Cientistas estão repensando a criação de bactérias espelho, uma ideia que surgiu da especulação científica sobre a quiralidade, a propriedade que faz com que moléculas tenham imagens espelhadas. O conceito foi popularizado pelo romance “Spock Must Die!” de James Blish, onde um Spock duplicado deve sintetizar aminoácidos espelhados para sobreviver. A pesquisa sobre a possibilidade […]
Cientistas estão repensando a criação de bactérias espelho, uma ideia que surgiu da especulação científica sobre a quiralidade, a propriedade que faz com que moléculas tenham imagens espelhadas. O conceito foi popularizado pelo romance “Spock Must Die!” de James Blish, onde um Spock duplicado deve sintetizar aminoácidos espelhados para sobreviver. A pesquisa sobre a possibilidade de organismos espelho ganhou força, mas um grupo de quase 40 pesquisadores de 26 instituições, co-presidido por John Glass, concluiu que essa meta deve ser abandonada.
O relatório de 300 páginas, publicado na revista Science, alerta que bactérias espelho poderiam evadir mecanismos imunológicos, causando infecções letais em humanos, animais e plantas. Além disso, existe o risco de que essas bactérias se tornem espécies invasoras em ecossistemas. Apesar de algumas bactérias conseguirem viver em ambientes sem nutrientes quirais, a possibilidade de acidentes laboratoriais e a evolução de organismos para escapar de contenções levantam preocupações sobre a segurança.
Kate Adamala, co-autora do relatório, enfatiza que os riscos identificados são extraordinários e que a criação de bactérias espelho não deve ser uma prioridade. O apoio à decisão de não prosseguir com essa pesquisa é quase unânime entre os cientistas envolvidos. A discussão sobre os perigos das tecnologias genéticas continua em conferências, como a que ocorrerá em junho no Instituto Pasteur, em Paris.
Embora a síntese de biomoléculas espelhadas continue sem riscos, a criação de células espelho autossuficientes é considerada potencialmente perigosa. Jonathan Jones, especialista em defesas de plantas, destaca a necessidade de um debate internacional sobre os limites da pesquisa. A frase de Pamela Silver, bióloga sintética de Harvard, resume a questão: “Iogurte pode fazer mais iogurte, mas xampu não pode fazer mais xampu.”
Entre na conversa da comunidade