Três mortes, oito casos identificados e uma investigação internacional sobre possível transmissão entre passageiros dentro de um cruzeiro no Atlântico Sul. O surto de hantavírus registrado a bordo do navio holandês MV Hondius colocou autoridades sanitárias em alerta e reacendeu memórias da pandemia de Covid-19. Embora especialistas descartem, por enquanto, um risco semelhante ao do […]
Três mortes, oito casos identificados e uma investigação internacional sobre possível transmissão entre passageiros dentro de um cruzeiro no Atlântico Sul. O surto de hantavírus registrado a bordo do navio holandês MV Hondius colocou autoridades sanitárias em alerta e reacendeu memórias da pandemia de Covid-19. Embora especialistas descartem, por enquanto, um risco semelhante ao do coronavírus, o episódio voltou a expor como doenças infecciosas conseguem se espalhar rapidamente em ambientes fechados e altamente conectados globalmente.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até agora foram registrados oito casos relacionados ao surto: três confirmados para hantavírus e cinco suspeitos. Entre os mortos, uma mulher holandesa teve diagnóstico confirmado para a doença. As outras duas mortes seguem sob investigação.
O navio partiu de Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril, com 174 pessoas a bordo, passando por regiões remotas como Antártica, Geórgia do Sul, Santa Helena e Ilha de Ascensão. O destino final seria Cabo Verde, mas o país não possuía estrutura suficiente para realizar toda a operação sanitária e médica necessária, segundo autoridades internacionais.
Nesta quarta-feira (6), o governo da Espanha informou que todos os passageiros restantes estão assintomáticos. Os 14 espanhóis serão transferidos para um hospital em Madri e colocados em quarentena. Os demais passageiros serão repatriados para seus países de origem.
A decisão de permitir que o navio atraque em Tenerife, nas Ilhas Canárias, provocou disputa política interna na Espanha. O presidente regional das Canárias, Fernando Clavijo, afirmou que o desembarque não possui base técnica suficiente e questionou a necessidade de levar os passageiros ao arquipélago.
Mas o que mais chamou atenção das autoridades não foi apenas o número de mortes — e sim a suspeita de uma rara transmissão entre humanos.
O que é o hantavírus?
O hantavírus é um grupo com mais de 20 espécies de vírus transmitidos principalmente por roedores silvestres. A infecção acontece, na maioria dos casos, quando pessoas inalarem partículas contaminadas presentes na urina, fezes ou saliva desses animais. Diferentemente do imaginário popular, especialistas ressaltam que o vírus não está associado a ratos urbanos comuns, mas a espécies silvestres específicas.
Nas Américas, o hantavírus costuma provocar uma forma pulmonar extremamente agressiva da doença, chamada Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus. Os sintomas iniciais podem parecer uma gripe comum — febre, dores musculares, cansaço e mal-estar, mas a evolução pode ser rápida, levando à insuficiência respiratória grave.
A taxa de letalidade é considerada elevada. Segundo especialistas, entre 20% e 50% dos casos podem evoluir para morte, dependendo da cepa viral e da rapidez do tratamento médico.
Por que o caso preocupa?
Historicamente, o hantavírus não possui alta capacidade de transmissão entre humanos. O padrão predominante de infecção ocorre pelo contato indireto com secreções de roedores silvestres em áreas rurais.
A principal exceção é a chamada cepa Andes, encontrada sobretudo na Argentina e no Chile. Estudos anteriores já documentaram episódios raros de transmissão pessoa a pessoa entre contatos muito próximos. É exatamente essa possibilidade que agora está sendo investigada pela OMS dentro do navio.
O fato de o surto ter ocorrido em um cruzeiro torna o episódio ainda mais incomum. Especialistas afirmam que navios normalmente registram surtos ligados a vírus respiratórios altamente transmissíveis, como influenza, Covid-19 e norovírus. O hantavírus, por sua natureza, não costuma circular em ambientes como esse.
É possível que epidemia se assemelhe a um novo surto de Coronavírus?
A infectologista Elba Lemos, pesquisadora da Fiocruz e referência nacional em hantaviroses, afirma que o vírus possui transmissibilidade muito menor que a do SARS-CoV-2, responsável pela Covid-19. Segundo ela, não existe evidência de que o hantavírus tenha potencial para provocar uma pandemia semelhante.
Ainda assim, o episódio evidencia como ambientes fechados e com intensa circulação internacional continuam vulneráveis à disseminação de doenças infecciosas. Cruzeiros concentram milhares de pessoas em convivência prolongada, compartilhando sistemas de ventilação, espaços internos e áreas comuns, cenário semelhante ao observado durante os surtos de Covid-19 em navios no início de 2020.
Outro fator que preocupa autoridades é o longo período de incubação do hantavírus, que pode variar entre três e 60 dias. Isso significa que uma pessoa pode circular por diferentes países antes de apresentar sintomas, dificultando o rastreamento epidemiológico.
Até o momento, a OMS considera o risco para a população geral baixo e não recomenda restrições de viagem. O órgão orienta apenas monitoramento de sintomas, higiene frequente das mãos, ventilação adequada e isolamento de passageiros sintomáticos.
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