“O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras-raras e minerais críticos.” A declaração realizada por Flávio Bolsonaro em um evento nos EUA expôs, de forma direta, um tema que, até poucos anos atrás, permanecia restrito a círculos técnicos: a importância estratégica das chamadas terras raras. A […]
“O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras-raras e minerais críticos.”
A declaração realizada por Flávio Bolsonaro em um evento nos EUA expôs, de forma direta, um tema que, até poucos anos atrás, permanecia restrito a círculos técnicos: a importância estratégica das chamadas terras raras.
A fala provocou reação política imediata, incluindo acusações de submissão a interesses estrangeiros. Além da disputa retórica, ela aponta para uma realidade mais ampla: o avanço de uma nova geopolítica baseada não apenas em território ou energia, mas em minerais essenciais para o funcionamento da economia moderna.
No centro dessa transformação está um grupo de elementos químicos pouco conhecidos do público, mas absolutamente decisivos para o mundo contemporâneo.
O que são terras raras
As chamadas terras raras formam um conjunto de 17 elementos químicos da tabela periódica. Entre eles estão os 15 lantanídeos, além do escândalo e do ítrio.
Apesar do nome, esses elementos não são raros no sentido geológico. Estão presentes em diferentes regiões do planeta e podem ser encontrados em diversos tipos de solo e minerais.
O que os torna estratégicos e, na prática, escassos é outra característica:
eles aparecem em baixas concentrações e misturados a outros materiais, o que torna sua exploração difícil, cara e tecnicamente complexa .
Na prática, grandes volumes de terra precisam ser processados para extrair pequenas quantidades utilizáveis desses elementos.
Além disso, o processo de separação exige técnicas químicas sofisticadas, frequentemente associadas a alto custo e impacto ambiental.
Pequenos elementos, impacto gigantesco
Embora utilizados em quantidades mínimas, as terras raras são fundamentais para o funcionamento de tecnologias modernas.
Elas estão presentes em:
- smartphones e computadores;
- telas, LEDs e equipamentos eletrônicos;
- turbinas eólicas e painéis solares;
- veículos elétricos;
- equipamentos médicos;
- sistemas militares avançados.
“Sem a exploração destes minerais para serem usados na indústria moderna, não teríamos os avanços tecnológicos de que hoje dispomos. Eles podem fazer cadeias produtivas inteiras podem pararem”, afirma o especialista em direito público Gustavo Ribeiro. Explica ainda que o Brasil seria o detentor da segunda maior reserva mineral de ETR no mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas, o que representa 23% das reservas mundiais. O levantamento foi realizado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos(USG).
Em 2025, restrições de exportação impostas pela China chegaram a provocar interrupções em linhas de produção da indústria automotiva global, evidenciando a dependência desses insumos.
Um dos usos mais importantes está na produção de ímãs permanentes de alta potência, essenciais para motores elétricos e equipamentos eletrônicos.
Esses ímãs permitem fabricar dispositivos:
- menores,
- mais leves,
- mais eficientes.
Foi justamente essa característica que possibilitou a miniaturização da tecnologia nas últimas décadas — transformando computadores do tamanho de salas em dispositivos portáteis.
Minerais críticos: a base da nova economia
As terras raras fazem parte de um grupo mais amplo conhecido como minerais críticos, ou seja, considerados essenciais para a economia e a segurança nacional.
Esse grupo inclui também:
- lítio,
- cobalto,
- níquel,
- manganês,
- nióbio.
Tais minerais estão diretamente ligados a duas grandes transformações em curso:
- a transição energética,
- e a digitalização da economia.
O avanço de carros elétricos, baterias, semicondutores e equipamentos de defesa aumentou de forma acelerada a demanda global por esses insumos .
Um recurso no centro da geopolítica
Nos últimos anos, as terras raras deixaram de ser apenas um tema técnico e passaram a ocupar um espaço central nas relações internacionais.
A disputa envolve principalmente duas potências: Estados Unidos e China.
A China domina grande parte da cadeia global, especialmente as etapas de processamento e refino, o que lhe confere uma vantagem estratégica significativa.
Já os Estados Unidos buscam reduzir essa dependência, ampliando a produção interna e tentando garantir acesso a reservas em outros países.
Esse movimento tem ampliado o interesse internacional por regiões ricas em minerais, entre elas, o Brasil.
O papel do Brasil
O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, concentrando cerca de 23% dos depósitos globais, segundo dados citados por especialistas .
Além disso, o país também se destaca em outros minerais estratégicos, como o nióbio — do qual detém mais de 90% das reservas mundiais.
Apesar desse potencial, o Brasil ainda participa pouco da cadeia global:
- produz em escala limitada;
- exporta matéria-prima;
- e tem baixa capacidade de refino e industrialização.
Isso significa que o país possui o recurso, mas ainda não captura todo o valor econômico que ele pode gerar.
As terras raras ajudam a revelar uma mudança silenciosa no funcionamento da economia global.
Os recursos são encontrados em pequenas quantidades, dispersos no solo, incorporados a tecnologias que sustentam desde a comunicação digital até sistemas de defesa.
O valor passa a ser definido pela raridade e importância econômica.
No novo mapa do poder global, não é apenas quem possui esses recursos que importa.
É quem domina sua transformação, sua tecnologia e sua cadeia produtiva.
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