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Por que o Brasil não tem um Vale do Silício e o que falta para ter

Entenda os entraves que dificultam a escala de negócios no Brasil e as oportunidades que ainda impulsionam seu crescimento.

Entenda as dificuldades para que o Brasil tenha seu próprio Vale do Silício. Imagem: Forbes.

Em janeiro de 2026, os brasileiros Henrique Dubugras e Pedro Franceschini ganharam os holofotes ao vender sua empresa de cartões de crédito. O que chamou atenção foi o valor pago: 5,15 bilhões de dólares. Fundada em 2017, a empresa nasceu de um problema concreto: a dificuldade de acesso a crédito que os fundadores enfrentaram em […]

Em janeiro de 2026, os brasileiros Henrique Dubugras e Pedro Franceschini ganharam os holofotes ao vender sua empresa de cartões de crédito. O que chamou atenção foi o valor pago: 5,15 bilhões de dólares. Fundada em 2017, a empresa nasceu de um problema concreto: a dificuldade de acesso a crédito que os fundadores enfrentaram em empreendimentos anteriores.

O Brex é um entre muitos “unicórnios” do Vale do Silício, na Califórnia. Essas startups resolvem problemas reais, escalam rapidamente e atingem valor bilionário em curto prazo.

Ao falar em Vale do Silício, a imagem que surge é quase um símbolo: os jovens Steve Jobs e Steve Wozniak montando computadores em uma garagem, em Los Altos, em 1976. Ali nasceu a Apple e, com ela, uma nova era tecnológica que remodelou a vida em sociedade. A “cena da garagem” representa um ideal poderoso, de que grandes inovações poderiam surgir em qualquer lugar.

A garagem onde Steve Jobs e Steve Wozniak montaram seus primeiros computadores — movimento que daria origem à Apple. Imagem: Wikipedia.
A garagem onde Steve Jobs e Steve Wozniak montaram seus primeiros computadores — movimento que daria origem à Apple. Imagem: Wikipedia.

Mas transformar uma ideia em um negócio de larga escala não depende apenas da execução. Um ambiente de negócios pulsante é decisivo

O contexto em que uma empresa nasce influencia tudo, da criação à escala. Para o empreendedor Luís Felipe Silveira, negócios inovadores dependem de um ecossistema de incentivo capaz de levá-los aos bilhões ou até trilhões. Esse ambiente não resulta de um único fator, mas da combinação de fatores críticos:

“Pense em uma empresa de tecnologia que nasce no Vale do Silício: ela pode captar milhões na fase inicial, escalar com rodadas sucessivas e, depois, acessar bilhões via mercado de capitais. Esse ciclo só é possível em um ambiente com investidores sofisticados, regras claras e previsibilidade institucional”, afirma ele, que tem mais de 25 anos de experiência em ramos como construção e incorporação, gastronomia e tecnologia.

Acesso a crédito, segurança jurídica e previsibilidade regulatória não são apenas conceitos, mas fatores decisivos para que uma empresa tenha condições de escalar.

Sem esses elementos, talvez o Brex e a Apple até pudessem surgir no Brasil, mas dificilmente cresceriam tanto ou no mesmo ritmo.

O Vale do Silício como ecossistema 

Definir o Vale do Silício apenas como um polo tecnológico é simplificar o fenômeno. Mais do que um endereço, a região funciona como um sistema que integra universidades, empresas e capital, sustentado por uma cultura empreendedora consolidada.

No centro dessa estrutura está a Universidade Stanford, que desde o final da década de 1940 aproxima a pesquisa acadêmica do mercado.

Do Google à Tesla, da Intel à Meta, ali se cria o que antes não existia, solucionam-se problemas que pareciam impossíveis e simplifica-se o que parecia complexo.

A partir daí, forma-se um ciclo: ideias surgem, recebem financiamento, viram negócios de alta performance e investem em novos negócios, sob uma cultura de “tolerância ao erro”, que o incorpora como parte do aprendizado.

Da primeira ideia ao financiamento da próxima geração de startups

A integração entre governo, universidades e empresas criou as bases da indústria de tecnologia moderna. 

Naquela região de São Francisco, na Califórnia, consolidaram-se as bases que permitem a empresas crescer até alcançar valores trilionários. É isso que explica por que a inovação ali não apenas surge, ela passa a ter condições de escalar. 

