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Padre e especialista em suicídio compartilha história após a morte do pai

Igreja Católica revisa postura sobre suicídio, reconhecendo complexidade das condições mentais e oferecendo acolhimento a famílias afetadas

Pároco na Zona Leste de São Paulo, que se especializou em suicídio após a morte do pai (Foto: Reprodução)
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  • O padre Licio Vale compartilha sua experiência com o suicídio, tema que ainda gera tabus na Igreja Católica.
  • Ele perdeu o pai para o suicídio em 1970 e sua família não recebeu rituais funerários, pois a Igreja considerava o ato um pecado mortal.
  • A doutrina católica evoluiu desde a revisão do Código de Direito Canônico em 1983, reconhecendo a complexidade das condições mentais.
  • Atualmente, a Igreja não nega rituais funerários a suicidas e enfatiza a compaixão, considerando que muitos não têm a intenção de pecar.
  • O padre Licio, que atua na prevenção ao suicídio, atende de cinco a sete pessoas por semana em sua paróquia em São Paulo.

O padre Licio Vale, de 66 anos, compartilha sua trajetória e a evolução da doutrina da Igreja Católica sobre o suicídio, tema que ainda gera tabus. Ele viveu a dor da perda do pai, que se suicidou em 1970, e lembra que sua família, apesar de católica, não recebeu rituais funerários. Na época, a Igreja considerava o suicídio um pecado mortal, condenando as almas ao inferno.

A mudança na postura da Igreja começou com a revisão do Código de Direito Canônico em 1983, que passou a reconhecer a complexidade das condições mentais. Atualmente, a Igreja não nega mais os rituais funerários a suicidas, e o padre Licio destaca que a doutrina evoluiu ao dialogar com a ciência. Ele afirma que a maioria das pessoas que cometem suicídio não tem a intenção de pecar, pois estão em sofrimento emocional profundo.

Licio, que se tornou padre há 40 anos e é especialista em prevenção ao suicídio, realiza atendimentos em sua paróquia em São Paulo. Ele recebe pessoas em busca de ajuda, muitas vezes encaminhadas por outros padres. Estima-se que ele atenda de cinco a sete pessoas por semana, refletindo a crescente demanda por apoio psicológico.

A Igreja, que historicamente via o suicídio como uma violação do Quinto Mandamento, agora reconhece que fatores como depressão e angústia podem diminuir a responsabilidade do suicida. O Catecismo de 1992 afirma que não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram, enfatizando a compaixão e a compreensão.

O padre Licio também observa um aumento nos suicídios entre padres, com dados alarmantes que indicam uma média de 23 suicídios a cada 100 mil padres no Brasil. Ele destaca que a solidão e a pressão emocional são fatores de risco significativos para a saúde mental dos sacerdotes. A Igreja está aprendendo a lidar com o fenômeno do suicídio, mas o tabu ainda persiste na sociedade.

A série “Suicídio & Fé” da BBC News Brasil, da qual essa reportagem faz parte, busca desmistificar a relação entre religião e suicídio, abordando a necessidade de acolhimento e compreensão para aqueles que enfrentam essa realidade.

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