- A psicóloga e escritora Lígia Baruch analisou a mudança nas relações amorosas entre os jovens, destacando a conexão com a independência feminina.
- A última década, marcada pela Quarta Onda do Feminismo, trouxe conquistas significativas para as mulheres, que agora buscam autonomia financeira e novas prioridades na vida.
- Muitas mulheres estão optando por não ter filhos e não priorizar relacionamentos, focando em carreira e estudos.
- A história mostra que o amor e a família sempre se transformaram, e a ideia de uma tradição imutável é um mito.
- A mudança nas relações também gera desafios para os homens, que buscam equilibrar novas dinâmicas sem perder sua identidade.
Esta reportagem é um desdobramento da entrevista com a psicóloga e escritora Lígia Baruch, publicada recentemente pelo Portal Tela, que analisou por que tantos jovens têm repensado (ou desistido) do namoro. Agora, ampliamos a discussão para entender como essas transformações nas relações se conectam à independência feminina e à redefinição do amor nos dias de hoje.
O que muda quando as mulheres mudam
Na última década — especialmente após a chamada Quarta Onda do Feminismo, iniciada em meados dos anos 2010 — as mulheres conquistaram espaços antes negados a elas. Essa fase é marcada pelo uso intenso das redes sociais e da tecnologia para mobilização, conhecida como ciberfeminismo ou ciberativismo.
Hoje, o caminho de muitas mulheres passa pela universidade e pelo mercado de trabalho, não apenas para garantir o básico, mas para bancar sonhos e luxos. Essa autonomia financeira também trouxe mudanças de prioridades: se antes a expectativa social era casar e ter filhos, hoje a vida adulta envolve escolhas e responsabilidades múltiplas — carreira, estudos, vida pessoal e, muitas vezes, a chamada jornada tripla, que soma o trabalho remunerado às tarefas domésticas e ao cuidado com filhos ou familiares. Nesse cenário, cresce o número de mulheres que não desejam ser mães ou que sequer consideram um relacionamento como prioridade.
O passado nem sempre foi tão “tradicional” assim
É o fim do amor? Para muitos mais velhos, a resposta é “sim” e a culpa estaria na “modernidade” e em uma juventude “libertina e sem limites”. Mas críticas geracionais sempre existiram. A verdade é que o amor e a família nunca foram conceitos fixos; sempre se transformaram de acordo com o contexto social e cultural.
Basta olhar para a história. No final da Idade Média portuguesa, por exemplo, Sérgio Alberto Feldman mostra que o “verdadeiro amor” muitas vezes acontecia fora do casamento. Reis tinham amantes e concubinas, e filhos bastardos podiam ser mais queridos que os legítimos, caso das casas reais de Avis e de Bragança, fundadas por filhos ilegítimos de reis. O adultério era duramente condenado… desde que cometido pela mulher.
Na Grécia Antiga, a democracia excluía as mulheres — assim como estrangeiros e escravos — da participação política. Elas não podiam votar, propor leis ou ocupar cargos públicos. Eram tratadas como propriedade, sem direito a decidir sobre a própria vida.
E durante séculos, em muitas famílias reais, casamentos consanguíneos eram arranjados para “manter puro” o sangue e preservar o poder. Um ideal tão valorizado na época quanto estranho à nossa mentalidade atual.
Mudar a forma, manter a essência
Esses exemplos mostram que o imaginário de uma tradição “imutável” nunca existiu. Cada época moldou os relacionamentos à sua maneira — nem sempre de forma justa ou igualitária. Hoje, em um mundo tecnológico e conectado, buscamos igualdade de gênero, respeito e oportunidades para todos. Seria incoerente que as formas de amar permanecessem congeladas no tempo.
Preservar a essência do amor significa manter o cuidado, a parceria e os laços, independentemente de sangue ou papel social. Família é quem protege, ensina, acompanha e se mantém presente.
O dilema masculino em 2025
Essa transformação, porém, trouxe novos desafios. Algumas mulheres dizem que os homens parecem inseguros, “sem assumir um papel claro no relacionamento”. O dilema é: como ser um homem contemporâneo, que divide tarefas domésticas, expressa sentimentos, faz terapia e respeita a autonomia feminina, sem se sentir “menos homem”?
Não há resposta única. Alguns já encontraram equilíbrio; outros ainda vivem o desconforto da transição. Talvez a questão não seja “para onde vão os relacionamentos”, mas como vamos aprender a amar de um jeito que faça sentido para o presente — e não para um passado idealizado.
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