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“A menina que matou os pais”: em documentário, Suzane ri, mostra nova família e tenta reconstruir sua imagem

Netflix dá voz à parricida condenada, e frieza ao revisitar o crime provoca reação nas redes e reacende debate.

Em documentário de duas horas, NEtFlix apresenta a versão de Suzane sobre o assassinato dos pais. Imagem: O Globo.

Mais de duas décadas após o assassinato dos pais, Manfred e Marísia, Suzane von Richthofen volta ao centro do debate público. O motivo é um documentário inédito da Netflix, lançado em versão restrita para um grupo seleto de assinantes especiais. Ainda sem data oficial de estreia, a produção está em fase de desenvolvimento, segundo a […]

Mais de duas décadas após o assassinato dos pais, Manfred e Marísia, Suzane von Richthofen volta ao centro do debate público. O motivo é um documentário inédito da Netflix, lançado em versão restrita para um grupo seleto de assinantes especiais.

Ainda sem data oficial de estreia, a produção está em fase de desenvolvimento, segundo a plataforma. A existência do projeto foi confirmada após o vazamento de imagens nas redes sociais, o que impulsionou a repercussão. As primeiras informações sobre o conteúdo foram reveladas pelo jornalista Ullisses Campbell, em reportagem publicada no jornal O Globo.

No documentário, Suzane reconstrói a própria história a partir de uma versão marcada por frieza emocional. Os relatos se iniciam na infância:

“Não tinha demonstração de amor, nem deles pra gente, nem da gente pra eles”, afirma. Em outro momento, reforça: “Meu pai era zero afeto. Minha mãe ainda tinha um pouco, mas era muito de vez em quando”.

Ela descreve a família como um ambiente de silêncio e distanciamento. “Eu e meu irmão fomos ficando invisíveis dentro de casa”, diz.

Para Campbell, a narrativa apresentada sustenta que esse contexto teria contribuído para o afastamento familiar, uma linha interpretativa que reaparece ao longo do relato.

Na sequência, Suzane aborda o início do relacionamento com Daniel Cravinhos, que, segundo ela, passou a ocupar o espaço emocional deixado pelos pais.

“O Daniel passou a ocupar todos os espaços da minha vida”, disse.

Ao mesmo tempo, relata o aumento da rejeição da família ao namorado dentro, especialmente por parte da mãe. “Ela falava que ele ia me puxar para o fundo do poço”, afirmou.

Risadas ao falar do crime chocaram a internet

Se o crime é conhecido, o que provoca maior reação agora é a forma como ele é narrado. Em um dos trechos mais comentados, Suzane relembra o período em que viveu com Daniel Cravinhos enquanto os pais viajavam:

“Foi um mês de liberdade total. Um sonho que eu não queria que acabasse. Era o dia inteiro de sexo, drogas e rock ’n’ roll”, afirma em momentos em que, segundo relatos da exibição, chega a rir ao recordar o período.

A recordação a fez dar reisadas. A reação contrasta com a gravidade do crime. Em outro trecho, ela descreve seu estado mental como dissociado:

“Eu não estava em mim. Era como um robô, sem sentimento”.

Sobre a noite do crime, ela afirma que teve culpa por ter levado Daniel e Christian Cravinhos até sua casa. No entanto, nega participação direta na execução.

“Eu fiquei no sofá, com a mão no ouvido para não escutar nada”. Em seguida, admite: “Eu sabia”.

Ao longo do documentário, reconhece também sua responsabilidade, ainda que tente delimitar seu papel.

“A culpa é minha. Claro que é minha”.

Ao mesmo tempo, busca se distanciar da execução: “Eu não construí a arma do crime. Não tenho nada a ver com isso”.

Entre relato, versão e controvérsia

O documentário também expõe uma série de divergências. Segundo a delegada responsável pelo caso, Cintia Tucunduva, Suzane foi encontrada dias após o crime em uma situação considerada incompatível com o luto: de biquíni, com bebida e um cigarro na boca, participando de uma espécie de confraternização na casa onde os pais haviam sido assassinados.

