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O cartão que todos culpam e poucos entendem

Cartão funciona em três frentes: à vista, parcelado sem juros e rotativo; o rotativo é caro, mas representa pequena fatia do endividamento, enquanto o crédito não consignado pesa mais.

OPINIÃO. O cartão que todos culpam — e quase ninguém entende
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  • O cartão de crédito tem três usos distintos: transação à vista com custo zero, parcelado sem juros (em até doze vezes) e rotativo com juros elevados, utilizado quando não há pagamento integral.
  • Dados indicam que 57% do valor transacionado é à vista e 43% é parcelado sem juros, somando 12,4% do saldo total da dívida das famílias.
  • O rotativo representa 2,7% do saldo da dívida e compromete 0,3% da renda; o parcelado com juros soma 2,0% do saldo e 0,3% da renda; juntos, 0,6% da renda.
  • O crédito pessoal não consignado, com 8,3% do saldo e cerca de 4,5% da renda, é mais significativo no impacto à renda do que rotativo e parcelado com juros somados.
  • A Lei 14.690/2023 limitou juros e encargos do rotativo e do parcelado da fatura ao valor original da dívida, mas o estoque antigo continua sob regime anterior; ainda há necessidade de regulação adicional.

O cartão de crédito funciona como três produtos distintos, mas a cobertura jornalística costuma tratar apenas o rotativo como o principal problema. Dados dos bancos centrais e associações de crédito mostram isso com clareza.

Segundo o Banco Central e a Abecs, o rotativo responde por 2,7% do saldo total da dívida das famílias, enquanto o parcelado com juros soma 2,0%. Juntos, somam 4,7% do saldo, não representando o conjunto da carga de endividamento.

O rotativo tem juros médios elevados, de 189% ao ano, com inadimplência em fevereiro de 2026 em 63,5%. A taxa anunciada de 436% ao ano corresponde apenas a um segmento específico, não ao uso total do cartão.

Estrutura do crédito no cartão

Os dados indicam que o uso sem juros é mais comum: 57% do valor transacionado é à vista, 43% é parcelado sem juros. Esses modos têm custo zero para o portador, mas transferem custos aos lojistas e à economia via preços.

O crédito habitacional representa 2,2% da renda, com taxa média de 9,5% ao ano, diferentemente do rotativo e do parcelado com juros, que somam 0,6% da renda conjunta. O crédito pessoal não consignado responde por 4,5% da renda.

Questões regulatórias e estoque antigo

A Lei 14.690/2023 estabelece que, para operações contratadas a partir de 2024, os juros acumulados no rotativo não podem superar o valor original da dívida. A transição ainda não está completa, pois o estoque antigo segue sob regras anteriores.

No conjunto, o crédito pessoal não consignado, com taxa de 117% ao ano, tem influência relevante no endividamento, apesar de menos divulgado, respondendo por cerca de 8,3% do saldo total.

Impacto na renda e leitura correta dos dados

O comprometimento de renda das famílias atingiu 29,3% em janeiro, o maior nível histórico desde 2005. A composição por modalidade revela que o rotativo pesa pouco no saldo, mas muitas vezes absorve parcelas da renda de forma contínua.

O panorama mostra que o debate não deve reduzir o cartão a um único segmento caro. O rotativo é parte de um quadro maior, com crédito pessoal e consignado também contribuindo para a despesa mensal.

Conclusão técnica

Os números sugerem que a atenção regulatória deve mirar o custo efetivo total de cada modalidade e a educação financeira para evitar uso inadequado do crédito. Dados oficiais confirmam que o cartão tem utilidades legítimas quando utilizado com acompanhamento adequado.

Edson Santos é conselheiro, consultor e investidor com atuação em meios de pagamento e serviços financeiros. Fonte: Banco Central e Abecs.

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