“Uma startup não cresce sozinha, ela cresce conectada a um sistema que acelera seu desenvolvimento. No Vale do Silício, há um histórico de sucesso que retroalimenta o próprio ecossistema: fundadores que vendem suas empresas se tornam investidores, executivos experientes circulam entre empresas e o conhecimento acumulado se espalha rapidamente”, enfatiza.

O empreendedor Alex Faria, que atua nos mercados brasileiro e norte-americano, aponta a mentalidade como a principal diferença:

“O ambiente de empreendedorismo brasileiro é marcado por uma loucura atrás da outra. Isso faz com que o empresário tenha de gastar muita energia lidando com incertezas. Para mim, o que ocorre é uma cultura que vilaniza o empresário, que é, na verdade, o maior capital estratégico de uma nação”.

Com mais de 25 anos de atuação no setor de telecomunicações, Faria aponta que os principais entraves no Brasil são a falta de previsibilidade institucional e segurança jurídica:

“Em telecomunicações, existe necessidade de investimentos estruturais robustos e de longo prazo. Para se sentir seguro, o investidor precisa saber como o negócio irá se desenvolver. Sem essa possibilidade, o acesso ao capital fica difícil e caro”, diz.

O segredo é transformar ideias em ativos globais de sucesso

O Vale do Silício se sustenta sobre quatro pilares fundamentais.

  • Acesso a capital. O acesso a venture capital permite financiar inovação sem exigir resultados imediatos. Isso reduz o custo do erro e acelera a experimentação.
  • Cultura empreendedora. O fracasso não é estigmatizado. Pelo contrário, é compreendido como parte do processo de aprendizado. Além disso, há valorização do empresário.
  • Incentivo ao talento e formação de alto nível. Universidades de excelência desenvolvem pesquisas de ponta e políticas de imigração atraem profissionais altamente qualificados do mundo inteiro. No ambiente correto, eles conseguem desenvolver inovação e executar em alto nível.
  • Eficiência regulatória. Abrir, operar e fechar empresas é relativamente simples, e a previsibilidade jurídica reduz incertezas.

Esses elementos formam um ciclo de fortalecimento contínuo que permite potencializar e manter empresas. 

O ambiente desafiador da América Latina

O que faz países como os Estados Unidos produzirem mais empresas bilionárias não é apenas a disponibilidade de capital, mas um sistema capaz de transformar ideias em ativos globais de forma consistente.

“O ponto relevante é que o ecossistema americano consegue financiar, sustentar e valorizar empresas com ambições tecnológicas extremamente complexas, como exploração espacial, satélites globais e infraestrutura orbital, algo que exige não apenas capital, mas um ambiente institucional, tecnológico e financeiro profundamente sofisticado”, afirma.

Já a América Latina tem avançado de forma gradual. De acordo com o relatório Business Ready 2025, a região possui marcos regulatórios sólidos, porém, enfrenta desafios em eficiência operacional.

O relatório não avaliou o Brasil, que tem o melhor ambiente de negócios da região. Segundo o Innovators Business Environment, o país lidera na América Latina para empresas de inovação e startups.

Ainda assim, há menos casos de sucesso. Falta um ambiente plenamente integrado. Muitas vezes, o empreendedor precisa “reinventar a roda”, enfrentando desafios que, em mercados mais maduros, já foram resolvidos.

A América Latina ainda está construindo esse sistema. E é justamente nesse processo que reside o principal desafio, mas também as maiores oportunidades.

Onde o sistema trava

Os entraves do ambiente de negócios brasileiro são estruturais. A burocracia segue como um dos principais obstáculos. Abrir e operar uma empresa exige processos complexos e custos elevados, o que reduz a velocidade de crescimento.

Hélio Pepe, especialista em direito empresarial, aponta três fatores que travam os negócios no país: juros altos, insegurança jurídica e falta de padronização regulatória.

O custo de capital também pesa. Com juros historicamente elevados, financiar inovação fica mais caro, especialmente para empresas em estágio inicial.

“Nos Estados Unidos, o capital é abundante e diversificado: venture capital, private equity, hedge funds, family offices e um mercado de capitais extremamente líquido”, afirma Silveira.

A diferença também é cultural. Enquanto a América Latina mantém um perfil mais conservador de investimento, o investidor norte-americano banca crescimento acelerado, mesmo sob risco. Apesar de avanços recentes, o capital na região ainda é escasso e caro. Isso leva muitas empresas a crescer de forma orgânica ou com crédito limitado — o que reduz a capacidade de alcançar escala global com rapidez.

