Argentinos mantêm grande parte de suas economias fora do sistema financeiro, apesar de incentivos de Milei para que migrem para contas em dólares. Autoridades estimam que cerca de US$ 170 bilhões estejam fora dos bancos, vivendo em espécie, cofres ou no exterior.
O governo pretende estimular a formalização por meio de um programa que facilita a repatriação de poupanças em dólar, reduzindo exigências de declaração e o escrutínio fiscal. Mesmo assim, o efeito até agora tem sido limitado: depósitos em dólar cresceram menos de US$ 1 bilhão desde o lançamento, em fevereiro.
A resistência a confiar no sistema financeiro é histórica na Argentina. Em 2001, o colapso levou à imposição de restrições a saques e à conversão de depósitos em dólar, gerando desconfiança duradoura. Hoje, o hábito de guardar dinheiro fora do banco persiste entre consumidores e comerciantes.
O paradoxo da demanda por dólares
Apesar da piora recente na confiança, a demanda por moeda estrangeira segue firme. Estima-se que o país compre cerca de US$ 2 bilhões mensalmente em câmbio, com picos acima de US$ 6 bilhões em períodos de tensão política. Cerca de 10% dessas compras permanecem em espécie.
Analistas destacam que a proteção contra a desvalorização orienta a decisão de guardar valores em dólares. O câmbio não é apenas uma aposta econômica, mas também uma salvaguarda diante de incertezas institucionais que, segundo especialistas, demoram a se dissipar.
Perspectivas e mensagens oficiais
O Ministério da Economia aponta dados indicando que os depósitos em dólar estão em nível elevado, com o que seria o maior volume desde 2001. Autoridades ressaltam que, para estimular a economia, é essencial aumentar a confiança nas instituições financeiras.
Economistas ouvidos ressaltam que a efetividade de qualquer programa depende de mudanças estruturais de longo prazo. A expectativa é de que a confiança no sistema bancário melhore à medida que políticas estáveis ganhem a adesão da população.
Visões de atores locais
Entre comerciantes e cidadãos, o conteúdo do câmbio continua a moldar decisões de investimento. Um vendedor de automóveis usados em Buenos Aires comenta que o dólar funciona como proteção financeira, especialmente em momentos de instabilidade política. Já um açougueiro local associa a dependência do dólar a ciclos de eleições e valorização da moeda norte-americana como reserva de valor.
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