De acordo com o relato policial, ela teria apresentado o imóvel como se fosse um museu. “Este aqui é o lugar onde ocorreu o crime”, teria dito.

Suzane contesta essa versão.

A ausência de maior confrontação entre esses relatos é uma das principais críticas à produção, que se apoia majoritariamente na narrativa da própria protagonista e é acusada de oferecer a ela a oportunidade de reconstruir a própria imagem.

Além disso, o documentário apresenta a nova vida de Suzane, hoje casada, com um filho, e vivendo de forma aparentemente harmoniosa com o marido e os filhos dele. Segundo críticos, essas cenas reforçam a narrativa construída por ela própria a de que se tornou outra pessoa após o crime.

Documentário reacende debate sobre glamourização do crime
Mais do que recontar um caso conhecido, o documentário reacende uma discussão recorrente: até que ponto conceder protagonismo a autores de crimes contribui para a sua visibilidade? Até que ponto glamourizar pode se tornar um incentivo para condutas criminas?  

Nos últimos anos, o true crime tem testado esse limite. Séries como Dahmer – Um Canibal Americano, da Netflix, e entrevistas com Ted Bundy mostram como narrativas centradas no autor atraem audiência. Ao mesmo tempo, causam desconforto.

No Brasil, a glamourização de crimes por alguns veículos de mídia ocorre há muitos anos.

Em 2008, durante o chamado “caso Eloá”, a apresentadora Sônia Abrão negociou ao vivo com Lindemberg Alves Fernandes a libertação da moça. Além de não ter funcionado, a estratégia foi amplamente criticada após o desfecho trágico do sequestro.

Em 2012 e 2013, Gugu Liberato levou ao ar entrevistas dentro de presídios com condenados como Suzane von Richthofen e o ex-goleiro Bruno Fernandes das Dores de Souza, em programas exibidos com autorização judicial. Mais uma vez a polêmica se formou.

O apresentador protagonizou um escândalo na TV em 2003, quando seu programa exibiu uma suposta entrevista com integrantes do Primeiro Comando da Capital, que depois se revelou encenada. Os supostos integrantes eram figurantes contratados.

Anos antes, o Sequestro do ônibus 174 já mostrava outro aspecto desse fenômeno. No documentário Ônibus 174, o sequestrador deixa claro que uma de suas motivações para o crime era o desejo de visibilidade, sobretudo na TV.  A cena se tornou emblemática.

A partir dela, consolidou-se uma percepção incômoda: em certos casos, a exposição não apenas narra o crime, ela passa a integrá-lo. Mais do que consequência, a visibilidade se transforma em ativo, capaz de influenciar e até incentivar a própria ação criminosa.

A história de Suzane, a menina que matou os pais

A Netflix ainda não exibiu o documentário. Ele está disponível apenas para uma lista selecionada. No entanto, trechos divulgados nas redes sociais e relatos da pré-exibição indicam que o incômodo não vem apenas do que é dito, mas de como é dito, com distanciamento, naturalidade e, em alguns momentos, até leveza.

Mais de 20 anos depois, o caso continua a chocar; agora, por um motivo diferente: não apenas pelo crime, mas pela frieza com que ele é revisitado.

Entenda o caso

Em 31 de outubro de 2002, Manfred e Marísia von Richthofen foram assassinados dentro da própria casa, no bairro do Brooklin, em São Paulo. O crime foi planejado pela filha do casal, Suzane von Richthofen, então com 19 anos. O crime foi executado pelos irmãos Cristian e Daniel Cravinhos, com quem ela namorava.

Os pais foram mortos a pauladas enquanto dormiam. Após o crime, Suzane tentou simular um assalto para despistar a polícia, mas as investigações rapidamente apontaram inconsistências em sua versão.

O caso teve grande repercussão nacional e é considerado um dos mais emblemáticos da crônica policial brasileira. Suzane foi condenada a 39 anos de prisão por duplo homicídio qualificado. Após cumprir cerca de 20 anos em regime fechado e semiaberto, obteve progressão para o regime aberto em janeiro de 2023. Atualmente, vive no interior de São Paulo.

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