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Geração das redes sociais é a mais solitária, aponta relatório internacional

Na América Latina, jovens relatam o alto nível de uso de redes sociais, mas não relatam maior satisfação com a vida.

Pesquisa do Instituto Gallup revela que jovens que mais ficam conectados às redes sociais são os que se sentem mais solitários. Imagem: Free Pik.

Juliana é uma jovem brasileira de 20 anos. Todos os dias, ela acorda e pega o celular antes mesmo de sair da cama. Em poucos minutos, já viu vídeos, fotos, notícias, mensagens. Ao longo do dia, repete o gesto dezenas de vezes. À noite, ainda online, sente que o tempo passou rápido e que algo […]

Juliana é uma jovem brasileira de 20 anos. Todos os dias, ela acorda e pega o celular antes mesmo de sair da cama. Em poucos minutos, já viu vídeos, fotos, notícias, mensagens. Ao longo do dia, repete o gesto dezenas de vezes. À noite, ainda online, sente que o tempo passou rápido e que algo ficou faltando.
A cena se repete em milhões de quartos, em diferentes países, todos os dias.

O que muda, agora, é que essa rotina deixou de ser apenas um comportamento comum e passou a ser objeto de alerta global. O World Happiness Report 2026, que analisou dados de dezenas de países, identificou um padrão consistente: quanto mais intenso o uso de redes sociais, menor tende a ser a satisfação com a vida entre jovens.

Mas a conclusão mais importante da análise não é tão simples quanto parece.

Jovens estão mais infelizes do que há 15 anos
Nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e em países da Europa Ocidental, jovens hoje estão menos satisfeitos com a vida do que estavam há 15 anos.

No mesmo período, o uso de redes sociais explodiu.
Dados da pesquisa mostram que, nesses países, a satisfação com a vida entre menores de 25 anos caiu, em média, 0,86 ponto numa escala de 0 a 10. A piora se concentrou entre jovens de 15 a 24 anos, em relação aos adultos. O fenômeno não é ignorado pela pesquisa, mas também não é tratada como explicação única. Os autores são cautelosos: a queda no bem-estar juvenil é resultado de múltiplos fatores, que variam de país para país. Ainda assim, deixam claro que o uso intenso das redes é “uma parte importante” dessa explicação.

O World Hapiness Report 2026 foi publicado na última terça-feira (17) pelo Wellbeing Research Centre (Oxford), em parceria com Gallup e a ONU. Eles analisaram informações de 270 mil estudantes em 47 países e também dados do Gallup World Poll, com cerca de 1.000 entrevistas anuais por país.

O ponto de virada: quando o uso deixa de ser escolha
Há um dado que ajuda a entender por que essa relação é tão difícil de romper.

Em uma pesquisa realizada com universitários nos Estados Unidos, a maioria afirmou que preferiria que redes sociais simplesmente não existissem. Ainda assim, continua usando, pois todos os outros usam.

É um ambiente em que sair pode significar desaparecer.

Esse mecanismo cria um tipo de dependência coletiva: não se trata apenas de escolha individual, mas de uma pressão social contínua.

Jovens latino-americanos usam muito redes sociais e ainda assim se dizem felizes
Se a questão fosse simples, os dados seriam uniformes. Não são. Em grande parte do mundo, especialmente fora do eixo de países de língua inglesa e da Europa Ocidental, o bem-estar dos jovens não caiu, mesmo com níveis semelhantes de uso de redes sociais.

Na América Latina, por exemplo, o uso elevado convive com níveis relativamente altos de satisfação com a vida. Países como Costa Rica e México aparecem entre os mais bem colocados no ranking global de felicidade.

Ainda assim, o relatório aponta que plataformas baseadas em algoritmos e influenciadores tendem a ter associação mais negativa com a satisfação do que aquelas focadas em comunicação.