Ambiente de negócios X Qualidade de Vida

Existe uma relação consistente entre ambiente de negócios e qualidade de vida em todos os países. Economias que incentivam mais o empreendedorismo tendem a crescer mais, gerar empregos e ampliar o acesso à renda, educação e saúde.  

Para o professor do MIT Daron Acemoglu, esse processo começa nas regras do jogo: países prosperam quando suas instituições criam incentivos para investir, inovar e participar da atividade produtiva.

A economista Renata Barreto aponta para o mesmo caminho, sob a ótica brasileira. “O Brasil precisa de um ambiente de negócios melhor. É assim que se geram empregos, e este, a geração de empregos, é o maior programa social que existe”, afirmou em entrevista no YouTube.

Os dados reforçam essa relação. Países com ambientes de negócios mais estruturados concentram também os níveis mais altos de desenvolvimento humano, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), das Nações Unidas.

É possível observar essa correlação de forma direta:

Ranking de Eficiência Regulatória – Business Ready 2025
Posição do país Nível de IDH

1º República Tcheca Muito alto
2º Estônia Muito alto
3º Coreia do Sul Muito alto
4º Letônia Muito alto
5º Eslováquia Muito alto
6º Reino Unido Muito alto
7º Singapura Muito alto
8º Geórgia Muito alto

Esses países se encontram nas oito principais posições do Business Ready 2025, com desempenho consistente nos três pilares do relatório: marco regulatório de qualidade, serviços públicos eficientes e alta eficiência operacional. O levantamento é organizado pelo Banco Mundial e tem como objetivo avaliar o ambiente de negócios e investimentos em todo o mundo. O Brasil não foi avaliado por questão metodológica, o estudo considerou apenas 101 países. Em 2026, é provável que seja incluído na avaliação. 

Um modelo brasileiro possível

Se o Brasil não pode ser um Vale do Silício, o caminho passa por fortalecer polos próprios de empreendedorismo, tecnologia e inovação. Casos como o Porto Digital, em Recife; o San Pedro Valley, em Belo Horizonte; e o TecnoPuc, em Porto Alegre, ilustram esse movimento. Somam-se a eles o Parque Tecnológico de São José dos Campos e o Sapiens Parque, em Florianópolis, ambos conhecidos por integrar indústria e tecnologia de ponta.

A Ilha do Silício, em Florianópolis, é um dos principais polos tecnológicos brasileiros. Imagem: CNN.
A Ilha do Silício, em Florianópolis, é um dos principais polos tecnológicos brasileiros. Imagem: CNN.

Para virar um polo de empresas capazes de ganhar escala, o Brasil ainda precisa destravar pontos básicos. É preciso ampliar o consumo de inovação no mercado interno, dar peso real ao papel do empreendedor e aproximar, de fato, universidades, empresas e governo,  uma conexão que ainda não funciona como deveria. Também passa por mudar a relação com o risco: em vez de punição, ele precisa ser entendido como parte do processo. No fim, tudo converge para um obstáculo conhecido. Empreender no país ainda custa caro – e isso continua sendo um dos principais limites ao crescimento.

Alex Faria avalia que o Brasil reúne condições para se tornar um grande player em inovação tecnológica nos próximos anos, especialmente com o avanço da inteligência artificial:

“Temos todos ou quase todos os insumos para sermos líderes na nova revolução tecnológica. O que falta é, sobretudo, vontade para que se construam políticas de Estado que possam desenvolver ambientes de negócios”, afirma.

Para Hélio Pepe, o caminho está longe de ser simples:

“Acredito que o problema seja estrutural e cultural. Um possível ponto de partida seria a desburocratização das estruturas regulatórias e a unificação dos processos de licenciamento, algo já ensaiado, em parte, pela Lei da Liberdade Econômica”, diz.

Pepe também aponta a necessidade de mudança da percepção social sobre risco e lucro:
“Se o risco do empreendedor fosse realmente compreendido pela sociedade, e se os índices de falência, especialmente entre pequenos negócios, fossem tão debatidos quanto os casos de sucesso, talvez avançássemos para um ambiente regulatório mais respeitoso com o capital.”

Apesar dos entraves, há sinais que sustentam algum otimismo. Com 64 milhões de CNPJs ativos e uma taxa de desemprego de 5,8%, próxima ao mínimo histórico, o país caminha rumo a um destino de nação empreendedora. O desafio agora é transformar esse potencial em um ambiente de negócios mais simples e eficiente, capaz de gerar empregos e aumentar a renda de modo progressivo e eficiente. Só assim, as pessoas terão mais oportunidades e maior liberdade.

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