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Geração que desaprendeu a usar as mãos enfrenta consequências

O retorno das atividades manuais aponta recuperação de presença corporal e contenção emocional frente à hiperestimulação digital

Foto: Reprodução/Internet
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  • A geração está retornando a atividades manuais como bordado, cerâmica, desenho, pintura e costura, visto como necessidade emocional, não apenas entretenimento.
  • O excesso de tecnologia gera hiperestimulação, ansiedade constante, dificuldade de concentração e sensação de vazio, com o cérebro pouco preparado para esse ritmo.
  • Atividades manuais devolvem ritmo e continuidade, ajudam o corpo a participar da experiência emocional e reduzem a hiperatividade mental.
  • A lógica digital orienta consumo rápido e respostas imediatas; o trabalho manual exige espera, elaboração e pode funcionar como contenção emocional.
  • Na Bienal de Veneza, há espaços de descanso e contemplação que promovem desaceleração, refletindo a ideia de permanecer e ouvir como forma de efeito semelhante às práticas manuais.

O excesso de tecnologia tem consequências silenciosas que vão além da dependência digital. Não se trata apenas de distração, mas de mudanças profundas na forma como o corpo existe no mundo.

A vida contemporânea desloca a experiência humana para superfícies. Tocamos telas por horas e perdemos o contato com textura, ritmo, peso e permanência. Deslizamos os dedos em aplicativos e deixamos de sentir o toque do mundo material.

Agora, atividades manuais como bordado, cerâmica, desenho, pintura e costura voltaram a ocupar espaço significativo. Não apenas como passatempo, mas como necessidade emocional.

Defesa da atenção e do toque

Muitas pessoas chegam emocionalmente exaustas sem saber justificar. Ansiedade constante, dificuldade de concentração e irritabilidade aparecem mesmo após períodos de descanso. O cansaço cognitivo atravessa a geração.

O cérebro não foi preparado para hiperestimulação contínua. Notificações, excesso de informação, comparações constantes e velocidade alteram atenção, memória e percepção emocional.

A ansiedade moderna raramente encontra repouso. Mesmo em pausa física, a mente permanece em estado de antecipação, dificultando o estar presente.

O papel do trabalho manual

Movimentos manuais devolvem sequência temporal à experiência psíquica. Há começo, continuidade e conclusão; há permanência. Ao desenhar ou costurar, o corpo participa da experiência emocional, além da distração.

A lógica digital favorece consumo imediato e rápidas respostas. Saúde mental não opera nessa velocidade, enquanto o trabalho manual exige espera, elaboração e aceitação de erros como parte do processo.

Movimentos repetitivos ajudam a reduzir hiperatividade mental, criando previsibilidade para o sistema nervoso. Em cenários de excesso de estímulo, a repetição atua como contenção emocional.

Dinâmicas coletivas e cultura de tempo

Há crescimento de experiências coletivas ligadas a práticas manuais, com encontros presenciais mediados pela criação. Isso sinaliza uma reconstrução de vínculos fora da performance das redes.

A internet ampliou acesso, mas também intensificou comparação, aceleração e fragmentação subjetiva. Muitas pessoas perderam a capacidade de permanecer consigo mesmas sem distração constante.

Talvez essa retomada das atividades manuais seja menos nostalgia e mais sobrevivência psíquica. O corpo reconhece ritmo, textura e permanência de modo único.

Sinal cultural: Bienal de Veneza

Na Bienal de Veneza deste ano, a proposta curatorial inclui espaços de descanso e instalações que convidam à contemplação, à escuta e à desaceleração. A pausa deixa de ser intervalo e passa a linguagem da exposição.

O visitante, acostumado a circular, consumir e fotografar, é convidado a interromper a pressa. A obra funciona como limite para a velocidade de ver tudo, exigindo permanência.

Essa lógica se aproxima das atividades manuais, que também interrompem a aceleração. A mão devolve tempo à mente e a presença corporal volta a existir de forma mais estável diante da cultura digital.

Sobre Maria Klien

Maria Klien é psicóloga com mestrado na área, dedicada ao estudo de distúrbios ligados ao medo e à ansiedade. Sua prática integra métodos tradicionais e abordagens complementares, com foco nas demandas emocionais de cada indivíduo. Também atua na iniciativa Psicologia da Moda, que relaciona comportamento, identidade e expressão a partir do vestuário, buscando ampliar o acesso a recursos terapêuticos para o equilíbrio mental.

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