- A psicanálise aponta que o comportamento infantil é expressão e não apenas problema; a relação com cuidadores organiza as emoções da criança.
- A educação atual valoriza diálogo, escuta e conexão, mas traz desafio de manter limites sem recorrer ao medo e sem ser rígido.
- No consultório, observa-se que explicação sozinha não basta: é preciso sustentar a frustração; sem firmeza, a criança pode ficar desorganizada.
- Gentilezas diárias, como cumprimentar e agradecer, além de rotinas estáveis, ajudam a reconhecer o outro, entender limites e sentir pertencimento.
- Comportamentos desafiadores têm múltiplos fatores: estímulos, rotina, tempo de presença dos adultos, manejo de frustrações e cansaço emocional; é importante distinguir caso haja necessidade de avaliação especializada.
Na visão da psicanalista Mônica Pessanha, colunista da CRESCER, o comportamento infantil não é apenas um problema a ser corrigido, mas uma forma de expressão. O que chamamos de educação inadequada às vezes esconde dificuldades de autorregulação em formação, segundo a especialista.
A autora ressalta que, historicamente, a obediência foi associada a boa educação. Hoje, com o diálogo e a escuta como norte, emergem novos desafios: manter limites sem recorrer ao medo e ser firme sem rigidez. No consultório, muitos relatos apontam para a necessidade de sustentação ao falar da comunicação entre pais e filhos.
Um exemplo comum é de mães que afirmam conversar muito, porém sem que a criança seja realmente ouvida na frustração, o que pode levar a maior desorganização infantil. A análise aponta que ambiente suficientemente firme é essencial para a integração das próprias emoções pela criança.
Para a psicanalista, pequenas ações cotidianas ajudam no desenvolvimento emocional: cumprimentar, agradecer e pedir licença fortalecem a percepção de outro, os limites e o pertencimento. Esses gestos aparecem como aprendizagem social integrada ao dia a dia, não apenas como formalidade.
Além disso, o texto destaca que comportamentos desafiadores costumam ter múltiplos gatilhos: sobrecarga de estímulos, rotinas desorganizadas, tempo reduzido de presença parental, dificuldade em lidar com frustrações e cansaço emocional da criança.
O estudo de casos no consultório aponta situações como explosões de raiva no fim do dia, associadas a jornadas longas, atividades excessivas, pouco tempo de brincadeira livre e uso intenso de telas. O comportamento é interpretado como sinal de esgotamento, não mero capricho.
Outro momento sensível é a entrada na escola, por volta dos seis anos, ocasião que acarreta novas regras, comparação entre pares e maiores exigências emocionais. A orientação sugerida é acompanhamento e presença constante, não apenas correção.
A baixa tolerância à frustração também demanda cuidado: a capacidade de esperar, perder e aceitar o “não” se desenvolve por meio da relação com adultos que mantêm limites com empatia. A proteção excessiva pode, paradoxalmente, fragilizar a criança.
O texto reforça a importância de mediação tecnológica e de uma presença parental consistente. A relação entre estímulos rápidos e o desenvolvimento da atenção exige orientação para que a tecnologia seja fonte de aprendizado, e não de sobrecarga.
Por fim, distingue-se entre comportamento esperado do desenvolvimento e sinais que indicam necessidade de avaliação especializada. Transtornos como TDAH, ansiedade, depressão infantil, transtorno do espectro autista ou dificuldades de aprendizagem devem ser considerados quando há intensidade, repetição e prejuízo.
A recomendação central envolve rotinas previsíveis, limites consistentes, nomeação de emoções, presença real e exemplo positivo. A ideia é compreender que parentalidade respeitosa não é permissiva: envolve reconhecer sentimentos da criança e manter a condução responsável dos adultos.
Conclui-se, então, que a pergunta não é se as crianças estão mais desafiadoras, mas se adultos estão oferecendo a presença necessária para o tempo atual.
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