Já no Oriente Médio e Norte da África, o bem-estar entre os jovens se manteve estável. Mesmo assim, usuários intensivos da internet ainda apresentem mais estresse e sintomas depressivos, especialmente quando passam mais de cinco horas por dia conectados. Entre 20% e 40% dos usuários nessa região relatam mais de cinco horas diárias de uso.

A diferença está menos na tecnologia e mais no contexto.

O padrão que se repete: excesso cobra um preço
Apesar das diferenças regionais, um padrão aparece de forma consistente: o uso muito intenso resulta na piora do bem-estar.

Dados do PISA mostram que adolescentes que passam mais de sete horas por dia em redes sociais têm níveis significativamente mais baixos de satisfação com a vida do que aqueles que usam por menos de uma hora. Entre meninas da Europa Ocidental, a diferença chega a quase um ponto inteiro na escala de 0 a 10, o dobro da observada em outras regiões.

Entre os usuários mais intensivos, também há maior incidência de estresse, sintomas depressivos e avaliações negativas sobre a própria vida. Esse padrão aparece em diferentes países e é mais forte entre jovens de menor nível socioeconômico, indicando que os efeitos negativos não são distribuídos de forma igual. Além disso, entre 2018 e 2022, essa associação entre uso intenso e piora na própria percepção de bem-estar se intensificou globalmente.

O relatório resume de forma direta: usuários intensivos estão em risco, especialmente em países ocidentais; entre os moderados, não há problema.

O que acontece fora da tela importa mais do que parece
Se há uma conclusão que aprofunda e complica o debate, ela está fora das redes. O relatório mostra que fatores como pertencimento social, relações de confiança e conexão emocional vêm se deteriorando, especialmente entre os mais jovens. Esse movimento é mais evidente entre a Geração Z e millennials, enquanto gerações mais velhas mostram maior estabilidade e, em alguns casos, até efeitos neutros ou positivos do uso digital.

  • A Geração Z é formada por nascidos entre 1997 e 2012 — hoje têm cerca de 13 a 28 anos; já os millennials são os nascidos entre 1981 e 1996 — atualmente com cerca de 29 a 45 anos.

Na Europa, por exemplo, houve queda em:
• confiança nas pessoas;
• frequência de interações sociais;
• sensação de vida social ativa.

Esses fatores estão entre os mais fortes determinantes do bem-estar. Eles explicam e mais de três quartos da variação da satisfação com a vida entre países, segundo o modelo do relatório.

As redes entram, nesse cenário, não apenas como causa, mas como parte de uma transformação mais ampla: a substituição (ou enfraquecimento) de relações presenciais por interações digitais. Entre jovens mais conectados, o impacto tende a ser mais negativo justamente quando o uso substitui interações offline.

Quando o digital substitui o real
O relatório aponta um fenômeno central: quanto mais comum se torna o uso de redes dentro de um grupo, mais negativos tendem a ser seus efeitos.

Isso acontece porque o digital passa a substituir, e não apenas complementar, as relações offline.

Em outras palavras: o problema não é só o que se ganha com as redes, mas o que se perde fora delas.

Nem consenso científico, nem solução simples
Apesar do volume crescente de evidências, o levantamento reconhece que nem mesmo a ciência chegou a um consenso sobre o impacto exato das redes sociais nas vidas das pessoas.

Mesmo assim, governos já começaram a agir.
Em dezembro de 2025, a Austrália elevou a idade mínima para uso de redes sociais de 13 para 16 anos em dez plataformas. Países como França, Espanha e Dinamarca discutem medidas semelhantes.

O que está em jogo
O relatório evita respostas fáceis, mas deixa um alerta claro: o problema não pode ser ignorado.

Há evidências suficientes para afirmar que, em escala global, as redes sociais já estão associadas a mudanças mensuráveis no bem-estar de uma geração inteira, especialmente onde seu uso é mais intenso. Mas também há um risco em simplificar demais a questão e não encontrar soluções.

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