvinculado de seus riscos psicológicos.
O problema é que indivíduos emocionalmente mais vulneráveis tendem a utilizar o jogo como forma de escape para sofrimento psíquico, criando um ciclo destrutivo. Apostam para aliviar emoções difíceis, mas acabam produzindo ainda mais sofrimento.
Em muitos casos, a aposta deixa de ser lazer e se transforma em tentativa desesperada de anestesiar angústias.
Diferentemente dos antigos cassinos, o jogo online funciona de maneira portátil, invisível e permanente. Pais, parceiros e amigos frequentemente demoram a perceber os sinais.
Quando o comportamento finalmente se torna evidente, as perdas financeiras e emocionais já podem ter alcançado níveis devastadores.
O avanço das apostas digitais virou desafio de saúde pública
Por isso, especialistas defendem que o avanço das apostas digitais não pode ser tratado apenas como questão econômica ou de entretenimento. O fenômeno já se tornou um importante desafio de saúde pública.
Reconhecer precocemente os sinais do transtorno do jogo, ampliar políticas de prevenção, fortalecer regras para publicidade e investir em tratamento especializado são medidas consideradas fundamentais para reduzir os danos associados às apostas digitais.
Para quem precisa de ajuda, especialistas recomendam buscar tratamento o mais cedo possível. A terapia cognitivo-comportamental é considerada uma das abordagens mais eficazes, justamente por ajudar o paciente a identificar os gatilhos emocionais ligados ao impulso de apostar e interromper padrões compulsivos de comportamento. Em muitos casos, também é necessário restringir o acesso aos aplicativos, solicitar autoexclusão nas plataformas e permitir que familiares auxiliem temporariamente no controle financeiro.
Grupos como Jogadores Anônimos podem funcionar como importante rede de apoio. No tratamento medicamentoso, poucas substâncias demonstraram eficácia consistente até agora, mas a Naltrexona aparece entre as alternativas utilizadas em alguns casos específicos.
Sem prevenção, regulação e tratamento adequados, histórias como a de Lucas tendem a se tornar cada vez mais comuns no país.
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