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Trump, Flávio, o PCC e o CV: classificação das facções brasileiras como terroristas esteve no centro do encontro

Pedido feito por Flávio Bolsonaro a Donald Trump para classificar PCC e CV como organizações terroristas expõe disputa sobre soberania, influência americana e o futuro da política de segurança pública no Brasil.

Imagem: Jovem Pan.

O encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca hoje (27) colocou no centro do debate uma proposta defendida há anos pelo bolsonarismo: classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. Durante a reunião em Washington hoje (27), Flávio afirmou ter pedido “enfaticamente” ao presidente […]

O encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca hoje (27) colocou no centro do debate uma proposta defendida há anos pelo bolsonarismo: classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.

Durante a reunião em Washington hoje (27), Flávio afirmou ter pedido “enfaticamente” ao presidente americano que as duas maiores facções criminosas do Brasil sejam enquadradas pelos Estados Unidos como grupos terroristas estrangeiros. Segundo o senador, Trump respondeu que irá analisar a proposta:

“Enquanto o Lula vai de joelhos para implorar ao presidente americano Trump que não declare organizações criminosas como CV e PCC como terroristas, eu faço o contrário. Eu fiz exatamente esse pedido a ele para que ele declare CV e PCC como organizações terroristas, sim, que é o que eles são. Nós temos aí um em cada quatro brasileiros morando em áreas dominadas por facções criminosas que impõem suas próprias regras”, disse o presidenciável. Flávio Bolsonaro afirmou ainda em coletiva de imprensa que quer fazer acordos com outros países da América Latina, Europa, Israel e EUA para colaborarem no combate às facções brasileiras de tráfico de drogas. 

No discurso, Flávio fazia referência ao encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump realizado no começo deste mês. Na ocasião, Lula cobrou maior cooperação americana no combate ao crime organizado e mencionou brasileiros investigados que vivem nos Estados Unidos. “Eu disse ao presidente Trump: ‘Se você quiser combater o crime organizado de verdade, você tem que entregar alguns nossos que estão morando em Miami’”, afirmou. O presidente brasileiro também declarou que o Brasil está disposto a discutir a criação de um grupo internacional voltado ao enfrentamento das organizações criminosas.

A discussão está longe de ser apenas simbólica.

O que significa classificar uma facção como organização terrorista

Quando os Estados Unidos classificam uma organização como “Foreign Terrorist Organization” (Organização Terrorista Estrangeira), passam a valer mecanismos muito mais rígidos de combate financeiro, diplomático e internacional. 

Na prática, o enquadramento permite congelar contas e ativos ligados ao grupo, bloquear movimentações internacionais, ampliar sanções econômicas e reforçar o monitoramento por agências de inteligência americanas e estrangeiras. 

A classificação também abre espaço para punições contra pessoas, empresas ou instituições que mantenham qualquer tipo de relação financeira com essas organizações. Além disso, fortalece juridicamente operações internacionais conduzidas pelos EUA no combate ao terrorismo e ao crime transnacional, justamente o ponto que gera resistência dentro do governo brasileiro. 

Governo afirma que EUA poderão usar isso para interferir na soberania brasileira

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva evita apoiar oficialmente a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas porque avalia que isso pode abrir espaço para interferência externa em assuntos internos do Brasil.

  • Nos bastidores, diplomatas e integrantes do governo argumentam que PCC e CV são organizações criminosas voltadas ao lucro, e não grupos com motivação ideológica, religiosa ou política, característica normalmente associada ao terrorismo.

Lula já deu declarações críticas ao avanço da influência americana sobre temas internos de segurança na América Latina. Em agendas internacionais recentes, o presidente afirmou que o Brasil “não aceita tutela de ninguém” e que o país “não pode permitir interferência estrangeira em decisões nacionais”.

A preocupação do governo é que a classificação transforme o combate às facções em um tema de segurança internacional liderado pelos EUA, ampliando a pressão americana sobre políticas brasileiras de inteligência, fronteiras e segurança pública.

Viagem de Flávio sinalizou proximidade com a direita internacional

A proposta defendida por Flávio Bolsonaro também reforça o alinhamento ideológico entre o bolsonarismo e o trumpismo.

Nos Estados Unidos, Donald Trump tem defendido uma política de endurecimento máximo contra carteis e organizações criminosas na América Latina. Parte da direita americana passou a defender, inclusive, que grupos ligados ao narcotráfico sejam tratados formalmente como ameaças terroristas.

Ao pedir apoio de Trump para enquadrar PCC e CV dessa forma, Flávio começa a revelar sua política de segurança pública defendida em nível internacional. 

Aliados do senador afirmam que a medida ajudaria a asfixiar financeiramente as facções brasileiras, ampliaria a cooperação internacional e dificultaria operações de lavagem de dinheiro feitas fora do país.

Críticos afirmam que a proposta mistura combate ao crime com estratégia política e pode criar um precedente delicado para a soberania brasileira.

O pano de fundo político

O encontro com Trump aconteceu em meio à pior crise da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.

Nas últimas semanas, a proximidade do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, gerou desgaste político e atingiu as intenções de voto do parlamentar em pesquisas recentes.

O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro não pensa em desistir da candidatura e, com a viagem aos Estados Unidos, tenta reafirmar a aproximação de sua família com Donald Trump. Além disso, ao retomar o tema de segurança pública nos Estados Unidos, o pré-candidato retoma um dos temas de maior preocupação da população brasileira, segunda as últimas pesquisas de intenção de voto. 

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