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O humano ainda é o algoritmo mais importante

Com trajetória que une negócios, cultura e tecnologia, Alexandre San Galo reflete sobre o papel da IA na criação de valor e no futuro do trabalho

Imagem: Portal Tela
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  • A Inteligência Artificial (IA) foi oficialmente nomeada em 1956, na Conferência de Dartmouth, nos Estados Unidos, por John McCarthy.
  • A IA generativa, que cria conteúdo novo, se tornou viável comercialmente a partir de 2022, transformando empresas e profissionais.
  • Alexandre San Galo, executivo especializado em IA, defende que a inteligência humana deve permanecer central na transformação digital, com ética e responsabilidade.
  • Ele alerta sobre quatro erros comuns na adoção de IA: ignorar benefícios, tentar provar limites, desistir após frustrações e confiar cegamente nos resultados.
  • Alexandre destaca que a IA pode democratizar a inovação, mas também aumentar desigualdades, e enfatiza a importância de fazer boas perguntas para aproveitar seu potencial.

Para muitos, a Inteligência Artificial (IA) surgiu junto com o ChatGPT, em meados de 2023. Mas quem se aprofunda no tema sabe que a história é bem mais antiga: a IA foi oficialmente batizada em 1956, durante a Conferência de Dartmouth, nos Estados Unidos, onde o termo foi cunhado por John McCarthy. Suas raízes, no entanto, remontam à década de 1940, com os trabalhos de Alan Turing e a criação do primeiro laboratório de IA na Carnegie Mellon.

Aquela IA de décadas atrás — voltada à lógica, regras e simulações matemáticas — tem pouco a ver com a revolução que vivemos hoje. Entramos na era da IA generativa, um subcampo que, em vez de apenas classificar ou analisar dados, é capaz de criar conteúdo novo: textos, imagens, músicas, códigos. Esse avanço, turbinado pela computação em nuvem e pelo acesso popular a modelos como o ChatGPT, Gemini e Copilot, se tornou comercialmente viável a partir de 2022 e, desde então, vem redesenhando o presente (e o futuro) de empresas, criadores e profissionais em todas as áreas.

Mas o que está realmente em jogo quando falamos de inteligência artificial? Eficiência ou propósito? Substituição ou expansão? Otimização ou reinvenção?

Para explorar essas questões, o Portal Tela conversou com Alexandre San Galo, executivo com trajetória marcada pela interseção entre negócios, cultura e tecnologia. Criador de uma metodologia própria de adoção de IA em empresas, Alexandre defende uma abordagem em que a inteligência humana permanece no centro, e onde ética, intuição e responsabilidade não podem ser dissociadas da transformação digital.

IA como ponto de largada coletivo

Alexandre compara a revolução da inteligência artificial ao safety car da Fórmula 1, que, em momentos críticos da corrida, desacelera o grid e reposiciona todos os competidores no mesmo ponto. “É uma oportunidade inédita de ‘pé de igualdade proporcional’, porque tudo ainda é muito novo”, afirma.

Segundo ele, o momento é raro: não há vantagem garantida por experiência prévia, capital acumulado ou networking. “Quem estiver disposto a se aprofundar e a ampliar horizontalmente seu conhecimento tem a chance de ocupar um espaço que antes não existia”, explica. “Estamos entrando em uma era de altíssima produtividade, com níveis de eficiência nunca antes experimentados”.

Humanos e Inteligência Artificial: lado a lado

Desde o início da explosão da IA generativa, Alexandre mergulhou na tecnologia para estruturar uma metodologia própria de adoção corporativa. Seu sistema é baseado na atuação conjunta de agentes especializados, alguns voltados para as tarefas-fim, outros para processos-meio, sempre coordenados por agentes orquestradores.

No desenvolvimento de software, por exemplo, cada etapa, da análise ao teste, é feita por agentes distintos, com modelos, regras e ferramentas próprias. Mas há um princípio inegociável: tudo passa por uma revisão humana rigorosa.

“A IA ainda não é confiável o suficiente para operar sem supervisão, mas seus benefícios são impossíveis de ignorar”, afirma. O segredo, segundo ele, está na costura entre autonomia das máquinas e responsabilidade humana.

Os principais equívocos na adoção da IA

Para Alexandre, há quatro erros clássicos que as empresas ainda cometem ao adotar IA:

1. Ignorar seus benefícios

2. Gastar energia tentando provar seus limites

3. Desistir diante de primeiras frustrações

4. Confiar cegamente no que ela produz

“Esses extremos — o ceticismo cego ou a euforia ingênua — dificultam a incorporação madura da IA nos negócios”, explica. O caminho, segundo ele, exige curiosidade crítica, abertura e teste contínuo.

Ferramenta de inclusão ou motor de desigualdade?

Na visão de Alexandre, a IA democratiza o acesso à inovação, mas também pode ampliar desigualdades já existentes. “Se entendermos que consciência crítica, capacidade de reflexão e pensamento lógico já são privilégios, imagine o impacto de uma ferramenta que amplia essas potencialidades?”

O avanço estará nas mãos de quem souber fazer boas perguntas. E, como ele mesmo destaca, “fazer boas perguntas não é trivial”. Enquanto o progresso social e econômico em larga escala, historicamente, se deu pela reprodução de fórmulas conhecidas, a IA premia justamente quem tem criatividade e pensamento não-linear. Isso pode abrir novos caminhos, mas também aumentar o abismo entre quem inova e quem apenas segue.

A criatividade também corre riscos

Com a IA tornando mais fácil criar, copiar, testar e publicar, surge uma preocupação com a pasteurização das ideias. Alexandre alerta: “O risco existe porque o ser humano tende à comodidade”.

Segundo ele, a homogeneização não vem da IA em si, mas do modo como ela é usada, sobretudo quando combinada à lógica das redes sociais. “Se alguém começa a ganhar dinheiro com um assistente de IA que faz gestão financeira via WhatsApp, veremos uma manada de novos empreendedores replicando a mesma ideia”.

Na prática, o prompt é o embrião da resposta, e se os prompts forem sempre os mesmos, os resultados também serão. O desafio, portanto, é usar a IA como alavanca para diferenciação, e não para repetição.

Ética: o contrapeso da velocidade

Quando perguntado sobre o papel da ética na adoção de inteligência artificial, Alexandre é categórico: “Espero que a ética funcione como um contrapeso à velocidade da inovação”.

Para ele, a IA deve ser balizada por princípios claros: “Ela precisa amplificar oportunidades sem comprometer valores humanos fundamentais.” Sem isso, corremos o risco de reforçar vieses, acelerar desigualdades e colocar eficiência acima do bem-estar coletivo.

E conclui com uma provocação:

“Evoluir está se tornando fácil demais. Mas penso que está cada vez mais difícil definir o que é, de fato, evoluir”.

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