- Um estudo da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, revela novas informações sobre ataques cardíacos em pessoas com menos de 65 anos.
- A pesquisa analisou dados de dois mil setecentos e oitenta pacientes entre 2003 e 2018 e constatou que trinta e dois por cento dos infartos nessa faixa etária ocorreram por causas diferentes do entupimento das artérias.
- Entre os homens, vinte e cinco por cento dos ataques cardíacos foram causados por fatores alternativos, enquanto nas mulheres esse índice chegou a cinquenta e três por cento.
- A dissecação espontânea da artéria coronária (DEAC) foi quase seis vezes mais comum em mulheres, podendo ser confundida com infarto típico e levando a tratamentos inadequados.
- Infartos relacionados a fatores como anemia e infecção apresentaram a maior taxa de mortalidade em cinco anos, atingindo trinta e três por cento, mesmo em pacientes com danos cardíacos imediatos mais baixos.
Um estudo da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, está mudando a forma como médicos e pacientes entendem os ataques cardíacos em pessoas com menos de 65 anos. A pesquisa, publicada na revista científica *Journal of the American College of Cardiology*, analisou dados de 2.780 pacientes acompanhados entre 2003 e 2018 e revelou que 32% dos infartos nessa faixa etária ocorreram por causas diferentes do tradicional entupimento das artérias.
Mulheres mais afetadas por causas “não tradicionais”
O dado mais surpreendente aparece quando homens e mulheres são comparados. Entre os homens, 25% dos ataques cardíacos tiveram origem em fatores alternativos. Já entre as mulheres, esse índice chegou a 53% — mais da metade dos casos.
Segundo os pesquisadores, muitas pacientes sofreram dissecação espontânea da artéria coronária (DEAC), embolia ou outras condições que não têm relação com o acúmulo de placas de gordura nas artérias.
A DEAC, por exemplo, foi quase seis vezes mais comum em mulheres do que em homens. Trata-se de uma ruptura na parede de uma artéria do coração, que reduz ou interrompe o fluxo sanguíneo. O problema é grave e pode ser confundido com o infarto típico, levando até à colocação desnecessária de stents — procedimento que, nesse contexto, aumenta os riscos em vez de ajudar.
Menor incidência, mas maior desafio diagnóstico
O levantamento também mostrou que os ataques cardíacos foram menos frequentes em mulheres: 48 casos a cada 100 mil pessoas-ano, contra 137 entre os homens. No entanto, quando eles aconteciam, havia mais dificuldade no diagnóstico. Muitas vezes, os médicos classificavam erroneamente os quadros como infartos causados por placas de gordura, atrasando o tratamento correto.
Além da DEAC, outras causas como anemia, infecção e gatilhos relacionados ao estresse foram identificadas como fatores relevantes. Os casos de infartos “sem explicação” foram raros, representando menos de 3% do total.
Impacto na mortalidade
Um dos achados mais preocupantes foi que os infartos ligados a fatores como anemia ou infecção apresentaram a maior taxa de mortalidade em cinco anos: 33%. Isso aconteceu mesmo em pacientes que mostravam níveis mais baixos de dano cardíaco imediato.
Ou seja, embora esses episódios não estejam relacionados aos fatores de risco clássicos, como colesterol alto ou hipertensão, eles podem ser ainda mais letais no médio prazo.
Repercussão médica
Para o cardiologista Rajiv Gulati, chefe da Divisão de Cardiologia Intervencionista da Mayo Clinic e autor sênior do estudo, os resultados precisam gerar uma mudança de mentalidade:
> “Nossa pesquisa destaca a necessidade maior de repensar como abordamos ataques cardíacos nessa população, especialmente em mulheres adultas jovens. Clínicos precisam aumentar sua atenção para condições como DEAC, embolia e gatilhos relacionados ao estresse, e os pacientes devem buscar respostas quando algo não parece certo. Entender por que um ataque cardíaco ocorreu é tão importante quanto tratá-lo. Isso pode significar a diferença entre recuperação e recorrência.”
O que muda na prática
O estudo mostra que olhar além dos fatores de risco tradicionais é essencial para proteger adultos mais jovens, especialmente mulheres. Identificar corretamente as causas do infarto pode evitar procedimentos inadequados e aumentar as chances de recuperação plena.
A conclusão é clara: nem todo ataque cardíaco é igual. E compreender as suas origens pode salvar vidas.
Entre na conversa da comunidade