Uma pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), citada em fevereiro pela revista Science, uma das principais revistas científicas do mundo, investiga por que aves estão desaparecendo de florestas tropicais intactas, inclusive em áreas da Amazônia onde a vegetação continua de pé. O estudo é desenvolvido dentro do projeto IRRIGA, na Fazenda Experimental da Ufam, […]
Uma pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), citada em fevereiro pela revista Science, uma das principais revistas científicas do mundo, investiga por que aves estão desaparecendo de florestas tropicais intactas, inclusive em áreas da Amazônia onde a vegetação continua de pé.
O estudo é desenvolvido dentro do projeto IRRIGA, na Fazenda Experimental da Ufam, e busca entender se a redução das chuvas e o aumento das temperaturas estão afetando a alimentação, a reprodução e a sobrevivência das aves.

Os primeiros resultados mostram que as aves capturadas em áreas irrigadas estavam em melhores condições. Elas apresentavam níveis mais altos de gordura no sangue e sinais físicos de maior sucesso reprodutivo em comparação com as aves encontradas em áreas sem irrigação.
O fenômeno tem sido associado por pesquisadores a uma possível nova “primavera silenciosa”, expressão que faz referência ao livro Silent Spring, publicado em 1962 pela bióloga Rachel Carson. No caso das florestas tropicais, a comparação aponta para uma perda menos visível do que o desmatamento: a redução constante de aves mesmo em ambientes que parecem preservados.
O projeto IRRIGA é coordenado pela professora Cintia Cornelius, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB-Ufam) e do Programa de Pós-Graduação em Zoologia (PPGZOOL). A iniciativa também é liderada pelos pesquisadores David Luther, da George Mason University, e Jared Wolfe, da Michigan Technological University, com participação de docentes e estudantes da Ufam e do Inpa.

Pesquisa contou com chuva simulada na floresta
No experimento principal, a equipe instalou uma rede de 3 quilômetros de tubulações e 72 aspersores em partes da floresta. A ideia é complementar a chuva natural durante a estação seca para reproduzir níveis de umidade registrados na década de 1980.
Com isso, os pesquisadores conseguem comparar a condição das aves que vivem em áreas mais úmidas com a de aves expostas às secas atuais.
Mesmo em anos de extremos climáticos opostos, como a severa seca de 2024 e o excesso de chuva em 2025, os dados preliminares sugerem que as aves se beneficiam de estações secas mais úmidas.
Para os pesquisadores, esse resultado reforça a hipótese de que as mudanças climáticas afetam a disponibilidade de insetos e, consequentemente, a sobrevivência das espécies.
O alerta também aparece em estudos de longo prazo sobre aves do sub-bosque, grupo que vive próximo ao solo da floresta e depende de ambientes úmidos, sombreados e estáveis.
Um levantamento publicado na Science Advances analisou 4.264 capturas individuais de aves ao longo de 27 anos e apontou que estações secas mais severas reduziram a sobrevivência aparente de 24 das 29 espécies avaliadas.

O modelo do estudo previu que um aumento de 1 °C na temperatura média da estação seca reduziria em 63% a sobrevivência aparente média da comunidade de aves do sub-bosque.
Calor e seca ameaçam aves que vivem perto do solo
As aves insetívoras estão entre as mais vulneráveis. Elas se alimentam de insetos e vivem próximas ao solo, em áreas onde pequenas mudanças de temperatura, umidade e oferta de alimento podem provocar grandes impactos.
Além do desmatamento, fatores como aquecimento global, secas mais frequentes, mudanças no regime de chuvas, incêndios florestais e alterações no microclima da floresta podem afetar diretamente essas espécies.
O calor extremo faz com que as aves gastem mais energia para manter a temperatura corporal. Ao mesmo tempo, a seca reduz a oferta de água, frutos e insetos, recursos essenciais para alimentação, reprodução e sobrevivência.
A queda dessas populações também pode provocar efeitos em cadeia. As aves participam da dispersão de sementes, da polinização e do controle de pragas. Com menos aves frugívoras, a dispersão de sementes pode diminuir.
Já a redução de aves insetívoras pode alterar populações de insetos e pragas. Outros animais, como mamíferos, répteis e predadores que se alimentam de aves, também podem perder parte dos recursos disponíveis na cadeia alimentar.

O monitoramento, porém, ainda enfrenta obstáculos, já que o tamanho da Amazônia e a dificuldade de acesso a muitas áreas limitam o acompanhamento em larga escala. Entre as ferramentas apontadas para ampliar essa vigilância estão a bioacústica, com gravadores capazes de captar os sons da floresta, e o monitoramento comunitário.
A proteção de florestas primárias, a criação de corredores ecológicos, o combate ao fogo e ao desmatamento e o envolvimento de comunidades locais na coleta de dados aparecem entre as medidas de conservação mais urgentes.
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