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Harvard discute o que durante décadas a ciência tentou evitar: a fé pode influenciar a saúde mental?

Fórum internacional reuniu psiquiatras, psicólogos e pesquisadores para discutir como espiritualidade, propósito e crenças interferem no sofrimento humano - e por que ignorar isso pode comprometer o próprio tratamento clínico.

Imagem: Magnific.

A fé associada ao estigma  em parte do ambiente acadêmico significava correr o risco de ser tratado como alguém menos racional, menos científico ou intelectualmente atrasado. Em muitos cursos de psicologia e psiquiatria, fé e ciência foram apresentadas como forças incompatíveis – quase inimigas naturais. Mas algo começou a mudar. Nos dias 14 e 15 […]

A fé associada ao estigma  em parte do ambiente acadêmico significava correr o risco de ser tratado como alguém menos racional, menos científico ou intelectualmente atrasado. Em muitos cursos de psicologia e psiquiatria, fé e ciência foram apresentadas como forças incompatíveis – quase inimigas naturais.

Mas algo começou a mudar.

Nos dias 14 e 15 de maio, a Harvard Medical School recebeu o 6º Fórum Global sobre Espiritualidade, Religião e Saúde Mental, encontro organizado pela World Psychiatric Association e pela American Psychological Association. O objetivo era discutir um tema que, há alguns anos, dificilmente teria espaço central em um evento científico desse porte: qual é o impacto da espiritualidade na saúde mental?

A discussão pode parecer surpreendente para quem cresceu ouvindo que religião e ciência ocupam lados opostos. Mas o encontro mostrou justamente o contrário: um número crescente de pesquisadores passou a defender que ignorar completamente a dimensão espiritual do paciente talvez seja um erro clínico.

A frase mais forte do evento veio do psiquiatra brasileiro Alexander Moreira-Almeida, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora e vencedor do Oskar Pfister Award de 2025, principal prêmio internacional na interface entre psiquiatria, espiritualidade e religião.

“Se antigamente era considerado antiético e anticientífico abordar religião e espiritualidade no tratamento da saúde mental, hoje é antiético e anticientífico ignorá-las”, afirmou.

A declaração resume uma mudança silenciosa que vem acontecendo dentro da própria ciência.

Isso porque o debate já não gira mais em torno de saber se a espiritualidade interfere ou não na saúde mental. Para muitos pesquisadores, essa influência já é considerada evidente. A discussão agora é outra: como lidar com isso de maneira ética, técnica e baseada em evidências.

Na prática, a questão é menos abstrata do que parece.

Para milhões de pessoas, fé não é apenas uma opinião sobre Deus. É parte da maneira como elas enfrentam sofrimento, luto, culpa, medo, ansiedade, sensação de vazio e crises existenciais. Em momentos extremos, espiritualidade também costuma se relacionar com esperança, propósito e sensação de pertencimento.

Ignorar completamente essa dimensão pode significar deixar de compreender parte importante da experiência emocional do paciente.

Isso não significa transformar consultórios em espaços religiosos nem substituir tratamento médico por oração. O próprio fórum deixou claro que a proposta não é misturar ciência com proselitismo religioso.

Pelo contrário.

Os especialistas defendem justamente que profissionais da saúde mental aprendam a lidar com espiritualidade sem impor crenças pessoais, sem catequizar pacientes e sem transformar religião em protocolo terapêutico.

O problema é que a maior parte dos profissionais nunca recebeu treinamento para isso.

Durante décadas, universidades preferiram afastar a espiritualidade do debate científico por receio de confundir prática clínica com religião. O resultado foi uma geração inteira de profissionais treinados para abordar praticamente todas as dimensões da vida humana,  menos a espiritual.

E isso começou a produzir atritos.

Não são raros os relatos de pacientes que abandonaram acompanhamento psicológico ou psiquiátrico após sentirem que sua fé foi ridicularizada, tratada como ignorância ou vista automaticamente como sinal de alienação.

Ao mesmo tempo, pesquisadores também alertam para o risco oposto: profissionais que utilizam a própria religião para tentar influenciar pacientes vulneráveis.

É justamente nesse equilíbrio delicado que a discussão atual tenta avançar.

Fé aparece associada a indicadores positivos em áreas como prevenção ao suicídio, recuperação de dendência químina e resiliência emocional

Segundo estudos apresentados no evento, religiosidade e espiritualidade aparecem associadas a indicadores positivos em áreas como prevenção do suicídio, recuperação de dependência química, resiliência emocional e enfrentamento da depressão, especialmente entre pessoas que já possuem práticas religiosas consolidadas.

Um dos dados citados durante o fórum veio de uma pesquisa publicada no Joint Commission Journal on Quality and Safety. O estudo analisou cerca de 1,7 milhão de pacientes internados nos Estados Unidos e concluiu que necessidades emocionais e espirituais apareciam entre as maiores prioridades relatadas pelos próprios pacientes.

Isso ajuda a explicar por que parte da psiquiatria começa a olhar para o tema de maneira menos ideológica e mais clínica.

Historicamente, ciência e religião passaram séculos disputando autoridade sobre a compreensão da vida humana. Houve momentos em que instituições religiosas tentaram controlar a ciência. Depois veio o movimento contrário: a ideia de que espiritualidade deveria ser completamente excluída de qualquer ambiente considerado racional.

O que eventos como o realizado em Harvard sugerem é que talvez essa divisão absoluta esteja começando a perder força.

Não porque ciência e religião tenham se tornado iguais. Nem porque pesquisadores tenham abandonado critérios científicos. Mas porque saúde mental envolve dimensões humanas que nem sempre cabem apenas em exames, diagnósticos e neurotransmissores.

Sofrimento psicológico também passa por perguntas sobre sentido, culpa, esperança, propósito, identidade e medo da morte.

E, para uma parcela enorme da população mundial, essas perguntas inevitavelmente atravessam a espiritualidade.

A ciência ainda tenta entender exatamente como essa relação funciona. Mas o fato de universidades como Harvard University abrirem espaço para esse debate mostra que a conversa já deixou de ser marginal.

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