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Álbum de figurinhas: as Copas do meu mundo

Um álbum invisível de Copas revela como memórias da família sobrevivem ao tempo, transformando perdas em continuidade

Vô Briguet fica ao meu lado e tenta me consolar. Diz que a vida reserva tristezas muito maiores do que uma derrota na Copa do Mundo. (Foto: Imagem produzida por ChatGPT/Gazeta do Povo)
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  • O texto compara o álbum de figurinhas da Copa com um álbum invisível, onde a cada eleição aparecem cenas da casa, da família e da vida cotidiana, não apenas jogadores.
  • Entre 1974 e 1982, o narrador relembra televisão em preto e branco, lágrimas com derrotas e a presença de pais e avô nas partes emocionais do futebol.
  • Aos poucos, as lembranças se expandem para momentos com música, festas em casa e a participação de familiares em diferentes Copas, marcando as emoções vividas.
  • A partir de 1986 até 2018, perde-se pessoas queridas que acompanhavam as jogos, mas o futebol continua a acompanhar a memória da família.
  • Em 2026, o texto conecta mudanças físicas (Sarriá demolido; Basílica da Sagrada Família elevada) à ideia de memória que persiste, como a família funcionando como uma catedral que aponta para o céu.

O álbum de figurinhas que eu colecionava vinha do chiclete Ping Pong. A cada troca, buscava corrigir as injustiças do destino na Copa do Mundo. Enquanto o tempo passou, as figurinhas ganharam novas versões.

Hoje, o que coleciono não são jogadores nem escudos, e sim cenas do cotidiano: salas de estar, vozes familiares, cães assustados com rojões, visitas à porta, avós, pais, filhos. Cada página revela um fragmento do mundo naquele instante.

Ao folhear, percebo que cada Copa deixou lembranças que vão além de resultados. Em páginas amareladas, ficou a vida do tempo presente, que resolveu permanecer.

1974 a 1982: primeiras imagens e perdas

A televisão em preto e branco acorda aos poucos. O Brasil fica em quarto, dominado pelo carrossel holandês. Meu pai e meu avô estão ao meu redor, mesmo sem eu entender tudo.

Na sequência, 1978 traz o jingle Go-o-o-o-l Brasil. A derrota do Brasil para a Argentina com 6 a 0 faz chorar pela primeira vez por futebol. A música parece carregar a tristeza do momento.

Em 1982, a Itália vence novamente a minha lembrança de infância. O choro vem com Paolo Rossi marcando gols. O avô tenta consolar, e a lição fica para a vida.

1986 a 1994: mudanças e impactos

Em 1986, o frio de Araçatuba corta a escola; a Copa marca a primeira sem o avô Briguet. Em 1990, o conceito de futebol como instrumento de alienação surge, ainda que haja tristeza pela derrota.

1994 traz a final entre Brasil e Itália. Na sala, zeladores da UEL oram e seguram as mãos. Baggio falha e a emoção é de choro coletivo entre os presentes.

1998 a 2006: juventude, perdas e aprendizados

1998 chega com um presságio ruim ao amigo Pafu, que aparece com um bongô. Em 2002, a vitória vem em família; todos pulam juntos pela alegria do Brasil.

2006 traz a imagem de Roberto Carlos ajustando o meião enquanto Henry avança para o gol. A melancolia é profunda pela ausência da vó Maria.

2010 a 2022: gerações e mudanças

2010 não é visto com clareza: Pedro recém-nascido, pai ausente da memória. 2014 é marcado pela primeira Copa sem a mãe. 2018 acon­tece em casa, com o cachorro buscando abrigo dos rojões.

Em 2022, o registro não é de gol, mas do técnico Tite deixando os jogadores no gramado após a derrota para a Croácia.

O que 2026 traz e o final da narrativa

Em 2026, o Estádio Sarriá desaparece, demolido em 1997, e a Basílica da Sagrada Família atinge a maior altura no mundo, ainda em construção. O tempo derruba estádios, apaga endereços, mas a memória persiste.

Ao fechar o álbum, vejo que nada desapareceu: as pessoas, a televisão que demora a acender, o chocolate quente da mãe, o cão Ace, o vô Briguet, a vó Maria. A memória parece uma catedral que sustenta a vida.

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