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“Raras, mas não exatamente terras”: conheça os minerais citados por Flávio Bolsonaro que estão no centro da disputa entre EUA e China

Minerais estratégicos estão por trás de celulares, carros elétricos e sistemas militares, e transformaram recursos naturais em instrumentos de poder no século XXI.

Terras raras são um ativo precioso. Imagem: O Globo.

“O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras-raras e minerais críticos.”  A declaração realizada por Flávio Bolsonaro em um evento nos EUA expôs, de forma direta, um tema que, até poucos anos atrás, permanecia restrito a círculos técnicos: a importância estratégica das chamadas terras raras. A […]

“O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras-raras e minerais críticos.”

 A declaração realizada por Flávio Bolsonaro em um evento nos EUA expôs, de forma direta, um tema que, até poucos anos atrás, permanecia restrito a círculos técnicos: a importância estratégica das chamadas terras raras.

A fala provocou reação política imediata, incluindo acusações de submissão a interesses estrangeiros. Além da disputa retórica, ela aponta para uma realidade mais ampla: o avanço de uma nova geopolítica baseada não apenas em território ou energia, mas em minerais essenciais para o funcionamento da economia moderna.

No centro dessa transformação está um grupo de elementos químicos pouco conhecidos do público, mas absolutamente decisivos para o mundo contemporâneo.

O que são terras raras

As chamadas terras raras formam um conjunto de 17 elementos químicos da tabela periódica. Entre eles estão os 15 lantanídeos, além do escândalo e do ítrio.

Apesar do nome, esses elementos não são raros no sentido geológico. Estão presentes em diferentes regiões do planeta e podem ser encontrados em diversos tipos de solo e minerais.

O que os torna estratégicos e, na prática, escassos é outra característica:
eles aparecem em baixas concentrações e misturados a outros materiais, o que torna sua exploração difícil, cara e tecnicamente complexa .

Na prática, grandes volumes de terra precisam ser processados para extrair pequenas quantidades utilizáveis desses elementos.

Além disso, o processo de separação exige técnicas químicas sofisticadas, frequentemente associadas a alto custo e impacto ambiental.

Pequenos elementos, impacto gigantesco

Embora utilizados em quantidades mínimas, as terras raras são fundamentais para o funcionamento de tecnologias modernas.

Elas estão presentes em:

  • smartphones e computadores;
  • telas, LEDs e equipamentos eletrônicos;
  • turbinas eólicas e painéis solares;
  • veículos elétricos;
  • equipamentos médicos;
  • sistemas militares avançados.

“Sem a exploração destes minerais para serem usados na indústria moderna, não teríamos os avanços tecnológicos de que hoje dispomos. Eles podem fazer cadeias produtivas inteiras podem pararem”, afirma o especialista em direito público Gustavo Ribeiro. Explica ainda que o Brasil seria o detentor da segunda maior reserva mineral de ETR no mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas, o que representa 23% das reservas mundiais. O levantamento foi realizado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos(USG). 

Em 2025, restrições de exportação impostas pela China chegaram a provocar interrupções em linhas de produção da indústria automotiva global, evidenciando a dependência desses insumos.

Um dos usos mais importantes está na produção de ímãs permanentes de alta potência, essenciais para motores elétricos e equipamentos eletrônicos.

Esses ímãs permitem fabricar dispositivos:

  • menores,
  • mais leves,
  • mais eficientes.

Foi justamente essa característica que possibilitou a miniaturização da tecnologia nas últimas décadas — transformando computadores do tamanho de salas em dispositivos portáteis.

Minerais críticos: a base da nova economia

As terras raras fazem parte de um grupo mais amplo conhecido como minerais críticos,  ou seja, considerados essenciais para a economia e a segurança nacional.

Esse grupo inclui também:

  • lítio,
  • cobalto,
  • níquel,
  • manganês,
  • nióbio.

Tais minerais estão diretamente ligados a duas grandes transformações em curso:

  • a transição energética,
  • e a digitalização da economia.

O avanço de carros elétricos, baterias, semicondutores e equipamentos de defesa aumentou de forma acelerada a demanda global por esses insumos .

Um recurso no centro da geopolítica

Nos últimos anos, as terras raras deixaram de ser apenas um tema técnico e passaram a ocupar um espaço central nas relações internacionais.

A disputa envolve principalmente duas potências: Estados Unidos e China.

A China domina grande parte da cadeia global, especialmente as etapas de processamento e refino, o que lhe confere uma vantagem estratégica significativa.

Já os Estados Unidos buscam reduzir essa dependência, ampliando a produção interna e tentando garantir acesso a reservas em outros países.

Esse movimento tem ampliado o interesse internacional por regiões ricas em minerais, entre elas, o Brasil.

O papel do Brasil

O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, concentrando cerca de 23% dos depósitos globais, segundo dados citados por especialistas .

Além disso, o país também se destaca em outros minerais estratégicos, como o nióbio — do qual detém mais de 90% das reservas mundiais.

Apesar desse potencial, o Brasil ainda participa pouco da cadeia global:

  • produz em escala limitada;
  • exporta matéria-prima;
  • e tem baixa capacidade de refino e industrialização.

Isso significa que o país possui o recurso, mas ainda não captura todo o valor econômico que ele pode gerar.

As terras raras ajudam a revelar uma mudança silenciosa no funcionamento da economia global.

Os recursos são encontrados em pequenas quantidades, dispersos no solo, incorporados a tecnologias que sustentam desde a comunicação digital até sistemas de defesa.

O valor passa a ser definido pela raridade e importância econômica. 

No novo mapa do poder global, não é apenas quem possui esses recursos que importa.
É quem domina sua transformação, sua tecnologia e sua cadeia produtiva.

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