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Como seriam as primeiras casas em Marte?

Artigo do Big Think explora soluções que vão da engenharia à biologia.

Como seriam as casas em Marte. Imagem: Superinteressante.

Se os humanos pretendem viver em Marte, precisarão de mais do que foguetes e ambição. Precisarão de habitats capazes de protegê-los da radiação, das variações extremas de temperatura e de uma atmosfera irrespirável. Construir esses abrigos na Terra não seria um desafio técnico relevante: bastaria erguer uma estrutura hermética e adicionar proteção contra radiação. Fora […]

Se os humanos pretendem viver em Marte, precisarão de mais do que foguetes e ambição. Precisarão de habitats capazes de protegê-los da radiação, das variações extremas de temperatura e de uma atmosfera irrespirável.

Construir esses abrigos na Terra não seria um desafio técnico relevante: bastaria erguer uma estrutura hermética e adicionar proteção contra radiação. Fora do planeta, porém, surge um obstáculo decisivo — o custo de levar materiais ao espaço.

Mesmo com foguetes reutilizáveis reduzindo despesas, cada quilo extra encarece significativamente a missão. Isso limita, de forma drástica, o que pode ser transportado. “A ideia de tijolos e concreto simplesmente não vai funcionar”, afirma Jim Head, geólogo planetário da Universidade Brown que participou do programa Apollo.

O que pode funcionar, no entanto, são fungos.


Um material vivo e resistente

Quando se pensa em fungos, a imagem mais comum é a dos cogumelos visíveis na superfície. Mas a principal estrutura do organismo é o micélio — uma rede de filamentos microscópicos que se espalha pelo solo e pela matéria orgânica.

Esses filamentos são revestidos por quitina, um polímero resistente também presente nos exoesqueletos de insetos e crustáceos. Ao crescer, o micélio transforma resíduos em uma estrutura leve, moldável e surpreendentemente resistente.

Nos últimos anos, esse material tem sido utilizado como alternativa à madeira, a embalagens e até ao couro.

Algumas espécies apresentam ainda uma característica crucial para o espaço: resistência à radiação. Fungos encontrados na região de Chernobyl, por exemplo, prosperam em ambientes altamente radioativos, utilizando pigmentos como a melanina para absorver e mitigar a radiação.

Mais do que uma curiosidade científica, essas propriedades colocam os fungos como candidatos reais à construção fora da Terra.


Construir com biologia

A cientista Lynn Rothschild, da NASA, estuda há anos como organismos vivos podem resolver desafios de engenharia. A ideia de usar fungos ganhou força ao se perceber que eles poderiam crescer a partir de resíduos combinados com o solo marciano.

Esses resíduos incluem embalagens, restos de alimentos e até dejetos humanos — materiais inevitáveis em qualquer missão de longa duração.

Além das estruturas principais, os fungos também poderiam dar origem a elementos internos dos habitats. “Em princípio, poderíamos fazer cortinas, camas, cadeiras e até carpetes”, afirma Rothschild.

O conceito evoluiu para um projeto financiado pela NASA, o Mycotecture Off Planet, que busca desenvolver construções feitas de micélio para uso na Lua e em Marte.


Como funcionaria na prática

A proposta prevê o envio de uma estrutura leve e dobrável, contendo esporos desidratados e nutrientes. Uma vez no destino, a adição de água ativaria o crescimento dos fungos.

O micélio então se expandiria, preenchendo a estrutura e formando uma espécie de domo habitável.

Parte significativa dos materiais poderia ser produzida no próprio planeta. Em Marte, o micélio poderia se combinar ao regolito, criando um equivalente extraterrestre de madeira aglomerada. No futuro, estima-se que apenas cerca de 1% do material precisaria ser transportado da Terra.


Os desafios ainda em aberto

Experimentos já demonstraram que o micélio pode ser transformado em blocos semelhantes a concreto ou madeira e atuar como isolante térmico — uma característica essencial em ambientes extremos.

Ainda assim, há obstáculos relevantes. Controlar o crescimento dos fungos e adaptá-los às condições espaciais permanece um desafio técnico.

“É muito difícil fazer um organismo agir exatamente como queremos”, observa o micologista David Hibbett.

Apesar disso, o potencial é significativo. Fungos conseguem sobreviver em condições extremas, se regenerar e crescer continuamente.

Se essas características forem plenamente aproveitadas, poderão reduzir drasticamente a necessidade de transportar materiais da Terra – e tornar viável a construção de habitats permanentes fora do planeta.

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